Quinta-feira, 26 de Março de 2009

30 anos depois, a greve mantém-se insepulta

Até hoje me lembro deste malfadado evento. Na época deixei de lançar um jornal de bairro para não "furar" a greve. Realmente essa é uma história que merece ser recontada. E não por mim...(E.C.)

ps. alguém ainda tem o cartaz do Fradim do Henfil fazendo top-top?

 

por (via Comunique-se)

Eduardo Ribeiro
 

Um excepcional trabalho conduzido pelo repórter free-lancer Rubens Marujo, sobre quem já escrevi aqui em outras oportunidades, acaba de sair do forno: uma suculenta edição especial do jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, sobre os 30 anos da greve de 1979, a completar-se em maio próximo. Ele foi inicialmente planejado para oito páginas, mas acabou saindo com 20, tantos e tão intensos foram os depoimentos colhidos com personagens da base, da cúpula do movimento e também do patronato.

 

Fica patente nos depoimentos que aquela greve, aprovada numa noite fria do dia 22 de maio de 1979, no Tuca, teatro da PUC, em Perdizes, por 1.692 profissionais, foi histórica na sua capacidade de mobilização e desastrosa na organização e nos resultados obtidos, levando os jornalistas de São Paulo a uma dura derrota, com graves consequências.

 

Participei intensamente daquela greve, comparecendo a todas as assembleias, às reuniões na redação em que trabalhava (revista A Construção São Paulo, da Editora Pini) e aos piquetes na porta do Estadão e da Folha de S.Paulo. Mas, novato ainda, eu era apenas um militante de baixa graduação no então florescente movimento sindical.

 

Eu quis a greve como a esmagadora maioria da categoria e como ela muito menos pelas reivindicações postas na mesa (aumento real de 25% fora da data base e estabilidade no emprego para os membros do Conselho Consultivo de Representantes da Redação – CCRR) e muito mais para turbinar aquele momento histórico de luta pela redemocratização do País.

 

Neste belo e histórico trabalho conduzido por Marujo, para o Unidade, os depoimentos falam por si. Otavio Frias Filho, do Grupo Folha, por exemplo, lembra que “na época, eu entendia bem as razões políticas dos grevistas e simpatizava com elas. Mas atuei no fechamento do jornal naqueles dias, atendendo a uma solicitação de meu pai, o Sr. Frias, que estava convencido de que ceder, naquele momento, enfraqueceria demais a posição dos jornais. E penso hoje que ele estava certo”. Frias também confirma uma afirmação que ficou na cabeça de todos os jornalistas e patrões desde então: “Não diria que após a greve os patrões se ‘uniram para demitir jornalistas ao longo do tempo’. Penso que a greve teve um efeito perverso, do ponto de vista sindical: ela mostrou que era possível fazer edições sofríveis com apenas cerca de 20% dos efetivos das redações. Ficou óbvio que as redações estavam em alguma medida inchadas e por esse motivo houve dispensa de parte dos profissionais nos meses seguintes”.

 

A opinião externada pelo diretor de Opinião do Grupo Estado, Ruy Mesquita, sobre aquele movimento é um soco no fígado dos que votaram ou defenderam a greve com todas as forças: “A greve, como dissemos à época, foi ‘injusta, inconsequente, irresponsável, inoportuna, anti-democrática e, finalmente, ilegal”. Ruy também afirmou que “outro mito a respeito do movimento é o de que 90% dos jornalistas abandonaram seus postos de trabalho. Não houve tal adesão. Nos primeiros dois ou três dias, houve, de fato, considerável número de ausências, motivadas, em boa parte, pelos métodos agressivos e nem um pouco pacíficos utilizados pelos piquetes para impedir o acesso às redações dos jornalistas que queriam trabalhar. Esses problemas foram sendo contornados e, no sexto dia da greve, pelo menos dois terços dos jornalistas que trabalhavam nas redações do Grupo Estado estavam a postos.

 

O então presidente do Sindicato, David de Moraes, recluso, diz que não quer mais falar sobre essa greve – “esqueça que eu existo e coloque tudo que já saiu a respeito na minha boca”, afirmou a Marujo, que no texto relatou que encontrou ao telefone um David de Moraes arrasado. David foi responsabilizado por tudo que de ruim aconteceu, chegando a ser chamado maldosamente de Jim Jones, o missionário que levou centenas de pessoas ao suicídio anos antes. Mas há também muitos colegas que o defendem, afirmando que ele foi injustiçado e que não faz qualquer sentido responsabilizá-lo individualmente pelos acontecimentos. Aos 72 anos, aposentado e fazendo alguns frilas de vez em quando, como ressalta Marujo, David quer distância dessa polêmica: “Você sabe muito bem que o Lula tinha voz de comando. Quando ele dizia que ia fazer uma greve, todos os metalúrgicos respeitavam. Mas jornalista é diferente, todo mundo quer dar palpite e deu no que deu”.

 

Em sua defesa saiu Vicente Alessi Filho, à época um importante militante sindical e que hoje é sócio-diretor da Autodata Editora. Diz Vicente: Há jornalistas que foram justiçados com rigor como consequência da greve de 1979, principalmente pelo seu tão óbvio e incondicional alinhamento aos patrões. David de Moraes, nosso presidente naqueles dias, não é um desses. A palavra que se aplica a ele é outra: injustiçado. Sacanamente injustiçado. Chamado de Jim Jones entredentes nos desvãos das escadas por gente sem coragem para qualificá-lo pessoalmente. E por gente que, por outras razões, queria ver sua gestão navegar no descrédito”. Vicente não cita nome mas garante ter havido naquele movimento a participação sórdida de uma quinta-coluna: “Tantos anos passados, pode me falhar alguma cronologia dos fatos. Mas jamais me faltará a repulsa por grupo político que, depois de defender com ardor a criação dos CCRR, os Conselhos de Redação, e de incentivar a greve, abandonou-a imediatamente após a sua decretação. Animar o sentimento de greve e imediatamente deixá-la à própria sorte foi tática daquele grupo político. Ou seja: a quinta-coluna aconteceu de caso pensado. O caso foi urdido dias antes da assembleia de decretação da greve.”

 

Alberto Dines, idealizador e diretor do Observatório da Imprensa, diz que “o efeito mais devastador da greve foi a criação da ANJ, Associação Nacional de Jornais (que inicialmente incluía a Editora Abril). A criação de uma entidade deste tipo é, em si, legítima. Mas pode ter consequências catastróficas quando a aproximação entre veículos liquida o pluralismo. O patronato carioca e paulista dividia-se em feudos, as empresas não se comunicavam, os grandes barões da imprensa não se falavam, os aristocratas quatrocentões desprezavam ostensivamente os ‘arrivistas’. A mediação era exercida por políticos ou grandes empresários. A greve uniu o patronato definitivamente.”

 

Outro depoimento importante presente nesse Especial vem de Audálio Dantas, ex-presidente do Sindicato e da Fenaj, que lembra: “Em 79 eu era deputado federal e estava, portanto, fora das redações. Mas acompanhei de perto a greve, participei de assembleias, numa das quais, na Igreja da Consolação, Emir Nogueira (Nota da Coluna: que viria a suceder David de Moraes, no comando do Sindicato, falecendo no exercício da função) fez um discurso profético: a greve podia fracassar, pela simples razão de que os jornais continuavam circulando, muitos deles noticiando a greve na primeira página. Era uma posição digna e corajosa, pois Emir, mesmo exercendo cargo de chefia na Folha, participava do movimento, a despeito de dele discordar em vários aspectos”.

 

Lu Fernandes, então uma jovem repórter e a quem o destino reservou a missão de suceder Emir Nogueira no comando do Sindicato pouco tempo depois, disse que “nem nos meus piores pesadelos poderia imaginar o ambiente e a contra-ofensiva que assistimos nas redações na volta ao trabalho. Demissões em massa, ressentimentos, sentimento de derrota, apesar da formidável adesão”.

 

Ricardo Kotscho, hoje repórter da revista Brasileiros e à época da revista IstoÉ, escreveu para o especial um trecho do que publicou em seu livro Do golpe ao Planalto – Uma vida de repórter: “Embora a adesão à greve tivesse sido expressiva, nenhuma publicação deixou de circular no período, o que levou alguns colegas mais desesperados a pichar em muros o apelo: ‘Não compre jornais’. No cemitério do Araçá, na avenida Doutor Arnaldo, um gaiato acrescentou: ‘minta você mesmo’”. Kotscho disse também que “não tenho nenhuma saudade desta greve nem daquele período negro da nossa história, todos nós ainda submetidos a uma feroz ditadura militar. A maioria dos brasileiros hoje vive melhor e, o que é mais importante, em plena liberdade”.

 

Juarez Soares, que à época trabalhava na Globo e hoje é apresentador e comentarista esportivo da Rádio Record, recorda de ter participado ativamente da greve: “Falava com veemência em todas as assembleias. Era totalmente a favor da greve, defendia este ponto de vista. Deixava isso bem claro. Como sempre acontece, os pontos de vista eram conflitantes. Me lembro que eu argumentava contra a posição de Emir Nogueira, jornalista que tinha sido professor de grande parte dos que compareciam à assembleia. Emir era contra a greve. Existia o Partidão e sua incontrolável vocação para comandar. O Partidão nunca deixou claro para mim, se queria a greve ou não. Mas esteve presente no comando da paralisação. A Libelu, outra facção política, incendiava as assembleias. Queria por que queria, a greve”. Juarez lembrou ainda que naquele momento entrou em cena a figura de Luís Fernando Mercadante, diretor de Jornalismo da Globo em São Paulo: “Desde os primeiros sinais da greve, ele foi claro: ‘Apoio a decisão de vocês e seguro a bronca’. Sempre esteve do nosso lado. Quando a greve terminou, eu procurei o Mercadante para conversar. Expliquei que ele não poderia fazer mais nada. Entreguei a ele uma lista com sete nomes. De comum acordo, estávamos entregando nossos cargos e empregos para que os demais companheiros fossem preservados. Eram 126. Assim foi feito”.

 

Juca Kfouri foi outro que ressaltou o papel sereno de Emir Nogueira durante o movimento: “Ele sim foi exemplar ao lado de tantos companheiros que se sacrificaram por uma causa perdida. Porque, ao contrário de tantos que por discordar da greve aprovada legitimamente trataram de furá-la vergonhosamente, Emir deixou um cargo de confiança na Folha, parou junto com a categoria e não deixou de ser a ponderação em pessoa, apesar de estrepitosamente vaiado”. Afirmou também: “Teria sido muito melhor não ter feito aquela greve, embora, que fique claro, eu não me arrependa de tê-la feito, porque éramos nós e nossas circunstâncias”.

 

Eu também dei a esse especial meu modesto depoimento. No trecho final destaco: “Foram momentos de muita emoção, de catarse, de reencontro com algo maior que estava presente em nossos corações e mentes. Momentos de coragem de quem queria a greve e de prudência e sabedoria dos que não a queriam. Perderam os vencedores e venceram os perdedores. Coisas da Vida. Mesmo derrotada, a greve de 1979 foi o maior movimento da história do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, só comparável à mobilização de três anos antes que se sucederia ao assassinato de Vladimir Herzog, em outubro de 1975, nos porões do Doi-Codi, de São Paulo. Foram tempos realmente muito difíceis e que deixaram cicatrizes. Mas a história se constroi com vitórias e derrotas”.

 

Vale a pena ver a edição. Para quem é do metier, é documento imprescindível.

 

(*) É jornalista profissional formado pela Fundação Armando Álvares Penteado e co-autor de inúmeros projetos editoriais focados no jornalismo e na comunicação corporativa, entre eles o livro-guia "Fontes de Informação" e o livro "Jornalistas Brasileiros - Quem é quem no Jornalismo de Economia". Integra o Conselho Fiscal da Abracom - Associação Brasileira das Agências de Comunicação e é também colunista do jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, além de dirigir e editar o informativo Jornalistas&Cia, da M&A Editora. É também diretor da Mega Brasil Comunicação, empresa responsável pela organização do Congresso Brasileiro de Jornalismo Empresarial, Assessoria de Imprensa e Relações Públicas.


publicado por o editor às 13:26
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