Sábado, 16 de Maio de 2015

Cronica da Urda - Carta Aberta a Lourival Barreira

 

Carta Aberta a Lourival Barreira

 

                                   Jamais poderia imaginar que, nesta altura da vida, acabaria por me tornar amiga de Barreira, o goleiro do Grêmio Esportivo Olímpico, time de Blumenau que, nos idos da minha infância, tornou-se campeão catarinense de futebol. Tal aconteceu no campeonato estadual de futebol de 1964, e com meu pai, eu assisti ao jogo e lembro inúmeros detalhes dele, até de como a torcida do Internacional de Lages botou fogo na faixa do nosso time, pendurada no alambrado do campo.

                                   O fato é que o tempo passou e o milagre da Internet me permitiu começar uma amizade com Lourival Barreira, hoje respeitado advogado no Estado de São Paulo. E no dia de hoje acabei por ler um relato do próprio Barreira no blogue do Adalberto Day, aqui da minha cidade, onde ele relembrava exatamente aquele jogo e as coisas que o precederam. Dentre elas, Barreira se referia a Feola.

                                   Quem ainda se lembra do Feola, sabe dizer quem foi Feola? Nossa, como eu lembro de Feola, técnico da Seleção Brasileira de Futebol que, em 1958 foi campeã mundial! Parece que vejo agora as fotos de Feola nas páginas da revista O Cruzeiro – vem-me uma enxurrada de lembranças, e como eu gostaria de ter aqui, agora, o meu pai, que tanto gostava de futebol, para conversarmos sobre tudo isso! Já que o meu pai partiu tão cedo, achei que deveria conversar com alguém do futebol daquele tempo, e é por isto que estou a escrever esta carta a Lourival Barreira.

                                   Conto a Barreira como contaria a meu pai um dos muitos momentos maravilhoso que o futebol me proporcionou na vida, e estou a lembrar do dia em que conheci Zagallo! Eu já havia visto Zagallo uma vez, quando o Flamengo jogou em Blumenau e eu estava no restaurante aonde o time veio jantar, depois do jogo, com direito a ver Zico e tudo. A mesa onde eu estava parou, petrificada, congelada, a olhar para Zico, mas Zico não me fez a cabeça: meu fascínio era olhar para a lenda viva que, para mim, era Zagallo!

                                   Passaram-se diversos anos, no entanto, até eu conhecer Zagallo de verdade. Eu tinha ido a Brasília para ir ao Supremo Tribunal Federal ajudar a defender o boi da Farra, o pobre boi da famigerada e vergonhosa Farra do Boi que ainda grassa em certas partes deste meu Estado de Santa Catarina, embora eu tenha nos meus arquivos cópia do Acórdão do Supremo Tribunal Federal que, naquela altura, proibiu a Farra do Boi sob qualquer aspecto e terminantemente. Eu andava (ando) na luta contra a Farra do Boi e soube, naquele sábado à noite que teria que estar em Brasília na segunda de manhã. Foi uma correria. Eu ainda batia ponto e tinha que avisar ao meu gerente que faltaria na segunda feira – devia ser o ano de 1997, acho, quando até telefone ainda era coisa difícil, e mal e mal consegui deixar um recado com um colega para que me justificasse junto ao gerente. E houve problema de neblina, atraso de voos, etc., mas acabei chegando ao Supremo com algum atraso. Muita água rolou debaixo da ponte, naquele dia e no outro, coisa para outro texto, e estava toda preocupada que demoraria mais um dia a voltar – como me justificar com o meu gerente?

                                   Naquela segunda-feira à noite alguém me levou para o hotel em que ficaria, em Brasília, e entrei nele pasma pela quantidade de repórteres e cinegrafistas que tomavam conta de toda a recepção, centenas e centenas deles, e fiquei muito curiosa: Farra do Boi despertava a atenção da imprensa, claro, mas não tanto assim. O que estava acontecendo ali? O rapaz da recepção me informou: nada mais nada menos que a Seleção Brasileira de Futebol estava hospedada ali!

                                   Fremi! Acho que como todo o amante do futebol, pensei que acabaria por ver a Seleção, mas em vão – ela estava em ala separada do hotel, fazia as refeições em separado, etc. De qualquer forma, era uma coisa maravilhosa estar respirando o ar do mesmo hotel que a nossa Seleção!

                                   Foram acontecendo coisas, no entanto. Havia um hall cheio de portas de elevadores, e eu estava ali a esperar quando uma das portas se abriu - e o elevador estava recheadinho de jogadores um pouco atônitos por estarem no andar errado – a porta fechou e eles sumiram, como num passe de mágica. Ou como, no final do jantar em um dos diversos restaurantes do hotel, quando uma enxurrada de repórteres adentrou onde eu estava, seguindo Romário, que ia dar uma entrevista coletiva. Não tive nenhum pejo de ficar em pé atrás do bando de repórteres, assistindo a entrevista, e no final chegar perto de Romário e lhe dizer, com a minha voz mais trêmula de tanta emoção:

                                   - Romário... queria que você soubesse que lá no sul do Brasil você tem uma fã...

                                   Já era emoção mais do que suficiente, mas a maior aconteceu na manhã seguinte, depois do café da manhã, de novo no tal hall de elevadores. Uma porta se abriu e saiu Zagallo, e meu coração escorregou até o pé ao me ver frente a frente com Zagallo! Para mim, aquele era o Zagallo de 58, de 62, de 70, de 94 – era algo como uma divindade, era como um anjo na minha vida, e fui diretamente a ele e segurei sua mão com as minhas, e acho que ele ficou um pouco envaidecido com toda aquela minha tietagem, pois parou e me deu a maior atenção. A emoção era tanta que não faço ideia do que falamos, mas conversamos, com certeza sobre aquelas coisa de 58, 62, 70, 94... Nem me passou pela cabeça que alguém poderia estar vendo aquilo, mas havia um repórter que viu e fotografou – e no dia seguinte, quando eu ainda não voltara para trabalhar, aquela foto saiu na capa de um jornal de circulação estadual, aqui em Santa Catarina – e eu virei a heroína do meu gerente!

                                   Quando voltei, certa de que ia levar uma bronca, encontrei o banco onde trabalhava cheio de cópias daquela foto em todas as paredes e meu gerente tão orgulhoso de mim que só faltava me carregar no colo!

                                   Era isto que queria contar, Lourival Barreira! Meu pai não chegou, a saber, disso, havia partido antes, e então agora eu te tomo como confidente. Tantas alegrias o futebol me deu, tantas! Talvez tudo tenha começado lá naquele campeonato de 1964, naquele jogo em que tu foste o goleiro! E talvez não tivesse lembrado de tudo isto, hoje, se tu não tiveste falado no Feola!

                                    Valeu, Lourival Barreira! Obrigada!

 

 

                                               Blumenau, 27 de Abril de 2014.

 

                                               Urda Alice Klueger

                                               Escritora, historiadora e doutora em Geografia.        

 

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Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2015

Europeu também pode - Cronica reprise da Urda

Europeu também pode - Cronica reprise da Urda

 

Europeu também pode

 

 

(Explicação aos leitores:

Onde está escrito Espanha, leia França;Onde está escrito Iraque e Afeganistão, leia Síria, ou Palestina, etc.;

Onde está escrito Bush, leia OTAN.

O resto é igualzinho.)





            Tinha passado dois dias em Florianópolis, e vim pelo caminho imaginando como iria contar para vocês, desta vez, sobre uma goiabeira que foi muito importante na minha infância. Então chego, ligo para minha mãe para dizer que cheguei bem – as mães sempre querem saber tal coisa – e do alto dos seus 82 anos, ela me diz:

                                   - Tu já viste o que aconteceu na Espanha? Peguei a notícia no meio, não sei muito bem, mas foi terrível! Deve sair tudo de novo agora nos noticiários da noite.

                                   É claro que me aboletei no sofá para ver todos os noticiários. E como ando sentindo muita dor, porque quebrei um braço faz 40 dias, mas só há 4 que um médico descobriu que o braço estava quebrado, de imediato senti muita pena daquelas pessoas mortas, feridas, estraçalhadas, cheias de dor que resultaram do tríplice atentado madrilenho de hoje. A primeira informação que cada canal de televisão disse foi: “Atentado atribuído ao E.T.A.”, que é uma organização de uma região separatista ao norte da Espanha, o País Basco. Só que tem uma coisa: o E.T.A. até faz uns alguns atentados, mas muito menores, nada a ver com o massacre das estações de trem ocorridos hoje. Ficava bem ao Primeiro Ministro espanhol, no entanto, jogar a culpa no E.T.A. – se é um atentado caseiro, não tem nada a ver com a irresponsabilidade dele, juntando-se a um louco como Bush II para invadir outros países e massacrar muitas centenas de milhares de pessoas, que acho que é o que já foi massacrado recentemente na soma das mortes feitas pelos invasores só no Afeganistão e no Iraque. Rabo entre as pernas, o Ministro Aznar procurava ficar escondido atrás do E.T.A. – mas antes que a noite se adiantasse já havia uma associação ligada a Al Qaeda assumindo a responsabilidade, e dizendo que não tinha nenhuma  pena de ver civis europeus tão bem estraçalhados quanto civis asiáticos. Al Qaeda vocês se lembram, é a organização do Osama bin Laden, a que derrubou as torres gêmeas nos Estados Unidos.

                                               Daí imagino que metade de vocês está querendo comer Osama Bin Laden e a Al Qaeda por uma perna, porque gente legitimamente branca, ancorada na velha e boa Europa, aquela que gerou a maioria de nós, sofreu na pele um ATENTADO – meu braço aqui está doendo o suficiente para eu saber que braços e outras coisas quebradas doem muito – imaginem gente estraçalhada como explosivos estraçalham, gente que fica sem uma perna e meia barriga, ou gente que perde meio rosto e meia cabeça, como vi muito bem como ficam pessoas explodidas numas fotos realistas que estavam expostas em Porto Alegre, lá no Terceiro Fórum Social Mundial. Isto sem contar as crianças, pequenas vítimas inocentes da loucura de adultos loucos, com as barrigas abertas como couve-flores vermelhas e outras coisas horripilantes.

                                               E daí uma coisa assim acontece na velha e boa Europa que nos “descobriu” (A América já estava “descoberta” há pelo menos 12.000 anos!), e a maior parte do nosso público se horroriza: como? Na Europa? Lá não pode! Lá é o berço da civilização! – e por aí vai. Esquecem-se, claro, que há diversas civilizações, e que a da Europa é apenas uma delas. Mas os europeus podem sair por aí na cola do Louco Bush, invadindo países que têm petróleo e explodindo gente a granel, sem que a gente ache que está errado. Não está errado uma ova! Gente explodida na Ásia e gente explodida na Europa é a mesmíssima coisa. E veja bem quantos países europeus estão ajudando a explodir gente na Ásia: Inglaterra, Itália, Estônia, Polônia, Dinamarca, Hungria, uma Espanha com um louco Aznar que decerto agora não sabe onde enfiar a cara, e até o nosso antepassado Portugal, coisa que nunca nem quis acreditar direito! Pois é, estão lá os europeus a fazer as barbaridades sem pensar que elas acabarão vindo parar dentro de casa. Já começou. E decerto ainda vai piorar. Europeu também pode explodir. Exatamente como asiático explode. É a mesma coisa.  

                                   E o mundo ocidental se horroriza com o que aconteceu na Europa. Mas por que não se horroriza quando acontece nos outros continentes?



                                               Blumenau 12 de março de 2004.



                                               Urda Alice Klueger

 

As opiniões aqui expressas são de inteira responsabilidade do seu autor,

não representando a visão do Suplemento Cultural ou de seus dirigentes.

 

 

 

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Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2014

Crônica da Urda para o dia de São Nicolau

 

O DIA DE SÃO NICOLAU

 

 

                        (Sete anos atrás – 2007 – no seu dia, São Nicolau me trouxe nada mais nada menos que o meu cachorrinho Atahualpa, que naquela altura pesava tanto quanto um bife! Grande São Nicolau! Obrigada!)

 

Comemora-se São Nicolau no dia 6 de Dezembro e há muita coisa a ser dita sobre esse dia.

Para a Igreja Católica, São Nicolau foi um bispo polonês que viveu há muitos séculos. Era um homem justo e generoso, e gostava de fazer caridade incógnito, deixando saquinhos com moedas de ouro durante a noite, nos umbrais das janelas dos necessitados. Foi isto que li a respeito do santo, numa “Série Sagrada”, quando era criança. Só que, quando li isso, São Nicolau já era uma entidade muito forte para mim, e até fiquei um pouco decepcionada por saber que ele tinha vivido a vida sem graça de um bispo, quando poderia tê-la vivido na alegre companhia de Papai Noel.

Bem, de qualquer forma, ele foi uma pessoa muito forte, pois virou tradição e se perpetuou na memória de todas as crianças alemãs ou descendentes de alemães. E, na noite de 6 de dezembro, tantos séculos depois, São Nicolau continua visitando esses crianças e, incógnito, continua deixando suas dádivas, não mais moedas de ouro, mas balas, chocolates e castanhas, e é sobre a magia da noite de 6 de Dezembro que eu quero falar.

A memória me traz a noite de São Nicolau de quando eu tinha três anos, a primeira de que recordo. Meus pais nos orientaram, a mim e à minha irmã Mariana, a enfeitarmos nossos sapatos com as flores do jardim, e os colocamos na janela da sala de nossa casa pequena e aconchegante. Um grande mistério passou a envolver tudo depois daquele ato solene, e tínhamos o coração disparado enquanto jantávamos ouvindo o “Repórter Esso”, pois era noite de milagres, a primeira noite de milagres para mim. E, de repente, meu Deus, o susto! Grandes batidas nas paredes da nossa casa de madeira silenciaram as cigarras que cantavam, e puseram em disparada meu coração virgem de emoções fortes.

- São Nicolau ! – confirmou meu pai, fazendo-se tão assustado quanto nós, e nos agarramos a ele, chorando de medo, mas não por muito tempo. Um matraquear no chão de madeira da sala transformou o medo em pavor, e meu pai e minha mãe tiveram que nos acalmar para que fôssemos ver o que havia acontecido. E, milagre! – encontramos o chão da sala forrado de balas lindas e desconhecidas que algum vizinho ali jogara, e o medo e o susto passaram enquanto juntávamos aquelas balas maravilhosas vindas diretamente do além. Lembro-me, nos dias seguintes, de como ficava admirando aquelas balas chiques, envoltas em papéis lindos e coloridos, bem diferentes das triviais balas de coco-queimados que comprávamos na venda do vizinho seu Eugênio. Inesquecível primeira noite de São Nicolau, quantas outras vivi!.

São Nicolau foi-se adaptando às necessidades das nossas vidas. Quando aprendemos a escrever, deixávamos nossas cartas ao Papai Noel dentro dos sapatos, na janela, na sua noite. Ele além de levar as cartas, ainda enchia os sapatos de guloseimas, e fiz isso até ser uma adolescente bem grandona.

Outras adaptações foram sendo necessárias. Por exemplo, quando meu sobrinho Mteka era pequeno, morava em apartamento, e não entendia como São Nicolau poderia chegar até à sua janela. Lembro dos seus grandes olhos claros enquanto perguntava:

- Mas ele é mágico? Ele pode vir voando até aqui?

Claro que ele é mágico; São Nicolau tudo pode.

Nossa última criança foi minha sobrinha Laura, e muito festejamos o São Nicolau com ela. Comemorávamos em grande estilo, com jantar e amigos que tinham outras crianças, e São Nicolau comparecia sem falta, a bater nas portas, a jogar balas e chocolates no meio da sala, a deixar as crianças aterrorizadas e encantadas. Querido São Nicolau!

Observei, porém, ao longo da vida, que São Nicolau só existe, na nossa região, para as crianças que descendem de alemães. Em lugares como Lages/SC, por exemplo, São Nicolau não existe. Amigos que tenho em Itapiranga/SC, lá no fim do estado, cidadezinha de colonização alemã, garantem-me que lá São Nicolau é festejado igualzinho como o é em Blumenau, o que nos leva, de novo, às raízes alemães. É uma pena que todas as crianças não tenham São Nicolau! É um santo mágico, encantado, e que pode tudo. Fica a sugestão para as outras etnias: por que não dar São Nicolau para todas as crianças?

 

 

Blumenau, 27 de Novembro de 1995

 

Urda Alice Klueger

 

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Terça-feira, 2 de Dezembro de 2014

Texto importante de Leonardo Boff

 

 

Leonardo Boff: Presidenta Dilma iniciou o diálogo aberto

Uma das principais propostas da recém reeleita Presidenta do país, Dilma Rousseff, começou a se realizar: dialogar aberta e construtivamente com a sociedade e com os diferentes segmentos sociais. Foi assim que no dia 26 de novembro, por quase duas horas, dialogou com representantes do Grupo Emaus, nomeadamente, Frei Betto, Luiz Carlos Susin, Rosileny Schwantes, Maria Helena Arrochellas, Marcia Miranda e Leonardo Boff.


Este grupo, composto por cerca de 40 pessoas que já existe há 40 anos nasceu como resistência à ditadura militar, reunindo intelectuais e religiosos de várias partes do pais para analisarem a conjuntura política e eclesial e traçarem ações concretas junto às bases para acelerar o resgate da democracia, manietada pelo regime ditatorial. O sonho nosso era e é grande: o de gestar um país  que inclua no seu orçamento aqueles que há quinhentos anos estavam à margem.  Entre os presentes havia presos políticos e torturados e praticamente todos vigiados. Mas enfrentamos os riscos e as ameças por uma causa maior que implica um país justo e solidário.

O encontro seu de nesta comunhão de espírito: o coração valente da Presidenta que suportou pesadas torturas sem nunca entregar ninguém e nós, de nosso jeito, expusemo-nos pela mesma causa, naquele tempo e agora. Ela logo entendeu o significado de nossa presença, solicitada por nós. Não íamos pedir nada, apenas reforçar sua determinação de seguir na construção do projeto originário do PT, o de criar uma sociedade com menos perversidade e que desse centralidade aos mais pobres e invisíveis, não obstante os constrangimentos da macroeonomia dominante.

Entregamos-lhe um documento  - O Brasil que queremos – com 16 pontos que podem ser lidos no meu blog (leonardoboff.wordpress.com) onde ressaltam: a reforma do sistema político, tornar o modelo econômico mais social e popular, a promoção da reforma agrária e urbana, a defesa dos direitos dos povos indígenas e quilombolas entre outros.

A conversa transcorreu de forma extremamente franca e jovial, reconhecendo acertos e equívocos. Ressaltamos especialmente a necessidade de a Presidenta  retomar o diálogo com a sociedade, principalmente com os movimentos sociais organizados. Imediatamente foi marcada na próxima semana um encontro com a Coordenação dos Movimentos Sociais e outra com a Coordenação Nacional do Movimento dos Sem Terra.(MST). Todos insistimos em retomar a educação política das bases, dentro da pedagogia de Paulo Freire, em especial dos jovens. Não adianta mostrar apenas obras. Há que se mostrar que elas obedecem a um projeto político do Governo em benefício dos mais necessitados como Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos e outras iniciativas.  Este vínculo de causalidade torna consciente a população e reforça o projeto popular, que precisa ser fortalecido para superar a nossa abissal desigualdade social.

Salientamos a importância de reforçar e ampliar iniciativas de cunho social e ambiental como o projeto “Cultivando Água Boa” implementado pela hidrelétrica de Itaipu, envolvendo um milhão de pessoas que incorporou, mediante uma sistemática educação ecológica (formaram-se mais de 1600 educadores ambientais), recuperando rios, introduzindo a agricultura orgânica, integrando povos indígenas e quilombolas e outros tantos benefícios, melhorando a vida das populações e da comunidade de vida. A Presidenta se mostrou entusiasmada pelo projeto que já tem mais de 11 anos  e pelas pessoas que o levam avante, com custos mínimos e em parceria com os 29 municípios lindeiros e de sua eventual implantação em outras hidrelétricas.

Ponto importante foi a educação política dos jovens para que não sejam meros consumidores mas cidadãos críticos e participantes. É um desafio para os grupos das Igrejas que se inserem nos meios populares e ao próprio PT que deve retomar uma ligação orgânica e dialogar e aprender com eles.

A Presidente se mostrou especialmente sensível à questão dos direitos humanos e aos Centros de Referência dos Direitos Humanos, na perspectiva de fortalecer iniciativas comprovadamente sérias que estão acontecendo em todo o nosso país.

A questão ecológica foi considerada tão importante e complexa que merecerá um outro encontro específico.

Nada pedimos. Não nos moveram interesses corporativos ou pessoais. Apenas oferecemos nossos préstimos, caso sejam solicitados pela Presidenta. Ela se mostrou comovida e aberta a outros encontros mais sistemáticos, pois se deu conta de nossa vontade de colaboração na construção de uma sociedade mais humana, mais justa e cooperativa, onde seja menos difícil a vontade de transformação social e o amor humano entre todos.
(*) Leonardo Boff, ecoteólogo e escritor

 
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Sábado, 29 de Novembro de 2014

Crônica da Urda - MEU PRIMEIRO UNIVERSITÁRIO

 

MEU PRIMEIRO UNIVERSITÁRIO

 

                                               Lembro que o meu pai comprara areia fina para fazer alguma obra lá em casa, e a areia estava amontoada num quadrado de terreno, junto à cerca, esperando a vez de ser usada. Impossível lugar melhor para brincar, e lá estava eu, mexendo na areia, quando... quando... céus, algo estava acontecendo!

                                               Naqueles idos de 1964 os homens usavam cabelos bem cuidados, com ondas fixadas à Gumex, como o meu pai, penso que por conta de James Dean ou já de Elvis Presley – a exceção eram os soldados, que cortavam o cabelo à escovinha, obrigatoriamente, e quando a gente via um rapaz com os cabelos assim, já se sabia que havia ido para o exército.

                                               Brincava eu na areia, naquele dia, quando alguém atípico veio andando, subindo a rua, e não era nem um homem usando Gumex e nem um rapaz do exército: tratava-se de Francisco Moacir, irmão do meu amigo Braz dos Santos, filho de uma senhora muito querida chamada Dona Alvina, que morava mais adiante, na nossa rua. Era um moço circunspecto e sério, que passava todos os dias por ali andando compenetradamente, e imagino hoje que mundos não teria dentro da sua cabeça para caminhar assim com toda aquela seriedade.

                                               Não seria estranho ele passar ali, já que o fazia diariamente, caso ele não tivesse sofrido uma abrupta mudança: apesar de já não ter idade para ser um rapaz do exército, tivera os cabelos cortados rente à cabeça, e estava usando um bonezinho que na minha lembrança era azul, onde estavam escritas as palavras “Ciências Econômicas”. Deixei a areia escorrer dentre os dedos enquanto o observava passar com a mesma circunspecção de sempre, olhos fitos lá adiante, alguém que se tornara tão diferente de todo o mundo que eu acreditaria que se tratava de um extraterrestre, se tal me fosse dito.

                                               Imóvel sobre o monte de areia, fiquei tentando entender o que acontecera, o porquê daquela perda de cabelos, o que era aquele bonezinho azul tão diferente, o que seria “Ciências Econômicas”. Conhecia a palavra “economia”, que era uma coisa que a minha mãe praticava diuturnamente, mas essa expressão nova me parecia muito misteriosa e sem nenhuma ligação com a vida real.

                                               Decerto, como eu, muita gente da nossa rua Antônio Zendron e do nosso bairro Garcia e do nosso mundo tacanho em geral ficou impressionada e curiosa com a novidade que se nos apresentava o circunspecto Francisco Moacir – o que era aquilo? Em breves dias as notícias circularam e chegou a informação: nosso vizinho tinha “passado no vestibular”, ”entrado na faculdade”, pois agora Blumenau tinha uma primeira faculdade, coisa que não sabíamos exatamente o que era. Faculdade era uma coisa de estudar, ficou-se sabendo, mas nada era muito claro. Pouco sabíamos sobre estudos – na verdade nós, gente comum, estudávamos por quatro anos – aos 11 anos estávamos saindo da escola, e esperávamos em casa completar os 14 para ir para a fábrica, as meninas ajudando a mãe e bordando o enxoval; os meninos, matando passarinho a bodoque ou funda e incomodando os vizinhos. Esta era a regra – não sei como fui exceção; talvez minha âncora para a grande e diversificada viagem da vida tenha sido os muitos livros que lia continuamente, na inesgotável fonte que era a Biblioteca Pública Municipal Dr. Fritz Muller, meu sonho de consumo desde a primeira infância.

                                               Uns poucos privilegiados, filhos de gente mais poderosa, normalmente donos de muitas terras e vacas, estudavam contabilidade no Colégio Santo Antônio ou faziam o curso complementar, em dois anos, o que os transformava em professores, e que era direcionado preferencialmente para as moças. Ricos, ricos mesmo, notadamente os donos das grandes indústrias, pois tal já tínhamos, estudavam em lugares misteriosos como a Alemanha ou o Rio de Janeiro, mas o que estudavam lá? Não tínhamos noção do que seria uma universidade e não nos ficava claro o que faziam os tais herdeiros de fortuna em tais lugares distantes – apenas tínhamos a informação de que gente rica ia para fora para estudar.

                                               Portanto, era uma surpresa total essa coisa de que agora havia uma faculdade em nossa cidade, coisa tão próxima que até um rapaz da nossa rua podia frequentar – mas por que será que tivera o cabelo raspado, e o que era um vestibular, e o que eram ciências econômicas?

                                               Acho que elucidei muitas coisas a respeito através dos tantos romances que lia, onde pessoas acabavam indo para faculdades – para muita gente da minha rua, no entanto, penso que a névoa do mistério perdurou até o fim das suas vidas, pois sei de muitos que acabaram morrendo, um dia, sem acreditar que em 1969 o homem estivera na lua.

                                               Andei me informando, agora, o que aconteceu com o filho de Dona Alvina e irmão do Braz, o Francisco Moacir dos Santos, aquele meu primeiro universitário, que, faz cinquenta anos, entrou na minha vida com seu bonezinho azul, trazendo atrás de si todo um rol de novidades que iria mudar tantas coisas para tantos de nós: formou-se, constituiu família, está vivo, hoje morando no Rio de Janeiro.

                                               Que bom saber dele, daquele moço mais sabido e mais corajoso do que todos nós outros, tão sabido que foi da primeira turma da primeira faculdade da FURB, que soube segurar a vida com as mãos e dar aquele grande passo que o tirou do nosso mundo pequeno e escuro. Faz cinquenta anos neste ano que um primeiro universitário apareceu na minha vida, e parece-me que ainda estou sobre aquele monte de areia, pasma com a sua aparição andando circunspectamente rua acima! Bem que gostaria, hoje, de lhe dar um abraço!

                                               Lá de algum lugar, Dona Alvina deve estar vendo esta minha vontade!

 

                                               Blumenau, 08 de Agosto de 2014.

 

                                               Urda Alice Klueger

                                               Escritora, historiadora e doutora em Geografia pela UFPR.

 

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Segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

ESCRITORA QUE ESBANJA EMPATIA - Texto de Pedro J. Bondaczuk

 

 

 

Pedro J. Bondaczuk



A escritora catarinense Urda Alice Klueger conquistou-me de vez por sua sensibilidade, inteligência e capacidade literária. Tornei-me seu leitor compulsivo e mais, seu admirador incondicional. A rigor, não demorou nada para que isso acontecesse. Bastou ler pela primeira vez um texto dela para querer ler outro, e mais outro, e mais outro e vai por aí adiante. Essa compulsão não passou. Na verdade, só cresceu. E à medida que lia suas crônicas memorialísticas, ou relatos de viagem, ou mesmo considerações de caráter político, meu encantamento por sua escrita só crescia. Urda tem uma característica (cada vez mais rara em escritores) que a identifica: a empatia. Os temas de que trata, e a abordagem que faz deles, nos convencem de imediato. Como se dá essa magia? Não sei explicar. O fato é que ela nos acumplicia com a maior facilidade. Basta, tão somente, que leiamos o que escreve.

Meu primeiro contato com seus textos se deu há quatro ou cinco anos, não tenho certeza. Desde então, minha admiração por essa historiadora, sobretudo escritora, só cresceu. Continua crescendo. Prova é que já tive o privilégio e a honra de publicar, no Literário, 255 textos dela, em 255 sábados consecutivos, sem falhar um único. Como se vê, não sou mais “marinheiro de primeira viagem” no que diz respeito à apreciação de sua obra. Um de seus livros de maior sucesso, o romance “Verde Vale” (já em décima edição), mexeu, particularmente, comigo. Concluí sua leitura profundamente comovido, com lágrimas nos olhos. O relato que ela fez, da saga dos alemães, pioneiros na fundação de Blumenau, remeteu-me à infância, na minha Horizontina natal. Identifiquei, em seus personagens, sobretudo nos membros da família Sonen, figuras sumamente familiares, só que de procedência russa e não germânica (como os da sua narrativa), que deram vida à cidadezinha do noroeste do Rio Grande do Sul em que nasci. Lembraram, sobretudo meu avô, meus tios e meus primos, além dos meus pais, claro.

A sequência desse romance de tirar o fôlego, “No tempo das tangerinas” (cuja décima segunda edição foi lançada recentemente), teve, sobre mim, efeito semelhante. Tornei-me, quase sem perceber, seu “cúmplice” nessas duas histórias. É o efeito da empatia que Urda desperta. E por que estou escrevendo tudo isso? Porque essa escritora prolífica e tão hábil está prestes a lançar seu trigésimo terceiro livro. Em texto anterior que escrevi a seu respeito enganei-me ao quantificar o montante da sua obra. Afirmei que ela havia publicado quinze livros. Na verdade, foram mais do que o dobro dessa cifra. Com a nova publicação, já serão trinta e três! Nada mau, não é mesmo?

O novo livro de Urda trata de algo que também me apaixona, e muito: a “amizade” que estabelecemos com animais domésticos. Já tive cães e gatos que considerei (pois de fato eram) membros da minha família. Ainda não me refiz, por exemplo, da morte do meu amigão  de quatro patas, o “Nick”, um Poodle “Toy”, branquinho, que morreu há pouco mais de um ano, de velhice. Ficou conosco por catorze anos, brindando-nos com amor irrestrito, raríssimo de se ver em humanos dada sua constância e fidelidade. Quanto a gatos, tenho, atualmente, sete (já tive muitos mais), Cada um tem “personalidade” única, caprichos e hábitos peculiares, maneiras próprias de nos dedicar afeição. Mas todos, óbvio, são muito queridos.

O novo livro de Urda, que será lançado, oficialmente, em Blumenau, no próximo dia 3 de dezembro de 2014, intitula-se “Nossa família aumentou”. Ela, que em 2010 já havia nos apresentado seu cãozinho muito especial, na publicação “Meu cachorro Atahualpa”, agora apresenta novo membro de seu “clã”: uma gatinha recém-chegada, que modificou (para melhor, sem dúvida) sua rotina de vida e, sobretudo, sua estrutura familiar. Estou certo de que, a exemplo dos outros livros, este também (lançado pela Editora Hemisfério Sul Ltda) será estrondoso sucesso. O que é bom tem que ser prestigiado. E Urda Alice Klueger merece um superlativo: é excelente!!!

 

 
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Quinta-feira, 20 de Novembro de 2014

Cronica da Urda - Churrasco de igreja

 

CHURRASCO DE IGREJA

                       

                                   (Para meu amigo Adalberto Day e para meu pai, Roland Klueger)

                                  

                                   Aquele aroma vem lá da minha infância mais antiga, do tempo em que ainda não tinha quatro anos, e é inesquecível e incomparável. Em dias de festa, e houve alguns naquele período em que começo a lembrar das coisas, meu pai fazia o perigoso braseiro no chão do rancho, rodeado por alguns tijolos, e meninas pequenas como eu ficavam proibidas de aproximar dali um dedinho que fosse. O fogo, assim como a água, continuam exercendo seu fascínio atávico sobre o ser humano, e ainda me lembro muito bem do rubor daquelas brasas vivas e perigosas, que logo eram cobertas pela grelha de ferro, utensílio importantíssimo naqueles tempos remotos – e que continua a existir, principalmente em festas de igreja.

                                   Então, quando a grelha incandescia, lá vinham os churrascos para assar, mergulhados no tempero desde a véspera, e meu pai, que sempre foi hábil cozinheiro, sabia direitinho o que se usar para um churrasco, ou cinquenta, ou cem – temperava os churrascos para um casamento inteiro, ou para o que fosse, as quantidades sabidas de cabeça, tanto de sal, tanto de pimenta do reino, tanto de cebola cortada, tanto de vinho, tanto de cerveja, um pouco de limão. Acho bom clarear o conceito de churrasco para quem não é nativo do Vale do Itajaí – nosso churrasco é aquilo que os gaúchos, por exemplo, chamam de chuleta, e quando, aos poucos, outros povos começaram a povoar este vale que fora por algum tempo dominado pelos imigrantes e seus descendentes, e se espantarem pelo nosso conceito de churrasco, espantamo-nos também, pois, para nós, o churrasco era aquilo que a nossa cultura nos passara.

                                   Lembro da primeira vez em que estive num churrasco em distante lugar, e o quanto me espantei com tantas carnes, porcos cortados ao meio com os dentes ainda formando meio sorriso e coisas assim, sal grosso em lugar de vinha d’alhos, espetos – tive um choque, assim como devem ter tido os que vieram de fora e se depararam com o que sabíamos. Imagino, no entanto, que os migrantes não devem ter se chocado com aquele aroma que se espalha pelo ar quando aquelas chuletas temperadas de véspera vão para a grelha e rescendem àquela inebriante fumaça de carne assando no seu melhor tempero, assim como meu pai fazia.

                                   Ao longo das últimas décadas, o churrasco gaúcho foi tomando conta dos restaurantes e costumes desta região onde vivo, e penso que hoje já pouca gente sabe, como meu pai sabia, as quantidades certas de tempero para cinquenta ou cem churrascos, e além de um ou outro lugar esparso, como algumas casas ou alguns assadores, o nosso churrasco tradicional está circunscrito às festas de igreja. E hoje é um tempo em que a gente diz coisas assim:

                                   - Vou comer um churrasco de igreja na festa da Nova Rússia! – pode ser em outro lugar, o que importa é a tradicionalidade daquele tempero de véspera, a grelha de pernas curtas sobre o braseiro, aquele aroma que eu diria divino se espalhando pelo ar, coisa que foi tão bem preservada pelas igrejas, nas suas festas! O nosso churrasco tradicional hoje se chama “churrasco de igreja”, e lembrando o que meu pai fazia, eu ainda arrisco fazer o tempero de uma ou duas peças daquelas, para obter resultado mais ou menos igual, e fico caçando os anúncios de festas de igreja para ir lá comer aquele que é o tradicional churrasco da minha infância, e nessas ocasiões, sinto tamanha saudade do meu pai!

 

                                   Blumenau, 18 de novembro de 2014.

 

                                   Urda Alice Klueger

                                   Escritora, historiadora e doutora em Geografia.

 

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Quinta-feira, 13 de Novembro de 2014

Crônica da Urda - Na esquina da casa verde

 

Na esquina da casa verde

 

                                   (Para D. Lydia Scheffler dos Santos)

 

                                   Era na esquina daquela casa verde que as nossas dores se cruzavam. Faz tanto tempo, e é ainda como se as nossas dores estivessem amarradas ali, uma na dor da outra, enlaçadas como fitas de seda embaralhadas pelo vento em nós impossíveis de desatar, tão forte foram e nunca deixaram de ser.

                                   Às vezes tu vinhas a pé pela madrugada, no caminho que então era de terra, e cruzavas a rua bem ali onde já havia a mesma casa verde que está ali até hoje, e subias até lá onde a urgência do teu coração mandava, e no relicário do teu peito era impossível caber o tamanho daquela dor, mas tu a carregavas como havia de ser, porque não era possível desvencilhar-se dela como se fosse uma carga qualquer.

                                   Eu vinha de ônibus um pouco mais tarde, pelo caminho de paralelepípedos, na maioria das vezes sem ter ideia que o tamanho da minha dor era comparável à tua, porque para mim a minha dor era a maior do mundo, e somente hoje consigo ver que também havia um relicário onde a guardava, embora vivesse tão desnorteada que do meu relicário a dor vazava, escorria, sangrava, e na esquina da casa verde, antes de subir o morro, eu me sentia tão atarantada que nem me dava conta de quantas vezes tropeçava, enredava-me na tua dor que ficara ali estendida antes, inconsciente de que as duas se cruzavam ali, embora eu soubesse da tua dor e do tamanho dela.

                                   Mas era ali que as nossas dores se cruzavam, embora vez ou outra elas se encontrassem frente a frente, quando acontecia de nos encontrarmos lá sobre o morro, e então doía tanto, tanto, que no mais das vezes eu me limitava a ficar lá sentada, chorando, tanto doía e tão grande a emoção de estar perto de ti. Queria abraçar-te, esconder-me no teu regaço, amalgamar-me contigo e amalgamar nossas dores, mas minha coragem era pouca e eu só ficava lá, chorando, pois nem tinha, mesmo, forças para mais que isso.

                                   Tu eras mais forte do que eu, e me dizias coisas, e me contavas coisas, até das alegrias maiores de todas, como naquela vez em que disseste que “Foi como receber um presente de Deus”. Ah! Como eu te compreendia e como penso que também me compreendias, pois nossas perdas eram comparáveis, e só quem recebe tal rasteira na felicidade pode compreender o tamanho da dor que fica, e nós duas havíamos perdido quase do mesmo jeito.

                                   Então a dor, aquela dor que nunca acabou, e que se entrelaçava ali naquela esquina onde ainda há a casa verde. E passo ali hoje, e todas as ruas estão calçadas e muita coisa se construiu e se fez, mas o morro ainda está lá, e ali no ponto de entrelaçamento existem ainda aquelas faixas móveis de luz que foram feitas pelo entrelaçamento das nossas dores sem tamanho. Bem na esquina daquela casa antiga.

 

                                   Blumenau, 17 de Outubro de 2014.

 

                                   Urda Alice Klueger

                                   Escritora, historiadora e doutora em Geografia.

 

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Segunda-feira, 10 de Novembro de 2014

Crônica da Urda - Eu sou Ayotzinapa

 

 

 

                                                    Eu sou Ayotzinapa

 

                                   Desde o dia 26 de setembro deste 2014 que eu estou esperando por eles. Tal, nas minhas contas, hoje dá 40 dias. Eram jovens estudantes de pedagogia de uma área rural que, desarmados e indefesos, faziam uma manifestação, quando foram violentamente reprimidos pela polícia mexicana, que de cara assassinou a seis pessoas, feriu umas quantas... e sumiu com 43 futuros professores.

                                   Dia a dia espero por eles, assim como seus pais, suas famílias, as pessoas de bem de todo o México e tantas, como eu, pelo mundo afora, irmanados que somos pelo ideal bolivariano de uma pátria grande, pelo ideal de Johnn Lennon, quando escreveu Imagine. Dia a dia vejo as notícias (claro que não é pela Globo!) do que acontece em Ayotzinapa, aquela cidade que a gente nem sabia que existia, e que, desde então, tornou-se como que o centro do mundo, e espero, como os pais e os amigos deles esperam, que aqueles jovens futuros professores reapareçam, e o que eu mais ouço dos seus familiares é o desejo de que reapareçam “com vida e saúde”.

                                   Vi a entrevista, lá no final de setembro, de um jovem que nem desapareceu e nem morreu – fez-se de morto, atirado ao chão, pode ver algumas coisas, salvou-se milagrosamente. O que ele contou ultrapassa a capacidade de entendimento da maldade que pode haver num ser humano. Os 43 que sumiram foram levados embora pela polícia... para onde?

                                   Primeiro houve a revolta do povo de Ayotzinapa, depois a do estado de Guerrero, onde fica a pequena cidade, depois a do México, e hoje ela se espalha pelo mundo, conforme as pessoas sensíveis vão sendo informadas, e eu também quero saber onde estão aqueles meus jovens irmãos que queriam ser professores e que sumiram como uma bolha de sabão que explode.

                                   A pressão popular foi e está tão grande que o governo do estado de Guerrero já caiu; não vou achar estranho se cair até o presidente do México. Estão a investigar, pelo jeito com profundidade, pois já existem mais de 50 suspeitos presos, inclusive 36 policiais, mas quem foi mandou sumir com os meninos de Ayotzinapa? Em data de ontem conseguiram achar, escondidos num subúrbio miserável, o ex-prefeito de Ayotzinapa e sua mulher, pessoas ligadas ao crime organizado, que se puseram em fuga antes mesmo de começarem a ser procurados. Segundo as autoridades mexicanas, são os principais suspeitos para se chegar a uma solução do caso.

                                   Até agora já acharam 12 fossas clandestinas com 38 corpos calcinados, mas como ainda não se comprovou que nenhum deles é dos meninos estudantes, fica nos pais, nas famílias, no México e em mim a esperança de que, milagrosamente, ainda venham a reaparecer com vida e saúde aqueles rapazes que assim saíram de casa no dia 26 de setembro.

                                   A revolta cresce no México e no mundo, e o Brasil pouco sabe a respeito, por conta da sua imprensa vendida. Mas dia a dia me informo e não consigo me conformar: onde estão aqueles meninos?

                                   Hoje sou Ayotzinapa, até o fundo da alma. Eu sou cada um daqueles pais e daquelas mães, e quero saber o que aconteceu. E, como eles, quero os jovens estudantes de volta! O mundo já não pode suportar coisas assim.

 

                                   Blumenau, 05 de Novembro de 2014.

 

                                   Urda Alice Klueger

                                   Escritora, historiadora e doutora em Geografia.

 

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Segunda-feira, 3 de Novembro de 2014

Crônica da Urda

 

Nota de falecimento

 

 

                                   (Para Cusco Preto Schörner)

 

                                   Faz pouco mais de duas horas que ele se foi, enquanto eu e meu cachorro Atahualpa, atônitos, víamos a veterinária auscultar-lhe o coração pela última vez, desligar o oxigênio, tirar a cerquinha que o protegia. Observei que o soro já não gotejava mais, não sei se por conta de coisas da natureza ou se a moça o desligara – sei que o Cusco tinha partido assim ali na nossa frente, devagarinho, serenamente, sem nenhum alarde, e agora estou aqui chorando, ainda sem poder acreditar.

                                   Uma pessoa que não sei quem é disse que “cada cachorro que parte leva um pedaço do meu coração”, e é bem assim que me sinto, como se me faltasse um pedaço, pois Cusco era alguém tão próximo, estava tão misturado com as nossas vidas que era como se fosse nosso também e, dolorida, fiquei vendo o que Atahualpa fez quando chegamos em casa: foi lá na casa do Cusco, e farejou cada pedacinho do pequeno pátio, e da garagem, e da porta, pois eu acho que ele entendeu perfeitamente que o amigo do peito partiu.

                                   Imagino que Cusco nasceu lá pelo final de março de 2009 – sei que veio para a sua família a primeiro de maio daquele ano, e era um filhotão de pernas compridas quando o conhecemos, no mês de julho, sendo carregado no colo por aquela menina bonita que era a Monique. Como todo filhote, era bastante arrojado e queria saber tudo do mundo, e num instante descobriu que éramos seus amigos, e passou a entrar por dentre as grades da nossa varanda a qualquer momento para dar uma espiada se havia algum petisco sobrando no prato de Atahualpa, e pular, e fazer carinho, e abanar o rabo, um feixe de felicidade e energia que conquistava qualquer um que tivesse coração.

                                   Fomos vizinhos exatos 63 meses, e era um cachorro cheio de amor e de grande docilidade. Quando acontecia de ficar sozinho uma horinha, de vez em quando, chorava tanto que era de cortar o coração, mas um pouquinho de amor que fosse já o consolava. E eu ia até sua porta e o chamava:

- Cusco! Não fica triste! A mamãe já volta! – e eu podia ouvi-lo cheirando por sob a porta, como quem diz:

- Ok, vou esperar. Confio em ti! – e nos entendíamos tão bem que agora fica difícil pensar em como vai ser a vida sem a existência dele.

                                   Faz dois dias que, ao sair pelos fundos da sua garagem para fazer xixi na beirada da floresta que há aqui, cachorros estranhos o pegaram e o deixaram em petição de miséria, de tal forma que não resistiu aos ferimentos.

                                   A gente, no entanto, sempre espera pelo melhor, e foi com a sensação de que ele iria nos receber abanando o rabo que fui, com Atahualpa, fazer-lhe a visitinha de há pouco. Foi muito traumático chegar ao hospitalzinho e ver o estado dele. Não nos viu, não nos cheirou, já não abanaria mais o rabo. Esperamos ali, sem querer acreditar que ele estava tão mal, e ali estávamos quando ele se foi.

                                   Ainda não falei com sua família, que deve estar pior do que eu estou, e nem sei o que dizer quando a gente se encontrar. Talvez só lhes diga a parte que sei: que o Cusco não está mais entre nós porque se foi para as Campinas Verdejantes, onde vai ter toda a liberdade que quiser e ser feliz para sempre. Bem na horinha em que a veterinário tirou-lhe o oxigênio eu percebi lá fora, mesmo sendo dia nublado, como aparecia um arco-íris para guiá-lo até àquele lugar abençoado para onde vão os bons cachorros.

                                   Que tenhas feito boa viagem, Cusco! Tiveste uma família que te amou muito, outras pessoas, como eu, que só queriam a tua felicidade; eras amigo de gentes, gatos e cachorros; foste personagem de dois livros e deixas muita, muita saudade, tanta, que não sei o que fazer para parar de chorar.

                                   Blumenau, 01 de novembro de 2014.

 

                                   Urda Alice Klueger

                                   Escritora, historiadora e doutora em Geografia.

 

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