Domingo, 31 de Agosto de 2008

RESTOS



 



de Mário Araújo
Ficção Brasileira - Contos
Páginas - 192



Mário Araújo narra 19 contos em que a morte e a solidão, observadas sob variados pontos de vista, são temais centrais

Vencedor do Prêmio Jabuti em 2006, Mário Araújo não engana o leitor sobre o que este vai encontrar pela frente. A narrativa de abertura dá título e tom ao livro: num cemitério, um homem acompanha o remanejamento dos restos mortais de seus parentes, a fim de abrir espaço no jazigo da família para o corpo do pai recém-falecido.

Em seguida, Araújo enfileira outros 19 contos marcados por observações da morte e da solidão. Segundo ele “de uma como da outra, pode-se afirmar que foram alijadas das conversas cotidianas, em um mundo dominado pela preocupação com a sobrevivência, com a fama e com o êxito econômico e profissional a qualquer custo. No livro, porém, merecem ênfase especial, pois entendo que a literatura deva recuperar os espaços excluídos da vida cotidiana, por meio da exploração do que há de trágico, de mágico e de sublime nas situações ditas corriqueiras.”

UM LANÇAMENTO DA



 
publicado por o editor às 15:40
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A PROMESSA DA POLÍTICA







de Hannah Arendt

Sociologia
Páginas - 288
 

A promessa da política reúne textos inéditos da teórica política Hannah Arendt (1906-1975). O livro, que tem como base dois projetos iniciados pela autora na década de 1950, época em se dedicou à investigação do marxismo, é dividido em seis partes: “Sócrates”, “A tradição do pensamento político”, “A revisão da tradição em Monstesquieu”, “De Hegel a Marx”, “O fim da tradição” e “Introdução na política”. Trata-se de um exame crítico de todo o pensamento político ocidental, mostrando como Arendt compreende o fracasso dessa tradição em explicar a ação humana.

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publicado por o editor às 15:39
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CANALHA!



 


de Carpinejar

Ficção Brasileira - Crônicas
Páginas - 320

MAIS UM CARPINEJAR SURPREENDENTE!
Canalha!, novo livro de crônicas do escritor gaúcho Fabrício Carpinejar, é uma provocação desde o título. Um ato corajoso e irreverente contra os rótulos masculinos. Uma leitura divertida do homem contemporâneo, perplexo e desorientado com as transformações de comportamento e a dissolução dos papéis fixos familiares. O autor mostra que o canalha mantém o charme sexual, mas não é mais o mesmo apregoado pelo Nelson Rodrigues e tantos escritores da metade do século XX.

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publicado por o editor às 15:38
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A LOUCURA DE STALIN



 


de Constantine Pleshakov

Páginas - 350

Chega às livrarias o livro de Constantine Pleshakov, "A Loucura de Stalin" (editado pela Difel) contando a história dos trágicos dez dias iniciais da segunda guerra mundial no front oriental. Em 22 de junho de 1941, Hitler lançou um violento ataque em três frentes contra a União Soviética e em dez dias suas tropas estavam prestes a alcançar Moscou. Recorrendo a uma rica documentação só recentemente disponível, que vai dos arquivos secretos do Politburo e das memórias dos principais generais aos telegramas diplomáticos e memorandos da polícia secreta, o historiador russo Constantine Pleshkov retrata de forma surpreendente, Stalin, mostrando-o como um líder vulnerável . Revisionismo histórico? Até pode ser, porém o livro fartamento documentado mostra um momento da história fundamental para a formação da nova Europa.
Baseando-se em documentos abertos recentemente, o escritor e historiador russo Constantine Pleshakov narra a história secreta da invasão da União Soviética pelo exército alemão durante a Segunda Guerra Mundial. A loucura de Stalin revela o que realmente aconteceu durante os trágicos dez dias inicias da maior investida por terra de todos os tempos, mostrando como Stalin massacrou seus próprios soldados para se manter no poder. Num tenso relato que oferece uma nova e mais profunda compreensão da História, Pleshakov retrata o líder russo, o temido déspota, como um ser vulnerável e inerte que, num momento decisivo, deixou seu país sem liderança. Tendo como pano de fundo uma inquietante visão geral do sofrimento humano causado pelas insanidades de um ditador, A loucura de Stalin, de Constantine Pleshakov, é uma leitura densa e esclarecedora.

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publicado por o editor às 15:37
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A MULHER DO PILOTO




de Anita Shreve

Páginas - 320
 

Uma mistura de drama, suspense e monólogo interior. É o que vive a protagonista de A mulher do piloto, Kathryn Lyons. Quando Kathryn é acordada por batidas à sua porta em plena madrugada e, sonolenta, toca os pés no chão frio, um aperto inconsciente toma conta de seu coração. No momento em que, após destrancar a fechadura, ouve o homem de rosto comprido e triste pronunciar seu nome daquela forma, tomando fôlego rapidamente, Kathryn compreende tudo: o pior acontecera a seu marido Jack, comandante de aeronaves. O avião pilotado por ele explodiu perto da costa da Irlanda, com mais de cem pessoas a bordo.
O acidente logo se transforma no assunto mais comentado pela imprensa nacional, fazendo com que Kathryn seja carregada por um redemoinho de publicidade. Após 16 anos de um casamento feliz, ela descobre, através dos noticiários, que seu marido recém-falecido mantinha uma vida dupla em segredo.
Kathryn decide descobrir a qualquer preço quem realmente era seu companheiro. Iniciando uma investigação por conta própria, acaba entrando em contato com o passado desconhecido do homem com quem dividiu a mesma cama – mas não os pensamentos – durante quase duas décadas.
Será possível conhecer de fato uma pessoa? É a pergunta que permeia toda a narrativa de A mulher do piloto, por meio da qual Anita Shreve vai costurando os detalhes desse mistério e descrevendo a dor de uma mulher.


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publicado por o editor às 15:36
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BERTRAND BRASIL E DIFEL - DESTAQUES NA RECENTE BIENAL


O pacote de lançamentos das Editoras Bertrand Brasil e Difel, foram um dos grandes destaques da recente Bienal do Livro que aconteceu em São Paulo.

Diversidade de assuntos, apoio aos autores nacionais e livros de pêso para as bibliotecas universitárias foram o destaque desta duas grandes editoras brasileiras.

Iremos aqui apresentar alguns deles lançamentos do mês de Agosto.

publicado por o editor às 14:16
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Sexta-feira, 29 de Agosto de 2008

A CIDADE DAS PALAVRAS






As histórias que contamos para saber quem somos

de Alberto Manguel


Páginas - 152
 

Nos primeiros anos do século XX, pouca gente teria motivo para suspeitar da velha definição do homem como animal social ou da confiança moderna na história como marcha do progresso humano. Depois de um século de extrema violência e intolerância, num planeta que sofre com a degradação ambiental, não são poucos os que se perguntam: afinal, por que vivemos juntos e para onde nos encaminhamos?
O consenso de outrora virou a perplexidade de hoje, e é desta que partem as reflexões de Alberto Manguel em A cidade das palavras. São reflexões de um homem de letras, para quem a linguagem, a ficção e a literatura ocupam um lugar decisivo na experiência humana. Para ele, a linguagem tem o dom de impor alguma ordem ao mundo, e a narrativa nos permite constituir nossas identidades.
Leitor eclético e enciclopédico, Manguel sabe pensar a partir das narrativas mais variadas: obras e autores são aqui convidados a iluminar as questões que o preocupam. Como as histórias que contamos nos ajudam a perceber a nós mesmos e aos outros? Como elas conferem identidade a indivíduos, grupos e sociedades? Serão elas capazes de mudar quem somos e o mundo em que vivemos?

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Jean Michel Massa encerra nesta sexta-feira Simpósio sobre Machado de Assis






O professor da Universidade de Rénnes 2, Jean Michel


Massa, encerra o Simpósio Internacional Caminhos


Cruzados: Machado de Assis pela Crítica Mundial nesta


sexta, dia 29, com a palestra "A França que Machado de


Assis nos legou". Antes, há a mesa-redonda "Machado de


Assis: acadêmico", com a participação do embaixador


Sérgio Paulo Roaunet, o poeta e professor do curso de


letras da UFRJ Antônio Carlos Secchin e do diplomata


Alberto Costa e Silva.



Promovido pela Unesp e Editora Unesp, com apoio do MinC,


o Simpósio Internacional Caminhos Cruzados: Machado de


Assis pela Crítica Mundial reúne, em evento gratuito


aberto ao público, os grandes nomes da crítica machadiana


nacional e internacional. O Simpósio teve início na


última segunda-feira (25) e termina na próxima sexta-


feira (29), no auditório do MASP, em São Paulo.



No dia de abertura, falaram o escritor Milton Hatoum e o


professor de Literatura Brasileira da Unicamp, Roberto


Schwarz. Na terça-feira (26), o professor da US Naval


Academy, especializado em literatura do Cone Sul, Todd


Garth e Thomas Sträeter, professor na Universidade de


Heidelberg, na Alemanha, participaram de uma mesa-redonda


com o tema "Machado de Assis e o panorama intelectual,


técnico e científico do séc. XIX".



No final da tarde de quarta-feira (27), das 17h às 18h, o


chileno Jorge Edwards comandou uma sessão de perguntas e


respostas, na qual o tema é Machado de Assis: a invenção


do narrador. Pela manhã, aconteceram dois debates. O


primeiro, com início às 9h30, trouxe à tona a modernidade


e a pós-modernidade incrustadas na obra de Machado de


Assis. O outro com início às 14h, falou sobre os


predecessores e influências do autor.



"Machado de Assis: tradução, recepção, leituras críticas


fora do Brasil" e "Realismo em Machado de Assis" foram os


debates programados para esta quinta, 28 de agosto. As


palestras da manhã tiveram convidados de peso, como


Daphne Patai e Victor K. Mendes, ambos da Universidade de


Massachusetts. Como mediadora participou Lúcia Granja, da


Unesp. À tarde, Hans Ulrich Gumbrecht (Universidade de


Stanford) e Massa, acompanhados pelo debatedor Hélio de


Seixas Guimarães, da USP, falaram sobre o realismo


presente nas obras de Machado de Assis.



Quem tiver interesse em se inscrever para o Simpósio


Internacional Caminhos Cruzados: Machado de Assis pela


Crítica Mundial , deve comparecer ao MASP, na Avenida


Paulista, 1578, a partir das 9h30. Para mais informações,


visite http://www.machadodeassis.unesp.br/simposio .



O evento, que marca o centenário da morte de um dos


maiores nomes da literatura brasileira, é também


transmitido ao vivo pela Faac WebTV, projeto do câmpus de


Bauru da Unesp, no endereço www.faac.unesp.br/webtv

publicado por o editor às 15:08
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Autor catarinense declama e autografa livro Cem poemas



Dino Gilioli traz a Curitiba sua obra poética recém-lançada em Florianópolis


 

“Um labirinto com várias saídas, um espelho com várias faces”. Com esta definição o poeta Dino Gilioli, de Florianópolis, apresenta seu livro Cem Poemas, que terá manhã de autógrafos neste domingo (31), às 10h, na Livraria Dario Vellozo, da Fundação Cultural de Curitiba. O autor declamará aos presentes alguns dos textos contidos no livro. Este é o quinto título que publica e o primeiro pela Editora da Universidade Federal de Santa Catarina. Os títulos anteriores eram pequenas edições de 50 a 500 exemplares, com circulação dirigida.

O volume condensa uma produção de 20 anos, com visíveis influências da participação de Gilioli no meio sindical, onde atua como coordenador geral do Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis. “Criação é ação política”, afirma. “Mais que um militante cultural ou político, sou um militante pela vida”, observa.

Cem Poemas não se fecha apenas na temática social. Ele abre-se também ao amor, com as várias linguagens do coração. O autor preocupa-se com a elaboração dos textos para manter uma linguagem que seja acessível por todos os leitores sem distinção. Para o escritor Wilson Bueno, “Dino tem a qualidade rara de apostar na poesia com uma franqueza e espontaneidade de raiz. Só isso já bastaria para detectar nele um inextricável destino de poeta”.



O autor – Dino Gilioli é paranaense de Leópolis, formou-se em Ciências Contábeis pela UFSC e desde os anos 80 mora em Florianópolis. Voltado à realização de eventos culturais, coordenou concursos de conto e poesia e apresentações de dança, teatro, cine-vídeo e música.

Em 1982 bancou a edição de Fragmentos, quando ainda morava em Curitiba. Hálito de água é de 1989. Morando em Florianópolis, publicou em 1996, pela Letras Contemporâneas, Borboletas no varal. No ano seguinte, pela mesma editora, lançou Canção para acordar peixes, reeditado em 1998. Seus poemas foram publicados em mais de 20 antologias no País.




Serviço:

Lançamento do livro Cem poemas, de Dino Gilioli

Local: Livraria Dario Vellozo – Palacete Wolf (Praça Garibaldi, 7)

Data: 31 de agosto de 2008 (domingo), às 10h

Preço do livro: R$ 15,00

publicado por o editor às 15:08
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PADRES CELIBATO E CONFLITO SOCIAL





- Uma história da Igreja católica no Brasil


de Kenneth P. Serbin
Páginas - 448

Padres, celibato e conflito social é uma história da Igreja católica no Brasil vista sob o prisma dos padres. A Igreja é um dos eixos fundamentais da política e da vida social brasileiras. Os padres, agentes da instituição eclesiástica, sujeitos a pressões e influências de diversas fontes (da elite, do povo, do Vaticano e de sua própria consciência), constituem rico material de pesquisa sobre como a ação da Igreja se dá.
Serbin destaca especialmente a formação de padres no Brasil. Ao analisar os papéis sociais, o poder econômico e as origens étnicas do clero na era colonial, por exemplo, ressalta o impacto social da atividade missionária da Igreja, seu apoio ao escravagismo e à repressão da cultura indígena e africana.
Abrange, também, períodos de crise, em que vários padres tornaram-se revolucionários, e outros mais amenos, com a romanização da Igreja, o afastamento de padres da política e a proliferação de seminários (de 12 para mais de 600). Apoiado em farta documentação e rica pesquisa histórica, Serbin analisa todos esses períodos em uma narrativa intensa e envolvente, que lhe valeu o Book Prize of the Brazil Section of The Latin American Studies Association.

"O novo livro de Serbin é extraordinário [...] Uma bem-vinda contribuição para a história do Brasil e da Igreja católica na América Latina." - American Historical Review

Leia um trecho do livro

1. Introdução - O significado do sacerdócio

A vocação para o sacerdócio católico incorpora a mais generosa aspiração e as mais profundas contradições do ser humano. Ao longo da história, padres buscaram maior proximidade com Deus para si mesmos e para seu rebanho e se empenharam em construir uma sociedade justa. Para os católicos, o padre é o caminho da salvação. Para os não-católicos, ele simboliza a proeminência da Igreja como instituição religiosa, política e social. Os padres possuem a capacidade especial de "ter uma visão construtiva da natureza do homem", escreveu o padre sociólogo Andrew Greeley. Educados em uma tradição que remonta aos primórdios da civilização ocidental, eles são um repositório da ética judaico-cristã. Mas em nome de Deus empreenderam algumas das mais brutais campanhas contra idéias, povos e indivíduos. Os padres devem personificar o divino embora habitem um corpo imperfeito. Exige-se que expressem a mais elevada forma de amor e que neguem os impulsos básicos do prazer sexual, do conforto e da liberdade. Essas condições unem os padres em uma misteriosa irmandade internacional. Como uma tragédia grega, a história do sacerdócio fala de temas humanos fundamentais.
Este livro é uma história social e cultural do clero no Brasil, um país vasto e intensamente religioso, formalmente a maior nação católica do mundo, mas, na realidade, um viveiro de práticas religiosas as mais diversas. Acompanharemos aqui cinco séculos de continuidade e mudança na vida do clero, com enfoque nos seminários, as escolas onde jovens, apenas do sexo masculino, isolam-se do mundo a fim de preparar-se para o ministério ordenado da Igreja católica romana. Analisaremos questões relacionadas a etnicidade, gênero, política e economia. Tão importante quanto estas é a religião, influência dominante na longa história das civilizações. Os papéis sociais dos padres e o modo como os clérigos enfrentaram as exigências de sua condição especial são os principais temas desta obra.
Minha inspiração para escrever este livro veio em 1986, quando estive no Brasil pela primeira vez e soube que Roma condenara o frade franciscano Leonardo Boff, famoso teólogo da libertação, a um ano de silêncio devido à sua polêmica crítica ao poder na Igreja. A Igreja brasileira também lamentava, na época, o assassinato do padre Jósimo Morais Tavares, morto em maio de 1986 por ter ajudado os pobres na luta contra os poderosos latifundiários da Amazônia. A descoberta da teologia da libertação e do ativismo clerical renovou minhas raízes católicas. Quando ouvi padres censurarem as iniqüidades sociais durante a primeira campanha eleitoral no Brasil pós-ditadura, pensei comigo: "É isso que a Igreja devia estar fazendo em todo lugar!". A Igreja brasileira contrastava gritantemente com a conformista Igreja americana, cuja atenção se voltava para uma classe média que, acabada a missa, corria para o estacionamento e embarcava em seu carro novo em vez de refletir sobre a renovação de sua vida com Deus. O que presenciei no Brasil levou-me a fazer da Igreja o tema de minha tese de doutorado em história da América Latina, defendida na Universidade da Califórnia em San Diego.
Iniciei minhas pesquisas no Rio de Janeiro em uma tarde amena do inverno de 1987. Fui conhecer um dos mais notáveis clérigos brasileiros, o padre Marcello de Carvalho Azevedo, intelectual jesuíta cujo influente livro sobre a fé, a cultura e as renomadas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) acabara de ser publicado em inglês. As CEBs emergiram na década de 1970, quando a Igreja lutava pelo fim da ditadura militar no Brasil. O padre Marcello recebeu-me com seu largo sorriso característico e, em cerca de uma hora, sem consultar anotações, esboçou verbalmente quatro possíveis temas para uma tese. Um deles, a formação de padres em seminários diocesanos, não fora estudado sistematicamente por nenhum historiador ou cientista social. "Você pode-rá prestar um grande serviço à Igreja brasileira se fizer um estudo sobre os seminários", ele me disse.
O padre Marcello acolheu-me em seu escritório no bairro de Botafogo, um dos mais interessantes microcosmos da vida brasileira moderna. Não muito distante do centro do Rio, Botafogo abrigava uma das maiores concentrações da intelectualidade latino-americana. O padre Marcello e outros pensadores influentes da Igreja progressista trabalhavam no Instituto Brasileiro de Desenvolvimento (IBRADES). Essa instituição era composta por um influente grupo jesuíta de estudos interdisciplinares que formara toda uma geração de militantes católicos. Em 1970 agentes do regime militar haviam invadido o IBRADES, um ato que quase levou à ruptura da histórica relação entre Igreja e Estado. A poucos passos situava-se o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, onde pesquisadores chefiados pelo ex-militante católico Herbert de Souza (Betinho) organizaram um movimento nacional de combate à pobreza na década de 1990. Após as apresentações formais, o padre Marcello e eu fizemos uma rápida caminhada pela rua São Clemente. Outrora ornada com elegantes residências da nobreza imperial brasileira do século XIX, época em que Botafogo era uma idílica periferia da cidade, essa rua hoje fervilha de carros, pedestres e consumidores, muitos deles moradores de prédios. A alguns metros na mesma rua encontramos o centro cultural conhecido como Casa de Rui Barbosa, onde morara o grande jurista, acadêmico, estadista e abolicionista brasileiro. Fernando Henrique Cardoso, o sociólogo mundialmente renomado e presidente do Brasil de 1995 a 2003, cresceu em Botafogo. O padre Marcello indicou-me o Colégio Santo Inácio, escola preparatória jesuíta que educou muitos membros da elite masculina do Brasil.Mais à frente encontrava-se o Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), fundado por Candido Mendes, o brilhante bisneto do senador que defendeu a Igreja contra a intrusão do Estado na década de 1870. O IUPERJ localizava-se no centro de Botafogo, na rua da Matriz, que liga a São Clemente a outra principal via do bairro. Uma igreja de pedra assoma impassível no fim da rua da Matriz, e quem se vira para o lado da São Clemente vê os morros e o Corcovado, onde a estátua do Cristo Redentor abre os braços num gesto benevolente mas distante para o povo do Rio.
A vida sofre drástica mudança na encosta do morro, precariamente ocupado pela favela Dona Marta. A comunidade, que seus moradores chamam de Santa Marta, nome cunhado por um padre jesuíta, ganhou na década de 1980 em todo o país a péssima reputação de ser um antro dos narcotraficantes e seus capangas. Em 1996 tornou-se um símbolo da violência e das tensões entre o Primeiro e o Terceiro Mundo quando o cantor Michael Jackson e o produtor de cinema Spike Lee filmaram no local um polêmico videoclipe. Alguns políticos brasileiros opuseram-se às filmagens, e Lee teve de pagar ao chefão do tráfico para poder trabalhar em segurança. Nesse mesmo ano o diretor brasileiro Murilo Salles fez um aclamado e trágico filme baseado nas crianças dessa favela, intitulado Como nascem os anjos. Aliando o refinamento cosmopolita à luta de classes, Botafogo e Santa Marta refletem as contradições do subdesenvolvimento pós-moderno.
O padre Marcello atribuiu essa situação à opressão estrangeira. Apontou para os ônibus barulhentos que subiam a São Clemente arrotando diesel poluente. A classe média evitava andar neles. Não passavam de caminhões de transporte adaptados, com bancos desconfortáveis e uma catraca rudimentar e ruidosa. Pareciam destinar-se ao transporte de animais. Os moradores da Santa Marta resignavam-se a passar a vida viajando naqueles veículos de casa para o trabalho. "Veja o que as multinacionais fazem aqui no Brasil", disse o padre Marcello. "Deixam sua pior tecnologia para os países pobres."
Nosso encontro resolveu algumas de minhas questões principais. O padre Marcello não só me ajudou a tomar uma decisão fundamental para minha carreira, mas, além disso, me incumbiu de uma importante missão. No Brasil a Igreja realmente era importante e, a julgar por indivíduos como o padre Marcello, parecia verdadeiramente se preocupar com o povo.Meu trabalho seria muito mais do que um exercício acadêmico. Eu me aventuraria pela fé, pela política e pela luta em prol da mudança social.
Mas um estudo dos seminários teria de abordar mais do que as preocupações predominantemente políticas expressas na maioria dos textos sobre a Igreja católica latino-americana contemporânea. Em meu contato com o padre Marcello eu já observara que a vida do clero brasileiro envolvia demandas complexas e às vezes contraditórias. Por exemplo, ele pertencia ao clero religioso (ou regular). Esses padres são agrupados em ordens, podem servir em qualquer parte do mundo e atuam subordinados a um bispo apenas se servirem formalmente em uma diocese, a principal divisão territorial da Igreja. No entanto, o padre Marcello recomendou que eu estudasse os padres diocesanos (ou seculares), que geralmente passam toda a carreira subordinados ao bispo local. De início, decidi concentrar-me apenas na formação dos padres diocesanos. Mas no Brasil os jesuítas e outras ordens haviam assumido boa parte da responsabilidade pela formação dos padres diocesanos. Surgiram rivalidades entre os padres religiosos e seculares, e também entre as várias ordens que vieram da Europa para o Brasil. Em especial, emergiram tensões em torno das linhas de identidade nacional. Por isso, meu estudo expandiu-se para incluir uma pesquisa sobre os religiosos. Foi além dos seminários e buscou uma visão geral do clero e de outros temas, como a religião popular e a estrutura da Igreja institucional. Embora a princípio eu pensasse em analisar apenas o período pós-Segunda Guerra Mundial, logo ficou claro que não seria possível explicar os seminários sem retornar à era colonial.
As dificuldades dos padres com o celibato tornaram-se parte inevitável de minhas pesquisas. Descobri o lado pessoal das coisas quando procurava pelo núcleo da teologia da libertação entre os padres militantes da Baixada Fluminense, o tórrido e apinhado complexo de subúrbios operários do Rio de Janeiro. Escrevendo sobre esses homens, e às vezes até ajudando-os, vi como eles mergulharam nas disputas políticas do novo regime democrático brasileiro e por isso foram vitimados pela opressão de burocratas da Igreja, ameaçaram o conforto pecuniário de seus inimigos clericais e contestaram o modelo clássico de sacerdócio.
[...]

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