Segunda-feira, 1 de Julho de 2013

Gilberto Freyre , o “anarquista construtivo” enfrenta a “escola sociológica paulista”

 




     Este seria um belo título para um filme “cult” dos idos anos 70 . Mas na verdade esse embate foi muito mais elitista e futriqueiro que o seu  título popular. Como sabemos , quem se auto-intitulou de “anarquista construtivo” foi Freyre, quando se via questionado por ser o que, os paulistas por exemplo, chamavam de “conservadorismo empedernido”. Mas, se hoje, os nossos cientistas sociais podem ostensivamente e com legitimidade , pesquisar sobre a questão da mulher , minorias sexuais e o universo doméstico é graças a sua obra polêmica  Casa Grande & Senzala .
    As críticas ao seu trabalho muitas vezes se atinham a sua forte preocupação com a sexualidade ou ainda faziam recriminações à sua visão de “uma sociedade  em que predominam mecanismos de acomodação e conciliação. Isso era demais para sociólogos da Universidade de São Paulo (USP) , que ainda  o consideravam um colecionador de objetividades ( ou de obviedades)” .
    Passaram-se os anos e pouco a pouco, a importância de sua obra , inegável, vai sendo resgatada . Volta a ser citado e muitos até fazem até um verdadeiro “ato de contrição”. A jornalista Rose Nogueira (criadora do extinto e revolucionário programa TV Mulher)  ressalta, por exemplo, que na obra de Gilberto Freyre fica muito bem explicitada a função da mulher no trato das tarefas diárias em uma fazenda . Que ela é quem verdadeiramente era “comandante-em-chefe” dos feitores. Que essa visão da mulher no comando dos negócios acaba por ser incorporado nas obras ficcionais e aparece emblemáticamente nas cenas da novela televisiva Terra Nostra . Com certeza, sem Gilberto Freyre e a inspiração de seu trabalho para outros pesquisadores, jamais teríamos essa visão  e sim, a outra oficial, de uma sociedade patriarcal e patronal.
     No prefácio de sua terceira edição de casa Grande & Senzala, Gilberto Freyre diz receber com naturalidade as críticas “sem se achar, entretanto, obrigado a modificar os seus pontos de vista”. Reparos como o do Professor Coornaert, da Sorbonne, sobre o que considera preocupação excessiva com o elemento sexual na interpretação de alguns aspectos característicos da formação social do Brasil. Críticas estas que obtiam ressonância nos “sorbonardes” da dita esquerda sociológica paulista.
     Em entrevista concedida em 1985 a Benjamim e Cilene Areias, Freyre fala dessa sua relação com a intelectualidade esquerdista. “Eu sempre fiz restrições a certos usos do marxismo, mas não se pode apresentar nenhuma atitude antimarxista sectária de minha parte. E fiz um grande convertido: o inteligentíssimo Oswald de Andrade. Num de seus artigos no Correio da Manhã ele tratou de sua conversão ao ‘pós-marxismo de Gilberto Freyre’, dizendo que não rejeitara o que aprendera de marxismo , mas achava que isso não satisfazia mais: Marx foi homem de uma época européia, e nós estávamos noutra  época. Ora , quem é pós-marxista não é antimarxista.”
Em outra entrevista, anterior a essa (1980) a Ricardo Noblat, então chefe de sucursal da Revista Veja e que foi publicada pela revista Playboy, experiente o jornalista tentava fazer Gilberto Freyre falar sobre seus críticos , que teimavam em não reconhecer a sua importância internacional, esquivo acaba por falar nas desvantagens do sucesso- “ A desvantagem é que você fica muito exposto ao chato. Essa é a desvantagem principal, porque o chato existe e não é só brasileiro: o chato é internacional...E você tem de se defender sem magoar aquilo que o chato bem-intencionado representa. Porque o chato por vezes é bem-intencionado . Ele não é chato porque quer ser : ele é chato porque é chato.” E citava como chato o amigo Oscar Niemeyer –“que é um arquiteto genial, é muito ignorante. É difícil você manter uma conversa interessante com ele.(...)há pessoas que são muitíssimo mais interessantes escrevendo do que falando”. Com tiradas como essa Gilberto Freyre atraia sobre sí não simplesmente as críticas acadêmicas , mas também as rusgas primárias e a ira da “inteligência da esquerda”.
    E fustigando a intelectualidade paulista também com artigos contra o modernismo. “...no total, a Semana de Arte Moderna representou uma introdução arbitrária , no Brasil, de modernices européias, sobretudo francesas. Sem dúvida, cultura brasileira em geral e as artes brasileiras em particular, precisavam na época de serem modernizadas, revigoradas – mas levando-se em conta a realidade regional brasileira, suas tradições características às quais se poderia adaptar inovações européias. Isso não se fez em São Paulo, mas sim no Recife, num movimento menos badalado, como se diria hoje, do que a Semana de Arte Moderna de São Paulo. Esse movimento foi regionalista, tradicionalista e, a seu modo , modernista, ao qual estiveram ligados artistas como Vicente do Rego Monteiro, um renovador da pintura e da escultura.”
    Gilberto Freyre começou a ser conhecido em São Paulo por um outro intelectual paulista que, coincidentemente, criticou a Semana de Arte Moderna, Monteiro Lobato que  divulgava os artigos de Freyre  na Revista do Brasil .
     Mas a briga com a  “escola sociológica paulista” estava longe de acabar, seu apoio à ditadura que instalou-se após o Golpe de 64 , levou-o a praticamente ser expurgado dos currículos da Universidade de São Paulo . Mais tarde , Gilberto Freyre reconheceu que não era antimilitarista mas, “devo dizer que nunca me enganei com esse surto militar iniciado em 1964, o que me levou a recusar convites do General Castello Branco para ocupar um Ministério ou Embaixada em Paris. Os militares se deram aos tecnocratas, que comprometeram os valores éticos do Brasil e nada fizeram para diminuir o desprezo pelo nordeste, que já se manifestava então no Centro-Sul. Você não pode definir o Ministro tecnocrata por excelência, o Delfim Netto, senão como um quase patológico antinordestino.” Como vemos sobrou até para a direita paulista.
     Porém, o mais interessante vem ainda a acontecer, como todo roteiro de filme “cult” , vilões e heróis acabam por se confundir. Na correspondência pessoal de Gilberto Freyre encontramos uma carta datada de  7 de Abril de 1961 , em papel timbrado da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo , assinada pelo Professor Florestan Fernandes. Agradecia  a hospitalidade recebida por ocasião de sua passagem por Recife. Afirmava ter levado as melhores impressões do trabalho que estava sendo realizado pelas duas instituições que Freyre dirigia e ia além...”Agora o principal objetivo desta carta: os dois primeiros doutoramentos da cadeira de Sociologia I, a realizar-se em breve, de candidatos que trabalharam sob  minha orientação, devem ocorrer dentro deste semestre. Os  candidatos são seus conhecidos e admiradores : Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni. Os trabalham versam assunto de sua principal área de estudos – a sociedade senhorial brasileira, só que agora vista do ângulo das relações entre o senhor e o escravo no sul do Brasil (Porto Alegre e Curitiba). Queríamos prestar-lhe uma homenagem, que constitui ao mesmo tempo uma honra para nós, pedindo-lhe para participar da banca examinadora”.
Pois bem,  o então futuro “príncipe dos sociólogos” e “Presidente do Brasil” poderia ser examinado por Gilberto Freyre... Na mesma entrevista  concedida a Ricardo Noblat ,  Gilberto Freyre fala sobre esses três personagens – “Dos sociólogos paulistas, o que eu considero a figura máxima é Fernando Henrique Cardoso, que é até político militante marxista, mas há pouco, num artigo, mostrou-se simpático às minhas atitudes, embora divergindo de mim. Outro marxista, mas este do Rio, o antropólogo Darci Ribeiro, um grande antropólogo, escreveu uma introdução para a edição venezuelana de meu livro Casa Grande & Senzala , que é talvez o que de melhor já se escreveu a respeito do ponto de vista antropológico e sociológico. Agora, ambos são marxistas eminentes. Mas quando o marxista é um Octávio Ianni, que não é intelectualmente honesto, a meu ver, e um outro que já nem me lembro o nome...”Noblat se apressa em lembrar.....”Florestan Fernandes?” E Gilberto Freyre continua- “Florestan. Que não é desonesto mas que é um fanatizado pelo marxismo. Esses desonestos ou esses fanáticos superiores – eu respeito o Florestan Fernandes, uma cultura real, um talento autêntico, mas fanatizado – enfim , eu não os considero como representantes do que há de melhor na sociologia e na antropologia paulista . Mas, são os mais ruidosos e os mais badalados por nossa querida imprensa”.
     Quando Fernando Henrique Cardoso ainda era Senador pelo PMDB-SP , e sabe-se lá se acalentava o sonho de ser Presidente reeleito, publicou um artigo no Jornal O Globo de 26 de julho de 1987 republicado dez anos depois no Diário de Pernambuco. Nele era o sociólogo Fernando Henrique que falava e chamava Gilberto Freyre de “um verdadeiro criador”. Talvez quisesse dizer...um verdadeiro “criador de casos”, mas discorria que “há alguns anos –em 1973- escrevi um artigo sobre ‘Casa Grande & Senzala’. Foi um ato de contrição. Eu lera , obviamente, e muitas vezes, não só ‘Casa Grande & Senzala’, mas alguns outros livros de Gilberto Freyre. Membro da ‘escola sociológica paulista’ que sou e interessado nas questões raciais e na escravidão ( minha tese de mestrado, em co-autoria com Octavio Ianni, e a tese de doutorado foi sobre o ‘Capitalismo e escravidão no Brasil Meridional’) , li Gilberto Freyre quando estudante e na época das teses universitárias com o olhar severo do jovem que buscava o rigor científico e tinha em Florestan Fernandes o mâitre a penser.”
     E continua o sociólogo “Pois bem, na releitura crítica percebi o pecado (venial , por certo) que cometera. Gilberto Freyre não podia ter sido lido como um colecionador de objetividade (ou de obviedades). Nem do ângulo científico nem do ângulo político”. (...) “Rótulos não se sustentam diante do verdadeiro criador, Freyre me capturou. Não por sua ‘ciência’, mas por ter sido capaz de propor um mito-fundador.” Casa Grande & Senzala” e o próprio Gilberto Freyre são parte constitutivas do Brasil : falsos ou verdadeiros, a obra e o criador, pela força macunaímica que têm, expressam o que nós somos”.
    “Ás vezes não gostamos: é a vaidade transbordante, a pequena mentira, a perspectiva ilusória. Mas não apenas em Gilberto Freyre : tudo isso está contido na nossa cultura. As vezes nos deliciamos: são os quitutes, é o sexo obsessivo, é o popularesco, é o povo próximo de nós. Mas também  neste caso, é mito.”
    “Morto Gilberto Freyre, continua vivo o mito que ele produziu”.

     Ainda bem. Pena que outros mitos não sejam tão geniais.    
 
                                  Eduardo Cruz é jornalista  paulistano

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Domingo, 15 de Março de 2009

ENSAIOS SOBRE TEATRO

ENSAIOS SOBRE TEATRO

O TEATRO EM BUSCA DA BRASILIDADE

CENSURA - AS AGRURAS DO PALCO

 

publicado por o editor às 22:26
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Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009

UM SÓ BRASIL DE MUITAS CARAS E MUITOS SONS

Como já me livrei de notas introdutórias , péssima expressão para qualquer tom de ensaio me sinto livre para incorrer em injustiças e tomar catiripapos de amigos mais chegados e cometer o despretencioso texto, dando testemunha que esse Brasil tem muito de conhecer esses outros brasis. Ia me ater a um mapa, dividir regiões, colocar em ordem alfabética, mas percebi que ia incorrer em erro, escorregar no didatismo e no melhor dizer de João Antonio, ia me tornar um "um doutor sambudo e quiquiriqui, um litorâneo raquítico e pretencioso" que vive a "torcer o nariz".
Resolvi começar São Paulo, filho da terra que sou. Afinal quem é a cara de São Paulo...Meus amigos de beberundar nas padarias do Bixiga (apelido de um bairro central e boêmio) logo sacaram de um nome de rua, Adoniran Barbosa mas depois... depois tem o depois e outros poréns que logo veremos em outros intertítulos. LEIA MAIS...

 

publicado por o editor às 12:24
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Sábado, 1 de Novembro de 2008

Mais que uma única história

JESUS CRISTO, MARIA E MADALENA.

Introdução

Em todo momento polêmico surgem histórias exemplares. Talvez nos venham a sobrar indignações por tratar de tal tema, mas o certo é que sem querer discutir o Jesus histórico, ou ainda tentar validar esta ou aquela teoria sobre mistérios que são na verdade dogmas de fé, e por assim o serem não cabem como objeto de discussão, perpetramos esse texto com a intenção de mostrar que existe mais de uma maneira de se contar uma história. Mesmo sendo esta considerada a maior história de todos os tempos. Uma história que é a da tradição judaica e da construção da civilização cristã, civilização essa que já nos deu, por exemplo, as Cruzadas e a Santa Inquisição.

 

 

Uma civilização que a princípio se edifica sob a influência da igreja católica, igreja essa que também já surge polêmica. Não fosse assim nas longas peregrinações São Paulo Apóstolo não teria encontrado (25 anos depois) em uma de suas viagens alguns seguidores de João Batista, um moralista severo e inflexível sobre quem Jesus certa vez declarou – “Em verdade vos digo: Entre os nascidos de mulher ninguém apareceu maior que João Batista”.

 

 

 

Leia mais este ensaio em

 


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Domingo, 28 de Setembro de 2008

MELHOR MORRER DE VODCA, QUE DE TÉDIO?




















"Foi truculento, odiando a truculência
ficou sem voz, nas horas de discurso
Gastou-se em aparência
Disfarçando o urso."
Jorge Wanderley, in Coração à Parte

"E logo vai amanhecer
Os trabalhadores vão se levantar
e vão procurar por mim no estaleiro
e dirão:
'ele tá bêbado de novo' "
 
Charles Bukowski, in Quatro e meia da manhã

Se os poetas boêmios de todo mundo se dessem as mãos, não teria ninguém para abrir as garrafas. Nosso título foi tirado de um poema desesperado de Maiakovski e que poderia muito bem sintetizar o pensamento dos mais boêmios poetas. Eles poderiam ser do século dezessete, dezoito, do século passado. Russos, brasileiros, alemães. Pernambucanos que aportaram em São Paulo ou Rio de Janeiro. Gente de todos os estilos, mas com algo em comum, a boemia. E outra coincidência mais estilística, a de quase nunca povoarem seus textos com personagens positivos. Para não cair na mesmice e fugir da tentação de transcrever piadas de nossos boêmios como "ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Baudelaire..." mas dar um pulinho a um dos grandes centros de boemia de São Paulo, A Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo.

CASTRO ALVES
 
Gente como Castro Alves estudou nas Arcadas Paulistas. Temos diversas historias sobre ele e a boemia, algumas inclusive já contadas nesse Suplemento.Uma história que se reveste do manto da especulação, maledicência ou até faz jus à mítica dos poetas românticos, é que Castro Alves em sua incursão pelo Braz, onde em um salto sobre uma vala desequilibra-se e dá um tiro no pé é incorreta e foi criada pelos amigos, para amainar um possível escândalo. Diz-se que, desgostoso com as relações com Eugênia Câmara, redirige suas energias para uma paulista de família burguesa. A mulher, por armadilha do destino, é casada com um comerciante português dono de uma chácara extensa que beirava até a famosa chácara do Tatuapé.O dito português flagra Castro Alves em sua propriedade. O poeta foge, mas, à beira de um riacho, acaba por levar um tirombaço no pé.O ferimento infecciona, pois a região possuía muitas charnecas pelas quais Alves precisa arrastar-se em busca de socorro. A tal chácara da Bresser existiu, assim como o riacho que desde o início do século está canalizado.A charneca está sobre metros de aterro, asfalto e concreto. Até os trilhos do Metrô correm sobre ela...

Mas que São Paulo era essa que o poeta freqüentava? Em carta ao Dr. Augusto Guimarães, de abril de 1868, dizia "Eis-me em São Paulo, na terra de Álvares de Azevedo, na bela cidade das névoas e das mantilhas, no solo que casa Heidelberg com a Andaluzia... Aqui há frio, porém frio da Sibéria; casas de Tebas; ruas, mas ruas de Cartago... casas que parecem feitas antes do mundo de tanto que são pretas, desertas, mas que parecem feitas depois do mundo de tanto que são desertas (...) escrevo-te, à noite. Faz frio de morte. Embalde estou embuçado no capote e esganado no cachenê". Existem outras versões deste texto, porém, todas concordam que sua conclusão era a mesma: "inclino-me a preferir São Paulo ao Recife."

ALVARES DE AZEVEDO
 
Álvares de Azevedo foi outro que deixou sua marca nas arcadas. Poeta, contista e ensaísta, nasceu em São Paulo a 12 de setembro de 1831, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 25 de abril de 1852. Em 1848 matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo, onde foi estudante aplicado e de cuja intensa vida literária participou ativamente, tendo fundado a Revista Mensal da Sociedade Ensaio Filosófico Paulistano. Entre seus contemporâneos, encontravam-se José Bonifácio (o Moço), Aureliano Lessa e Bernardo Guimarães estes dois últimos suas maiores amizades em São Paulo, com os quais constituiu uma república de estudantes na Chácara dos Ingleses, era ali que nasceria grande parte de sua obra poética. O meio literário estava encharcado de byronianismo, e teria fornecido a Álvares de Azevedo componentes de melancolia, sobretudo a previsão da morte, que parece tê-lo acompanhado a vida toda.

FAGUNDES VARELLA

Eu passava na vida errante e vago
Como o nauta perdido em noite escura,
Mas tu te ergueste peregrina e pura
Como o cisne inspirado em manso lago,
Já Luiz Nicolau Fagundes Varella nasceu em Rio Claro, Rio de Janeiro, em 17 de agosto de 1841 e faleceu em Niterói em 18 de fevereiro de 1875. Estudou também na Faculdade de Direito do Largo São Francisco na cidade de São Paulo, onde ainda se casou com uma prostituta. Dessa união, nasceu o filho primogênito, que veio a falecer com apenas três meses de vida. Mais amargurado que nunca, entregou-se totalmente à vida boêmia e ao álcool. Passou seus últimos anos de vida longe das grandes cidades, buscando refúgio na religião e no contato direto com a natureza e com pessoas simples da vida rural. A poesia que produziu nessa fase reveste-se de preocupação espiritual, apresentando caráter panteísta. O terceiro ano de direito fez na Faculdade de Direito em Olinda onde Castro Alves era primeiranista. Volta para São Paulo, mas desencantado da vida desiste de tudo, inclusive do curso. Sua obra poética, embora contivesse atitudes ultra-românticas, o pessimismo, a solidão e a morte, apontam rumos novos, que conduzem à geração seguinte de poetas. Conta-se que em 1861, teve aventuras ruidosas com uma "célebre mundana da Paulicéia", conhecida como Ritinha Sorocabana, cujo verdadeiro nome era Rita Maria Clementina de Oliveira. Logo após esse afair lançou o seu "Noturnas".

POETA É ALGO QUE MORRE MUITO

Desgraças à parte, nossos poetas românticos e boêmios eram dados a morrer de tuberculose, doença essa que grassava nas rodas da extravagância. Mas outros optaram por vias menos naturais e mataram-se. Em todos os tempos e todos os países isso vinha acontecendo, que o diga Goethe quando criou o seu jovem Werther. Que o diga os novos poetas (os neo-byronianos) góticos e outros tantos, em todas as épocas de nossa lira literária.

O escritor J.Toledo teve a ousadia de preparar o seu "Dicionário de Suicidas Ilustres" que relaciona personagens reais e da ficção que chegaram às vias de fato (às vezes malogradamente). Sem querer fazer apologia, metodicamente ele vai resgatando os nomes desses que desistiram da vida. Descobrimos por exemplo que Ruy Apocalypse, poeta e cronista mineiro (1934-1967), radicado em São Paulo, era um boêmio inveterado, morava só, na Rua Conselheiro Nébias, e o isolamento da grande cidade o induziu ao alcoolismo descontrolado e crônico que lhe acarretou diversos problemas profissionais. Em uma madrugada, atirou-se debaixo de um ônibus.

Outro poeta que não resistiu à boemia e depressão foi o português Mário de Sá-Carneiro. Nasceu em 19 de maio de 1890 em Lisboa, e teve como grande amigo Fernando Pessoa. É copiosa sua correspondência que relata suas dificuldades emocionais. Aos "26 anos incompletos retornou a Paris, sofreu uma crise moral e financeira, abandonou os estudos, brigou com o pai e passou a levar a vida boêmia da cidade". Conta-se que uma noite, em desespero, vestiu um smoking, trancou-se no quarto do hotel, deitou-se e envenenou-se com uma dose titânica de arsênico. Antes de se matar, enviou poesias inéditas à Pessoa, publicadas depois em 1937 com o título "Indício de Oiro".


Da Rússia temos o exemplo de Wladimyr Maiakovski, nascido em 19 de julho de 1893 em Bagdadi, e suicida-se em 14 de abril de 1930, em Moscou. Viveu intensamente, escandalizou, foi verdadeiramente revolucionário, na poesia, teatro e até cinema. Matou-se após concluir seu poema "A Plenos Pulmões". Curiosamente a sua frase, é melhor morrer de vodca do que de tédio, pareceu ser adequada para um poeta e músico punk, John Simon Ritchie, mais conhecido como Sid Vicious da banda inglesa Sex Pistols. No dia 2 de fevereiro de 1979, aos 24 anos, escreveu o seguinte poema dedicado ao grande amor de sua vida, Nancy, que havia morrido de overdose – "Você era minha menininha/e eu conhecia seus medos/ tanta alegria tê-la em meus braços/ e beijar suas lágrimas/ Mas agora você foi embora/ Só ha dor/e não posso fazer nada/ não quero viver essa vida/ se não posso vive-la com você". E suicidou-se ingerindo uma overdose de cocaína com vodca.

TAMBÉM SE VIVIA BEM
 
Os poetas boêmios que viveram no Rio de Janeiro e São Paulo, viveram pouco, mas intensamente. Em todas as épocas, misturaram-se com a fauna noturna onde pululavam compositores, atores, etc. Em São Paulo, por exemplo, na rua do Seminário próxima das Arcadas do Largo de São Francisco lá por 1922, os boêmios discutiam o fascismo e os movimentos populares. Popular era José Oiticica proparoxítonos da Letra do Hino Nacional, que deixam a criança mais atrapalhada do que o cego em tiroteio ou bode em canoa" . Ainda na memória boêmia de Lago encontramos o fascínio dos poetas e atores por Jacques Prévert. Anos mais tarde, já pelos sessenta e poucos o fascínio por Jean Genet (que teve uma fantástica biografia escrita por Edmund White ). Genet quando esteve no Brasil conheceu a noite de São Paulo, em especial a do Bairro do Bixiga (Bela Vista) onde ficava o teatro que apresentou sua peça "O Balcão".

No Rio de Janeiro, além dos cabarés da Lapa, pouco freqüentados, mas vizinhos de Manuel Bandeira, a boemia foi se espraiando por toda a orla. Os mineiros foram se chegando e agrupando-se. Cariocando-se, como querem alguns. Como já explicamos antes, ficando tudo assim como que mesclado. Afinal, escritores, cronistas e poetas acabavam incursionando também pela música popular. Como separar e rotular o nosso Antonio Maria ou Vinicius de Moraes. Se uns iam ao Clube da Chave outros visitavam a bossa nova no Beco das Garrafas. Tinha o "Corridinho" e também "O Fado". A casa portuguesa pululava de anti-salazaristas, mesmo todos acreditando que muitos dos portugueses eram da temida PIDE. Mas Tonny de Matos, sempre dava um jeitinho nas coisas e os brasileiros se aboletavam nas mesas para as vezes em petit comitê assistir um show exclusivíssimo de Amália Rodrigues. Os poetas e boêmios também adoravam o lugar por conta das apresentações de "desgarradas", improvisações ao som das guitarras portuguesas, um delicioso contraponto ao nosso repente. Certa noite o poeta Mario Lago estava por lá e frente a uma provocação (estava-se às vésperas da eleição de Jânio Quadros) resolveu também soltar a sua trova que saiu assim "Meu Brasil, país querido, teu destino é bem horrendo/ai-ai, oli, olá, teu destino é bem horrendo./Vai-se um doido varrido e vem um doido varrendo,/ai-ai, oli, olá, vem um doido varrendo". Pano rápido!

NOITES TROPICAIS
 
E nessa antropofágica noite tropical onde os personagens se aglutinam a lista se tornaria imensa e enfadonha. Quando acabamos de escrever Paulo Leminski, alguém nos socorre com Mario de Andrade, com Oswald de Andrade, mistura-se com uma pitada de angostura e tristeza desse coquetel a morte recente de Wally Salomão. Lembramos seu outro tão amigo que tão cedo se foi o piauiense Torquato, que soube como ninguém sintetizar essa boemia antropofágica e tropicalista que se tornou a noite (de todos os tempos) do Rio de Janeiro e de São Paulo, e que para os que desceram a ladeira da Sé em Olinda e bordejaram o rio, atravessaram a ponte e foram ao cais de Recife, sempre parece próxima porque nunca é distante dos livros e das rimas. Torquato que no saber de Augusto de Campos (ótimo tradutor de Maiakovski, diga-se de passagem) "agora você se mandou mesmo/pra não mais voltar/(deixe que os idiotas pensem que isto é poesia)..." e como ele mesmo escrevia "tudo o que eu quero/é uma questão de gosto:/um beijo, bolero/e pipoca moderna/mais o contraresto/menos nosso imposto/e cada vez mais perto/do porto."

Daria para falar de muitos, fazer um manifesto. Mas no texto enxuto e preciso devemos citar outro que transitou ha tão pouco tempo, Julinho Barroso. Citamos duas curtas frases, como meteóricas memórias de suas andanças – " O poeta é o traficante da liberdade" e " Pra quem desce a nossa onda/Toda semana é de arte moderna".

Todos esses poetas velhos, novos, parnasianos ou modernos amavam sua poesia e a noite. Como o alemão Charles Bukowski que trocou de país e de língua para se transformar em um poeta vigoroso e que só chegou às nossas mãos (traduzido) graças ao empenho de outro poeta, esse pernambucano Jorge Wanderley. Jorge não pôde ver o livro impresso, mas a edição da Bertrand Brasil é uma homenagem justa a seu empenho. Na introdução do livro Márcia Cavendish Wanderley nos conta "... Bukowski defendeu intensa e ostensivamente sua marginalidade na vida e na obra. Aquele 'demonismo' que teve em Baudelaire sua mais momentosa voz foi bandeira desfraldada pelo poeta bêbado. Em Jorge ele também existiu, mas escondia-se sorrateiro sob suas sobrancelhas mefistofélicas carinhosamente cultivadas e acariciadas (...) e por isso traduziu tão bem Bukowski, a quem respeitava, sobretudo pelo seu desprezo em relação a toda e qualquer representação institucional da vida, por tudo que não fosse carne da alma".

"'fumante ou


não-fumante?', o funcionário


perguntou.


'bebedor', eu


respondi."


Charles Bukowski, in All the Casualties Jorge Wanderley, in Todas as Perdas (tradução)


Ensaio de Eduardo Cruz
publicado por o editor às 12:11
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Domingo, 27 de Julho de 2008

ENSAIO - UM SÓ BRASIL DE MUITAS CARAS E MUITOS SONS


No Tocantins

O chefe dos parintintins

Vidrou na minha calça Lee

Eu vi uns patins pra você

Eu vi um Brasil na tevê

Capaz de cair um toró

Estou me sentindo tão só

Oh, tenha dó de mim

Pintou uma chance legal

Um lance lá na capital

Nem tem que ter ginasial

Meu amor

Roberto Menescal - Chico Buarque/1979

in Bye bye, Brasil

Para o filme Bye, bye Brasil, de Carlos Diegues

Como já me livrei de notas introdutórias , péssima expressão para qualquer tom de ensaio me sinto livre para incorrer em injustiças e tomar catiripapos de amigos mais chegados e cometer o despretencioso texto, dando testemunha que esse Brasil tem muito de conhecer esses outros brasis. Ia me ater a um mapa, dividir regiões, colocar em ordem alfabética, mas percebi que que ia incorrer em erro, escorregar no didatismo e no melhor dizer de João Antonio, ia me tornar um "um doutor sambudo e quiquiriqui, um litorâneo raquítico e pretencioso" que vive a "torcer o nariz".

 

 

Resolvi começar São Paulo, filho da terra que sou. Afinal quem é a cara de São Paulo...Meus amigos de beberundar nas padarias do Bixiga (apelido de um bairro central e boêmio) logo sacaram de um nome de rua, Adoniran Barbosa mas depois... depois tem o depois e outros poréns que logo veremos em outros intertítulos.

 
 

ADONIRAN BARBOSA, I TUTI QUANTI

 
 
 

Falar que Adoniran Barbosa é a cara de São Paulo não seria nenhum absurdo,, uma vez que João Rubinato em suas letras com sotaque e vocabulário da lígua do povo (a errada e gostosa língua do povo como gostava Manuel Bandeira), seria muito óbvio. Era um português conhecido por cá, como “macarrônico” falado nas ruas do Brás e Bixiga (os dois bairros hoje com muito mais sotaque nordestino). Ele assim como Paulo Vanzolini foram brindados com deliciosas histórias no ensaio de Conceição Ratis, “Os Boêmios na Música Popular” publicado por este Suplemento Cultural na edição de agosto de 2003. Mas é sempre bom relembrar a importância dos dois. Como bem relembra Tárik de Souza em seu livro “Tem mais Samba” (editora 34) “Sua originalidade (de Adoniran) projetou nacionalmente um samba paulista peculiar, repleto de ‘nós fumo e vortemo’. ‘Quem não sabe far errado não deve falar’, ironizava ele em depoimento”.

 

 

 

Na verdade Adoniran Barbosa nos idos de 50 chegou a ser chamado de o “Noel Rosa de São Paulo”, epíteto que felizmente não pegou.’ Zuza Homem de Mello em depoimento ao livro de Ayrton Mugnaini Jr – “Adoniran – Dá licença de contar” (Editora 34) explica que “se a vida de Adoniran sempre esteve ligada ao rádio, é como compositor que a sua vida em São Paulo ficará marcada para sempre. Adoniran foi o compositor de São Paulo por excelência. Ele transformou numa obra compreendida nacional e internacionalmente a linguagem e a vida paulistanas. ‘Samba do Arnesto’, ‘Trem das Onze’ e ‘Saudosa Maloca’ forma a trilogia suficiente para exemplificar sua obra. Uma obra engraçadíssima e tristíssima. De um boêmio/trabalhador, caipira/italiano, seco/vibrante, um gozador que sofreu. Um homem triste e alegre. Um monumental tipo popular.”

 

 

O autor e crítico musical de “Tem Mais Samba” também relembra ainda que a sonoridade paulista tinha a voz de Isaura Garcia, outra nascida e criada em bairro operário, o bairro do Brás.Suas músicas pouco recomendáveis para moças comportadas (Matriz e Filial, Só Louco, E o mundo não se acabou, por exemplo) eram siua marca registrada, além de seu imbatível bom humor.

 

 

Bom humor também não faltava para Paulo Vanzolini, que muito embora tenha ficado conhecido com “Ronda” e “Volta Por Cima”, era um cronista urbano imbatível. “ Vanzolini tomava um lotação para ir ao trabalho, e ao observar os batedores de carteira na fila, criou o elíptico ‘Praça Clóvis’ – ‘Na Praça Clávis minha carteira foi batida/ tinha vinte e cinco cruzeiros e o seu retrato/ vinte e cinco eu francamente achei barato/para me livrarem do meu atraso de vida...’”

 

 

MAS AINDA TEM OS CAIPIRAS

 

 

Muitos acham que a cara de São Paulo é a música caipira, a toada de viola tão cara a Mario de Andrade que as recolhia com enlevo quando era professor no Conservatório Musical. Quando falamos dessa música caipira, evitamos usar o termo sertanejo, hoje rótulo de músicas totalmente dissociadas desses estilo. Musicas estas hoje pausteurizadas e tocadas para duos e não duplas provocarem trinos e gargarejos que embalam letras repetitivas e melosas. A velho música sertaneja, a caipira que nos referimos é formada por cururus, modas, pagodes e cantos de trabalho, que desfilavam desde acontecimentos políticos, a reminicências. Não faltavam as sátiras, críticas e ainda história campônias com gados, cavalos de valor e certa valentia. Logicamente existiam também as histórias de amor e morte, mas dolosas, tristes para fazer as violas chorarem.

 

 

 

Essa música hoje rara mas que influenciou grandes compositores da MPB (Ivan Lins, Milton Nascimento, Chico Buarque tem uma sonoridade inconfundível – são catiras, benditos, toadas, batuques, calangos e modas de viola. Hoje ainda faz oi som de São Paulo através de uma incansável defensora, apresentadora de um decano programa semanal na TV Cultura (TV educativa de São Paulo), Inezita Barroso, ou se preferirem Inês Madalena Aranha de Lima, esta grande cantora, que nasceu em São Paulo em 04 de Março de 1925.

 

 

CHICO BUARQUE - O POETA SESSENTÃO

 

 

Falando em São Paulo a gente não podia deixar de lembrar do poeta de olhos verdes, o sessentão mais cobiçado do carioca calçadão beira-mar e que já foi um dia o poeta irriquieto da Rua Buri, pertinho do estádio do Pacaembú, onde adorava assistir futebol.

 

 

A história é simples , no dia 19 de junho nasce, na Maternidade São Sebastião, no Largo do Machado, Rio de Janeiro, Francisco Buarque de Hollanda, o quarto dos sete filhos

do historiador e sociólogo Sérgio Buarque

de Hollanda e da pianista amadora Maria Amélia Cesário Alvim.

 

 

Depois de morar no Rio de Janeiro e uns tempos na Itália, Francisco, o Chico se muda com a família para São Paulo (1956/1957) . Oficialmente (está na web) “sua irmã Ana de Hollanda, a "Baía", conta que aos doze, treze anos de idade, já de volta a São Paulo, Chico compôs ‘umas operetas’ que eram cantadas em conjunto com as irmãs mais novas, Ana, Cristina e Pii. A família muda-se para um casarão na rua Buri, a poucos quarteirões do estádio do Pacaembu. Embora fosse um apaixonado torcedor do Fluminense, a camisa que seu ídolo vestia era a do Santos. Seu nome: Paulo César de Araújo, o Pagão, nome que Chico adota até hoje, em homenagem ao craque, quando veste a camisa número 9 de seu time de futebol, o Politheama. Alguns amigos brincam, afirmando que Chico só se tornou músico porque não conseguiu

brilhar no futebol.” Sorte nossa.

 

 

Chico Buarque é como diremos...um produtor de clássicos instantâneos e ao trocar o curso de Arquitetura transformou-se um construtor com as melhores composições populares brasileiras,. É o que se pode chamar de o Compositor do Brasil. Se por um lado era comparado com Noel, por outro rompeu todas as barreiras, compôs em todos os ritmos e até em outras línguas. Gênio estendeu sua obra para o teatro e para a literatura. Completa neste mês 60 anos como um porta maior de obras sempre muito aguardadas. Unanimidade? Talvez, mas com certeza a melhor cara do Brasil.

 

 

E depois vem a história da Bahia. Ai se eu escutasse o que mamãe dizia...a gente faz o que o coração dita e decreta -

 

 

DORIVAL CAYMMI – 90 ANOS DE BRASILIDADE

 

 

Dorival Caymmi nasceu em Salvador, Bahia, em 30 de Abril de 1914. É tudo o que precisamos saber. Depois é só ouvir as canções e se transportar. Este é o único inconteste, ao lado de Caribe e Jorge Amado. Por certo que a Bahia são várias bahias de ritmos densos e tambores vibrantes. Bahia é Gil,

Caetano, Bethânia, Gal, e ainda uma montueira de trios elétricos, artistinhas chacoalhantes, axés e ...”muita bomba!” Mastem coisa boa muito embora

alguns críticos perguntam se no baticum Bahia pode virar Jamaica. Goli Guerreiro em seu livro “Trama dos Tambores – Amúsica afro-pop de Salvador “ (editora 34) esclarece essas nossas dúvidas em uma pesquisa que não deixou couro sobre couro e passou de beco em beco. Por isso mesmo Caymmi reina absoluta, e melhor, nos deu Nana, Dori e Danilo. Quer mais?

 

 

Dorival está sendo festejado pelos seus 90 anos...nem parece. Está ali a face calma, a voz potente. Compositor que nos deu Acalanto;Coqueiro de Itapoá; Dora; Samba da Minha Terra; São Salvador; Saudade da Bahia; Saudades de Itapoã; Só Louco; Você Já Foi à Bahia?; Você Não Sabe Amar; tantas que nem dá para escolher.

 

 

Mais uma vez o acaso parece ser o padrinho das artes no Brasil. Em Salvador trabalhou em muitos empregos antes de tentar a sorte como cantor de rádio, e como compositor ganhou um concurso de músicas de carnaval em 1936. Dois anos mais tarde foi para o Rio de Janeiro com o objetivo de realizar o curso preparatório de Direito e talvez arranjar um emprego como jornalista, profissão que já havia exercido em Salvador. Porém , e sempre tem um porém, incentivado pelos amigos, muda de idéia e resolve enveredar para a música. E lá ficou.

 

 

Teve sua música "O Que É Que a Baiana Tem" incluída no filme "Banana da Terra", estrelado por Carmen Miranda e nasceu o sucesso. Logo após sua música "O Mar" foi colocada em um espetáculo promovido pela então primeira-dama Darcy Vargas. Seu prestígio foi se ampliando, passando a fazer parte do cast da Rádio Nacional, local onde conheceu a cantora Stella Maris, com quem se casou em 1940 e permanece casado até hoje.

 

 

Sobre Caymmi Jorge Amado escreveu – “ Sua obra de compositor é das mais importantes do Brasil, sua canção lírica e dramática transpôs as fronteiras e as limitações de nosso subdesenvolvimento para se fazer uma afirmação universal de nossa cultura, de nossa originalidade. Sua influência sobre toda a música moderna brasileira é mais do que evidente, e não só nos termos da chamada música popular: em sua incomensurável riqueza vêm todos beber e aprender. Um baiano cheio de ternura, de amor ao povo e à vida, cordial e simples, glorioso e

modesto, feito de picardia e dengue, um brasileiro de sucesso mundial, Dorival Caymmi”.

 

 

Ainda no livro de sua neta Stella Caymmi “ Dorival Caymmi – O mar e o tempo” (editora 34) uma maçuda mas deliciosa biografia ficamos sabendo que conversar com Caymmi é uma arte. “E quando isso acontece exige sua total atenção. É datalhista. Cinematrográfico. Pinta o cenário antes de desencadear a ação no imaginário do seu interlocutor.” È algo como as suas músicas, uma pintura, clara brilhante. Triste ou alegre com detalhes de fundo e cores vibrantes em cada compasso.

 

 

Dorival é o responsável em grande parte pela imagem que a Bahia tem hoje em dia, e com seu estilo inimitável de cantar e com composições de construção melódica impar influenciou várias gerações de músicos brasileiros.

 

 

E tinha aquela coisa do Rio de Janeiro, a capital federal que era também a capital cultural do Brasil, onde todos iam se chegando e acariocavam-se...os mineiros principalmente!

 

 

 

NOEL ROSA

 

 

Dizem que a cara do Rio de Janeiro é o Carnaval, ou melhor o samba, ou talves a marchinha, por certo isso antes da bossa-nova que é também é samba...ou não é? O samba de raiz chegou aos tempos da eletrônica. É sucesso na favelo e no Favela Chic. Se o samba tem origem afro, chega da Bahia, é no Rio de Janeiro que se institucionaliza. E depois se populariza na obra em branco de Noel Rosa. O poeta da Vila (o bairro Vila Isabel para os puristas é a cara do Rio de Janeiro. Não só pelos seus componentes críticos e urbanos , mas como crônicas de uma cidade mais cordial.

 

 

Noel de Medeiros Rosa, cantor, compositor, bandolinista e violonista. Nasceu(11/12/1910) e morreu (04/05/1937) no Rio de Janeiro, RJ. Tivesse vivido mais deixaria com certeza uma obra extensa e tão rica como os sambas que o eternizaram. Noel em 1929, compôs as suas primeiras músicas, dentre elas a emb

olada Minha viola e a toada Festa no céu. Em 1930, conheceu seu primeiro grande sucesso Com que roupa. Em 1931 entrou para a faculdade de Medicina, sem, no entanto, abandonar o violão e a boemia. O samba falou mais alto pois largou o curso meses depois.

 

 

Sobre ele Tárik de Souza escreveu “Gênio (e profeta) da raça , sambista também cultor da ‘Rumba da Meia Noite’ ao rock da época, o fox-trot (‘Julieta’), Noel que viveu num Rio de Janeiro ainda bucólico, onde o despertador podiaser o guarda civil (que o salário atrasado), previu até o fim da malandragem cordial. E prenunciou a guerra civil não declarada: ‘No século do passado/ o revolver teve ingresso/ para acabar com a valentia’ (‘O Século do progresso’ 1934)”.

 

 

Cantou um Rio urbano depois devastado por espigões e selvagerias tantas que nem o maestro Antonio Carlos Jobim pode suportar.

 

 

 

TOM JOBIM E VINICIUS DE MORAES

 

 

Parceiros e apaixonados pela cidade do Rio de Janeiro o maestro e o poetinha são a cara de um Rio mais recente. Um Rio que deixa de ser capital federal e passa a ser orgulho do Brasil , nossa maior divisa turística, beleza esta ainda sobrevivente a tantos desmandos e a essa guerra anunciada. A biografia dos dois se confunde e passa a construir uma nova memória musical da cidade.

 

 

Nasce, em meio a forte temporal, na madrugada de 19 de outubro de 1913 , no antigo nº 114 da rua Lopes Quintas, na Gávea,Rio de Janeiro. Em 1928 compõe, com os irmãos Tapajoz,

"Loura ou morena" e "Canção da noite", músicas de muito sucesso. O poeta produz muitas obras e em 1954 sai a sua primeira edição de sua Antologia Poética. É 1956, e a partir desse ano começam os "caminhos cruzados". Convida Antônio Carlos Jobim para fazer a música do espetáculo, iniciando com ele a parceria que, logo depois, com a inclusão do cantor e violonista João Gilberto, daria início ao movimento de renovação da música popular brasileira que se convencionou chamar de bossa nova.

 

 

Anos mais tarde, em 1962, na mesma época que começa a compor com Baden Powell . Em agosto, faz seu primeiro show, de grande sucesso, com Antônio Carlos Jobim e João Gilberto, na boate AuBom Gourmet, que daria início aos chamados pocket-shows, e onde foram lançados pela primeira vez grandes sucessos internacionais como "Garota de Ipanema" e o "Samba da bênção"Faz ainda um Show com Carlos Lyra,na mesma boate, o Pobre menina rica onde é lançada a cantora Nara Leão.No mesmo ano compõe com Ari Barroso as últimas canções do grande compositor popular, entre as quais "Rancho das namoradas".

 

 

Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim nasceu às onze e quinze da noite de uma terça-feira, 25 de janeiro, de 1927,. Dizem que chovia muito nesse de seu nascimento na casados pais rua Conde de Bonfim, no bairro carioca da Tijuca. No Villariño onde se formara a dupla Tom & Vinícius, em 1958, outro encontro histórico acontece, envolvendo a dupla e Elizeth Cardoso. Daquela vez o padrinho foi Irineu Garcia, idealizador do selo Festa. Tom Jobim erasem duvida, o melhor de todos os novos compositores brasileiros.

 

 

É dessa época a sua “Sinfonia do Rio de Janeiro” uma composição sua com Billy Blanco. A composição buscava desenvolver a idéia musical da montanha, o sol e o mar. O disco foi lançado em 20 de janeiro de 1960. Braguinha (João de Barro), então na gravadora Continental escreveria “Rio de Janeiro...a montanha, o sol, o mar....principalmente o mar, este mar boêmio que canta para embalar as praias claras. E este sol que passeia no azul e ardentemente beija a mais bela mulher do pais! E a montanha do Cristo Redentor de braços abertos para a cidade e para quem vem de longe...Este disco maravilhoso...vai encontrar um Rio um pouco mais agitado,um pouco menos boêmio, mas que, felizmente, conserva ainda, a montanha, o sol, o mar...”

 

 

Como a primeira sinfonia, dedicada ao Rio de Janeiro, também foi encomendada outra — no caso, pelo pianista Bené Nunes, a pedido do presidente Juscelino Kubitschek, que sonhava com um poema sinfônico em homenagem a Brasília, a nova capital do país, inaugurada em 21 de abril de 1961. Acompanhado de Vinícius, que se incumbiria de escrever o recitativo da sinfonia, Tom viajou até o Planalto Central. Consta que da viagem voltou com os cinco movimentos de “Brasília, Sinfonia da Alvorada” na cabeça. Talvez os dois hoje não compusessem outra com tal empenho.

 

 

Vinicius é operado a 17 de abril de 1980, para a instalação de um dreno cerebral. E veio a falecer na manhã de 9 de julho, de edema pulmonar, em sua casa, na Gávea, em companhia de Toquinho e de sua última mulher. Desaparecido ficaram os originais de Roteiro lírico e sentimental da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

 

 

Em 15 de setembro de 1994, três dias após Tom Jobimgravar sua parte de um dueto com Frank Sinatra, viajou até Nova York para submeter-se a uma angioplastia. Num dos vários exames a que Tom se submeteu, detectaram um tumor maligno em sua bexiga—e uma cirurgia foi marcada para o dia 6 de dezembro, no Mount Sinai Medical Center. No dia 8teve uma parada cardíaca, às 8h. A segunda, duas horas depois, lhe seria fatal. Seu corpo desembarcou no Rio no dia 9 de dezembro.

 

 

A paixão dos dois pelo Rio de Janeiro, são um exemplo do amor pela beleza em proveito da arte, no caso a música e poesia. Não dá para dissociar a imagem dos dois de São Sebastião do Rio de Janeiro.

 

 
 
 

E TODAS AS OUTRAS CARAS

 


 

Mineiro é gregário? Pelo sim pelo não temos o Clube da esquina! E nada mais representativo que Milton Nascimento e seus amigos para Minas Gerais. “Noite chegou outra vez, de novo na esquina os homens estão ... “ (Lô / Márcio Borges / M. Nascimento)". Em um inspirado texto o mineiro Tete Monti em seu siteda web escreveria – “ o carioca criado em Três Pontas Milton Nascimento, o Bituca, foi ganhar a vida. E foi nesse arraial chamado Belo Horizonte que Bituca conheceu a família Borges. No "quarto dos homens" da casa dos Borges, surgiu um estilo musical universal. (...) Bituca e Márcio Borges iam conhecendo gigantes da música como Wagner Tiso. Enquanto os garotos Lô Borges e Beto Guedes devoravam discos dos Beatles, Milton encontrava Fernando Brant e "Travessia" mostrava ao Brasil com que voz Deus cantaria, se cantasse.

 

 

Para entender que cara de Minas é essa, que não é só uma mas são muitas , a formação de “agrupamento” musical se deu com a soma do carioca Milton ao mineiro de Montes Claros, Beto Guedes que mais se destacou comercialmente, juntamente com Milton e Flávio Venturini. Já Toninho Horta é um dos maiores e melhores guitarristas do mundo e tocou em muitos discos de Milton Nascimento. Tavinho Moura mineiro de Juiz de Fora é, como Toninho Horta, um mestre da harmonia. Com uma forte influência religiosa é autor de "Paixão e Fé", incluída do álbum Clube da Esquina 2. Com Milton Nascimento, Tavinho fez o álbum Missa dos Quilombos e Sentinela. E mais os músicos do Clube da Esquina tem Wagner Tiso, maestro e arranjador. Tiso fez parte da banda Som Imaginário ao lado de Luiz Guedes, Fredera, Tavito, Zé Rodrix e Robertinho. O Som Imaginário lançou a música "Feira Moderna", dos até então desconhecidos Lô Borges e Beto Guedes no Festival Internacional da Canção. Deu para entender ?

 

 

Mas temos muitas outras caras e sons. Nos pampas além de Teixeirinha com os seus churrascos vinham umas Almôndegas...formados por Kleiton e Kledir Ramil, que nos anos oitenta, junto com Raul Elwanger deram a nota para as coisas do sul. Parelamente as tradições foram mantidas por grupos folclóricos e seus galpões. Artistas populares como Gaúcho da Fronteiro mantiveram acesa a chama que nos idos sessenta era garantida pelo Conjunto Farroupilha do qual Rolando Boldrin fazia parte.

 

 

Do Pantanal as boas novas e o resgate da verdadeira identidade cultural vieram através de Almir Sater que dividiu sua chalana com o ex-jovem guarda Sergio Reis.

 

 

Do Ceará, o óbvio Pessoal do Ceará com Rodger, Rogério e Teti, e ainda Ednardo, Belchior, Raimundo Fagner. Da Paraíba, Elba Ramalho, Zé Ramalho e a afinadíssima Amelinha. Do Piauí Jorge Mello. Do Pará, a agora aportada em Portugal Fafá de Belém e o grande compositor Paulo André Barata. E do Maranhão a sambista de swingue carioca e pitadas de carimbó Alcione e os novos talentos como Zeca Baleiro. Da grande Amazônia a força do canto índio de Marlui Miranda.

 

 

E por certo estamos deixando de falar muitos estados e das muitas facetas culturais e sons espalhados dentro deste incrível caldeirão cultural. A música rompe fronteiras, dizem que acalmam as feras, dizem que podem unir povos.

 

 

 

Pois bem, fiquemos então com o poeta piauiense...

 

 

"(...) Minha terra tem palmeiras de babaçu onde canta o buriti/e a melhor água do mundo/e um poço/e um menino/como posso agora cantar minha terra/estando tão longe-perto dela/como posso eu e essa miséria louca/descobrir destruir as ruínas de lar"
Todos cantam sua terra, também vou cantar a minha, Torquato Neto

 

 

 

Eduardo Cruz

 

Jornalista
publicado por o editor às 12:33
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Segunda-feira, 21 de Julho de 2008

Ensaio - Romance Histórico

“Foi numa noite de gala, aniversário do príncipe regente, que D. Pedro viu no palco, pela primeira vez, a bailarina entontecedora. Era uma francesinha de matar.”
Paulo Setúbal in As Maluquices do Imperador


ROMANCE HISTÓRICO
QUANDO A VERDADE SE CONFUNDE COM A FICÇÃO

Costumamos pensar que o romance histórico é uma típica narrativa dos que se socorrem dos fatos para dar asas a seus floreios ficcionais. Talvez pudesse ser verdade, não fosse o empenho de grandes autores em procurar aproximar as informações históricas, muitas vezes maçantes, bordadas de datas e acrescida de pinduricalhos, como notas de rodapé do grande público. Não fosse assim, poucos teriam a oportunidade de entender melhor a história de seus países. O romance histórico também é um fenômeno pop, uma vez que é a base para muitas das adaptações de sucesso para o cinema e a televisão. Muitos ousam demais e “romanceiam”, glamourizando personagens muito mais desinteressantes. De uma forma ou outra, realmente fica difícil para qualquer um de nós saber o diálogo ocorrido, nessa ou naquela alcova, ou ainda o último suspiro de um bravo herói (isso se ele realmente foi um herói).

Mas o romance histórico para nossos teóricos, tem origens muito claras e certificação de legitimidade nos compêndios de teoria literária. No Brasil, podemos dizer que o romance urbano é a prosa romântica que inaugura a publicação do romance de ficção. Sua característica principal é levar ao leitor os costumes sócio-culturais da sociedade. Por condição cultural para nós ele retrata, em especial, a sociedade carioca da primeira metade do século XIX. No seu ‘verbete’ de prosa o romance indianista se faz presente, juntamente com o romance regionalista ou rural. Porém nosso alvo é o romance histórico em si mesmo, que seguiu da mesma forma a linha de valorização nacional. “O romance histórico relata episódios históricos ocorridos no Brasil desde o inicio da sua valorização.” E quais seriam os seus maiores exemplos? Aqueles que cairiam em qualquer vestibular – os de José de Alencar : "A guerra dos Mascates"; "Minas de Prata" e o "O garatuja".

Se pensarmos que o romance histórico é a prosa narrativa ficcional cuja ação decorre no passado, essa literatura cuja ação decorre no passado histórico, ao nosso ver, sempre foi abundante. Porém cabe a muitos teóricos a sacralização de Walter Scott como o iniciador da tradição moderna que situa esse tipo de romance, que pode ser de amor, em um passado que tem como base fatos reconhecidos. Nossos patrícios portugueses acreditam que “o uso que este autor fez dos pormenores históricos e as subseqüentes imitações que escritores europeus desenvolveram da sua técnica, levaram a que o gênero prosperasse.”

Os romances passam da ação ao envolvimento romântico sem deixar de ter as inserções históricas que registram fatos, datas e locais. E assim, dessa forma, temos o gênero utilizado por Alessandro Manzoni, Victor Hugo, Charles Dickens, James Fenimore Cooper e, em Portugal - Alexandre Herculano, nosso mais destacado autor seguido por Almeida Garrett. Já no século XX, ainda em Portugal, temos outros destacados autores que se dedicam ao romance histórico e é importante citar, Carlos Malheiro Dias, Fernando Campos, Seomara da Veiga Ferreira, João Aguiar, Mário de Carvalho, e mais recentemente, alguns romances de José Saramago, com o mesmo tratamento.

ENTENDENDO O PROCESSO

Segundo Heloísa Costa Milton, o romance histórico é leitor singular dos signos da história. A história, como discurso, pré-existe ao romance histórico e os signos da história são retomados pelo romance histórico para multiplicar seus significados. Ele “recupera os signos da história do universo da afirmação científica para o espaço da existência humana, onde foram motivados e onde são recarregados da ambigüidade original.” Vera Follain de Figueiredo (Doutora em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Professora Adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, Professora de Literatura Brasileira da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) escreveu um estudo interessante, onde faz uma reflexão sobre o romance histórico contemporâneo no Brasil e na América Hispânica, partindo das origens no século XIX europeu, para traçar a trajetória do subgênero na América Latina. Para ela, o romance histórico surge no século passado, numa atmosfera em que uma série de transformações sociais, políticas e econômicas ocorridas na Europa, fazem com que o homem comum, as massas populares se sintam num processo ininterrupto de mudanças com conseqüências diretas sobre a vida de cada indivíduo. “Na América Latina, o século XIX também foi marcado pelo surgimento de uma literatura de fundação, de narrativas que buscavam inventar uma tradição (...) A visão de história que importávamos do Ocidente europeu criava impasses para a compreensão da realidade das nações recém-independentes.
A ilusão de uma tradição contínua entrava em choque com as experiências vividas num passado relativamente recente”. Dessa forma ela inclui de José de Alencar (sempre ele) as obras Iracema e O Guarani que, segundo a autora, refletem esse impasse. De um modo geral, “seguindo os procedimentos de toda literatura de fundação da nacionalidade, inclusive a européia, a narrativa romântica latino-americana, procurando elipsar os traumas da conquista ibérica e criar imagens que nos aproximassem do modelo de civilização européia, teve de trabalhar mais com o esquecimento do que com a memória para transcender a diversidade que nos constitui, visando nos emprestar uma face homogênea”.

Mario Miguel González (Professor Titular de Literatura Espanhola da Universidade de São Paulo; Graduado em Letras na Universidad Católica de Córdoba) nos escreve em seu ensaio O romance que lê as leituras da história, que as relações entre a literatura e a história foram sempre “ muito importantes e, ao mesmo tempo, bastante pacíficas”. Acredita que as oposições conflitivas entre ambos os fenômenos decorrem, antes de mais nada, de “polarizações nascidas, talvez, de perspectivas decorrentes de vícios profissionais”. Se bem escreve quem bem descreve, a atitude do leitor perante ambos os textos - historiográfico e literário - será diferente. Continua Miguel Gonzáles “o leitor do texto historiográfico estará à procura do sentido único pretendido pelo historiador, ou seja, daquilo que, para este, é a verdade dos fatos. Já o leitor do texto literário terá um papel muito mais complexo, pois deverá construir "seu" texto, escolhendo um (ou alguns) dentre os múltiplos sentidos que o texto literário pode apresentar.” Em seu saber explica que a ficção narrativa em prosa levou muito tempo até atingir o status de gênero literário, como salienta Antonio Candido no seu ensaio "Timidez do romance" (CANDIDO, 1989, p.82-99). Isso acontece “pelo fato de não ter tido o romance um precedente consagrado entre os gêneros clássicos, como a poesia lírica, a poesia épica, a tragédia ou a comédia”. O precedente do romance está principalmente, na falsificação da história. Geoffrey de Monmouth, em sua Historia Regum Britanniae, da primeira metade do século XI, “é dos primeiros a realizar essa falsificação quando, utilizando um nome do passado bretão, Artur, faz deste uma personagem, a figura protagônica de uma história falsa que, ancorada na mitologia, substitui a épica e se espalha pela Europa. A chamada "matéria de Bretanha" permite que cada escritor vá acrescentando sua invenção, até que acaba sendo construído, séculos depois, o universo fantástico das novelas de cavalaria ibéricas.”

Mário Maestri, Doutor em história pela Université Catholique de Louvain, Bélgica, e professor do Programa de Pós-Graduação em História da UPF em seu ensaio História e romance histórico: fronteiras, levanta uma interessante questão - de que através de recursos artísticos, “e eventualmente, sem penetrar a essência do passado, a ficção de cunho histórico sugeriria, errônea e perigosamente, a possibilidade da literatura substituir a história. A má vontade da historiografia com o romance histórico deve-se também a compreensível despeito. A narrativa ficcional possui abrangência de público e sobrevida temporal dificilmente alcançada pela historiografia, contribuindo, devido às características assinaladas, mais do que a última para a formação das representações de uma comunidade sobre o passado.” Cita então os dois volumes do romance histórico O continente, de Érico Veríssimo, sobre as origens do Rio Grande do Sul, que venderam, de 1949 a 1972, aproximadamente 100 mil exemplares, tiragem jamais sequer aproximada por trabalhos historiográficos sobre o tema. O jornalista Luiz Carlos Merten em artigo sobre Veríssimo (Os 50 anos do maior romance histórico já escrito no Brasil ) nos apresenta as opiniões de Flávio Loureiro Chaves que relembrava , “se o primeiro volume de O Tempo e o Vento apareceu em 1949, Érico desde os anos 30 acalentava o projeto grandioso de contar uma saga do Rio Grande. Mas ele não tem certeza de que a trilogia nasceu metalingüística, um livro sobre um livro que está sendo escrito, verdadeiro jogo de espelhos, ou se adquiriu esse formato durante o processo. Seja como for, a primeira frase de O Continente é também a última de O Arquipélago, o volume final da trilogia, quando Floriano Cambará, o alter ego de Érico, senta-se e escreve: "Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado." Érico Veríssimo fundou um padrão para o romance histórico contemporâneo e não apenas brasileiro. São 2 mil páginas que resgatam o passado do Rio Grande do Sul e o fazem refluir à memória, abrangendo mais de 200 anos numa extensa reflexão sobre a identidade brasileira.

"Embora esteja ancorado na História e faça a crônica de seus episódios, o romance não pode ser discurso histórico, sob pena de deixar de ser literatura", diz Chaves. E precisamente porque não bastam os manuais escolares e os compêndios de exaltação cívica, os autores recorrem ao universo imaginário da ficção. A de Érico estrutura-se, do começo ao fim, na dependência dos arquétipos de tipos essenciais e opostos entre si, representando o masculino e o feminino, conclui Merten.

UM POUCO MAIS DE BRASILIDADE

O reinventor do personagem Dom Pedro I foi, sem dúvida, Paulo Setúbal. P. S. de Oliveira, advogado, jornalista, ensaísta, poeta e romancista, nasceu em Tatuí, SP, em 1o de janeiro de 1893, e faleceu em São Paulo, SP, a 4 de maio de 1937. Órfão de pai aos quatro anos, sua mãe cuidou sozinha de nove filhos pequenos. Sendo assim, colocou-o como interno no colégio do seu Chico Pereira e começou a trabalhar para viver e sustentar os filhos. Transferindo-se com a família para São Paulo, o adolescente Paulo entrou para o Ginásio Nossa Senhora do Carmo, dos irmãos maristas, onde estudou durante seis anos. E foi lá que começou o interesse pela literatura e pela filosofia. Fez o curso de Direito em São Paulo. Ainda freqüentava o segundo ano quando decidiu fazer-se jornalista. Em 1918 inicia a sua principal fase de sua produção literária, que o levaria a ser o escritor mais lido do país destacando-se, especialmente, pelo gênero do romance histórico, com A Marquesa de Santos (1925) e O Príncipe de Nassau (1926). “Sabia como romancear os fatos do passado, tornando-os vivos e agradáveis à leitura. Os sucessivos livros que escreveu sobre o ciclo das bandeiras, a começar com O ouro de Cuiabá (1933) até O sonho das esmeraldas (1935), tinham o sentido social de levantar o orgulho do povo bandeirante na fase pós-Revolução constitucionalista (1932) em São Paulo, trazendo o passado em socorro do presente.” De suas obras destacamos As maluquices do Imperador, contos-históricos (1927); Nos bastidores da história, contos (1928); O ouro de Cuiabá, história (1933); Os irmãos Leme, romance (1933); El-dorado, história (1934); O romance da prata, história (1935). Assim como ele, Raul Pompéia nos legou o delicioso Jóias da Coroa.

Outro que investiu muito em propagar essa nova brasilidade é Francisco Marins, especialmente dedicando seu trabalho ao público juvenil. Nascido em Pratânia (SP), a 23 de novembro de 1922 é descendente de tropeiros e plantadores de café. Formou-se em 1946, pela Faculdade de Direito de São Paulo e, durante o curso jurídico, foi diretor da Revista Arcádia e Presidente da Academia de Letras da mesma. Foram seus contemporâneos na Faculdade, Israel Dias Novaes, Lygia Fagundes Telles, Leonardo Arroyo, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Rubens Teixeira Scavone, Célio Debes, Paulo Bomfim, José Altino Machado. Sua importância no romance histórico brasileiro começa como editor da Melhoramentos, responsável por numerosas coleções e obras fundamentais da cultura brasileira: "Memória Histórica Brasileira", "Ficção Nacional", "Clássicos Imortais" e, ainda, "Verdes Anos", "Obras Célebres", "Colorama", esses últimos no campo da literatura infanto-juvenil. Marins também se debruçou, com dedicação, sobre Os Sertões, obra de Euclides da Cunha e publicou dois títulos que contam a saga e tragédia de Antônio Conselheiro e seus milhares de seguidores - A Aldeia Sagrada e A Guerra de Canudos, ambos pela Ática. Segundo ele, dentro de nosso idéia de romance histórico o trabalho nasceu do seu primeiro contato com Os Sertões – “uma obra volumosa, de texto compacto e tema com poucos atrativos para os adolescentes. No meu caso, ao ter em mãos aos 14 anos o "livrão", deparei-me com os temas intrigantes: "A Terra, o Homem, a Luta". E, de início, esbarrei com a linguagem, com o vocabulário difícil. Saltei para o capítulo final e empolguei-me com a "Luta", páginas de grande emoção e beleza e profundo conteúdo dramático. Assim, se posso aconselhar aos principiantes, iniciem a leitura pela terceira parte, depois retornem ao "Homem" e à "Terra". O tema e a epopéia sertaneja constituem pontos de reflexão e atração permanentes. Sobre eles existe a maior bibliografia jamais escrita no Brasil. Recentemente, o escritor Adelino Brandão reuniu, em volume de 756 páginas, cerca de 10 mil verbetes sobre o tema. Senti que o assunto deveria ser levado aos jovens e escrevi A Aldeia Sagrada para contar o drama canudense não pela ótica dos soldados que atacaram o arraial, mas conduzindo a narrativa de dentro para fora, isto é, os defensores tentando resistir aos atacantes. E, sem que eu previsse, A Aldeia Sagrada e também o outro livro que escrevi, A Guerra de Canudos, tornaram-se leituras introdutórias para os estudantes e jovens leitores, a despertar-lhes o interesse pelo grande livro”, completa ele. Sobre o mesmo tema Mario Vargas Llosa nos deu A Guerra do Fim do Mundo (editora Francisco Alves); Moacir Scliar , O Sertão Vai Virar Mar (editora Ática), e O rei dos Jagunços, a crônica histórica sobre os acontecimentos de Canudos em uma edição documentada e comentada por Manoel Benício em edição conjunta do Jornal do Commercio e Fundação Getúlio Vargas.

AS MULHERES DÃO SEU RECADO

O romance histórico não é uma seara tão somente masculina, e por isso mesmo, no Brasil, nossas escritoras transformaram seus títulos em grandes sucessos de vendagem e também de mídia eletrônica. A exemplo de sucessos como o fenômeno de vendagem “au reverse” como o do livro norte-americano E o vento levou... de Margareth Mitchell, o Brasil criou novos sucessos de vendagem como o de A casa das sete mulheres de autoria de Letícia Wierzchowski. A jovem escritora portoalegrense, começou a escrever aos 25 quando abandonou a Faculdade de Arquitetura. Se o romance de Mitchell tinha como pano de fundo uma guerra onde no livro se destacam as personagens femininas, no livro de Letícia o cenário foi a Guerra dos Farrapos, a mais longa guerra civil do continente. A história é recontada pela ótica da solidão e da força feminina.

Outro sucesso de mídia eletrônica que reviveu um sucesso editorial foi A Muralha, de Dinah Silveira de Queiroz. Além de novela de tevê nos idos anos 60, o livro percebe um boom de vendagem com o seu lançamento como mini-série televisiva e posteriormente, no formato de DVD. A muralha narra a bravura, a violência, as paixões e intrigas dos primeiros desbravadores do Brasil. Os costumes coloniais são desnudados e os personagens fortes são homens, mas também as mulheres como Isabel, Mãe Cândida e Margarida. Na visão de José Lins do Rego, no livro de Dinah “ as figuras humanas crescem de vulto e assumem a importância de absorventes estados de alma. Aí o livro vence e se expande como força de criação autêntica”. Por outro lado a rudeza dos paulistas foi poucas vezes tão bem retratada, mostrando o outro lado da figura mítica dos bandeirantes.

Outra autora que focalizou o mundo e o submundo do Rio de Janeiro e Minas Gerais, o inicio do ciclo do ouro e a guerra dos Emboabas, foi Ana Miranda. A escritora cearense que já nos tinha brindado com Boca do Inferno (Cia das Letras), nos entregou o inquietante O Retrato do Rei (Cia das Letras) e recentemente Desmundo (Cia das Letras), um romance que se inicia em 1555 com a chegada ao Brasil de uma leva de órfãs mandadas pela Rainha de Portugal para se casarem com os cristãos que aqui habitavam.

Outra saga muito bem retratada com os inquietantes referenciais históricos é o da vinda ao Brasil de Bento Teixeira, que saído dos cárceres da inquisição em Lisboa, aporta no Brasil como cristão novo e se casa com a cristã-velha Filipa Rosa. Essa história do século XVI é contada em Os Rios Turvos , de autoria de nossa companheira de Suplemento Cultural, a pernambucana Luzilá Gonçalves Ferreira, professora da Universidade Federal de Pernambuco.


“Não fosse o golpe do Chile, o terror e o exílio, eu talvez ainda estivesse escrevendo frivolidades em jornais de moda” escreveu Isabel Allende. A escritora latino-americana mais lida do mundo, é com sua história de vida repleta de grandes acontecimentos, que acabaram por gerar conteúdos históricos em seus romances - o golpe militar chileno em 1973 e a morte da filha, Paula, em 1992. "Eu não confio mais no amanhã. Na minha cabeça, tudo pode estar perdido em um minuto", declara. Os mortos e os espíritos são um tema importante nos seus romances, como A Casa dos Espíritos e De Amor e de Sombras (Bertrand Brasil) este último o grande exemplo de romance de história contemporânea .

CONTANDO E SENDO PROTAGONISTA

Muitas vezes não temos o devido distanciamento do fato romanceado. Sem dúvida os três volumes de Subterrâneos da Liberdade de Jorge Amado (quer será relançado pela Cia das Letras) é uma obra emocionada, mas com certeza foram fruto de vivências e tradição oral muito próximas. Um quase romance reportagem. Talvez pudéssemos falar o mesmo de Agosto, de Ruben Fonseca. Esse exemplo brasileiro e bastante contemporâneo acaba por refletir outros exemplos históricos.
Consta que Emile Zola para escrever Le ventre de Paris e Nana, percorreu os bairros da capital francesa, entrevistando peixeiros, comerciantes, prostitutas, gigolôs e marafonas, no que podemos considerar uma verdadeira investigação sociológica. Porém preferimos considerar como romance histórico o seu Germinal.

Para Charles Dickens (nascido em Landport, Portsmouth, 1812) o trabalho de repórter lhe dava condição de circular em meio à aristocracia londrina. É a partir desse contato que Dickens passou a publicar, crônicas humorísticas sob o pseudônimo de Boz. Depois, em forma de folhetim, publicou os capítulos de seu romance "As Aventuras do Sr. Pickwick". Como Zola, Dickens denuncia freqüentemente o poder político e os ricos vaidosos e especuladores. Nele o pensamento idealista e o romance sentimental unem-se para comover a sensibilidade do leitor e despertar a sua consciência moral. Torna-se um mestre das narrativas protagonizadas por crianças como em David Copperfield, Tempos Difíceis ou Oliver Twist e garante sua condição de cronista de toda uma época. Mas em "História de Duas Cidades" (1859) e "Grandes Esperanças" (1861) que identificamos a sua melhor compreensão da história. Nos últimos anos de sua vida iniciou o livro "O Mistério de Erwin Drood", cujo desfecho permaneceria desconhecido: Dickens morreu em 9 de julho de 1870, antes de concluí-lo.

Como Mário Maestri escreve socorrendo-se de Luckács “Quando atinge nível artístico, o romance histórico é percebido como animação do passado. Heine afirmava que os romances de Walter Scott reproduzem muitas vezes o espírito da história inglesa mais fielmente do que Hume.” E o que poderíamos contestar, a tal distância , de um romance como Ivanhoé de Sir Walter Scott (relançado pela editora Madras). Uma saga do cavaleiro negro, dos templários e as lembranças das Cruzadas embaladas pelas crônicas arturianas nós dá todo o direito, por exemplo, de aceitar como romance histórico a saga de quatro volumes de As brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley, porém o lícito seria indica-la por sua obra O Incêndio de Tróia (editora Imago). Se cometeu uma visão feminista da história, por outro lado, com imaginação, nos deu explicações factíveis para várias lacunas.

Eleanor Alice Burford Hibbert nasceu em 1906 e anos mais tarde, transformou-se em uma das mais prolíficas escritoras de romances históricos e a quem conhecemos como Jean Plaidy. Sua saga de 14 volumes sobre Os Plantagenetas pode ser considerada definitiva. Chegando até a época dos Tudors, a autora decidiu enveredar em outras fronteiras, e com afinco britânico, entrou pela Revolução Francesa. Já saíram no Brasil Luíz, o Bem Amado e A Estrada para Compiègne , que pretende de forma romanceada dirimir qualquer dúvida sobre aqueles conturbados anos.

O certo é que todos os bons escritores podem se enveredar pela seara do romance histórico. Um exemplo é Manuel Vázquez Montalbán, o pai de um dos mais populares detetives espanhóis da ficção e que nos deu o genial Ou César ou nada , uma “novela” decididamente histórica. Uma tarefa sem dúvida muito mais difícil e complexa que seus mistérios por se tratar da narração das intrigas de uma Roma renascentista, dominada pela família valenciana dos Borgia. Os personagens que protagonizam a historia são complexos heróis que já conhecíamos através da historia, a literatura e a arte.

Já a tarefa de Christian Jacq, que nasceu em Paris, em 1947 nos parece mais simples. Egiptólogo renomado, doutor em Estudos Egípcios pela Sorbonne, em 1995, lançou a Série Ramsés em cinco volumes, que o consagrou definitivamente na carreira literária. Esta série já vendeu mais de 12 milhões de exemplares em 29 países de todo o mundo. No Brasil, destacamos A Rainha Sol (Bertrand Brasil), que conta o período em que na cidade do Sol chega ao fim junto com o reinado de Akhenaton e Nefertiti. O Egito, berço das civilizações, surge repentinamente à beira do drama e do desmembramento. Guerra civil, lutas pela sucessão ao trono, e Akhesa, a terceira filha do casal real sonha com o poder como uma verdadeira herdeira de Nefertiti.

Outro interessante lançamento é Sócrates e Xantipa de Gerald Messadié, autor da série Moisés. Desta vez ele escolheu a Atenas dos séculos V e IV a.C., como lugar da ação de Sócrates e Xantipa: Um Crime em Atenas (Bertrand Brasil) onde Xantipa, a esposa de Sócrates, conhecida por sua personalidade forte e por ter sido uma das megeras da História, encarna o papel do detetive à procura do assassino. O escritor retrata a era de ouro da democracia e das artes atenienses, marcada, porém, por escândalos e espionagem.

Mika Waltari é um finlandês que se notabilizou por seus romances históricos. O Egipcio é, sem dúvida, seu maior sucesso, e conta a história do reinado do faraó Akhenaton se desenvolvendo no período de 1390 - 1335 AC. Porém, seu romance melhor construído é O Segredo do Reino que narra com acuidade histórica o período do nascimento e morte de Jesus Cristo.

Outra leitura interessante é Shogun, de James Clavell. Nascido em Sidney em 1924, Austrália Clavell se notabilizou por seus romances que envolvem a história do oriente, em especial o Japão. Em Shogun temos um retrato do Japão feudal e o processo da construção do estado-nação com as diferenças comportamentais no século XVII entre japoneses e europeus.

Complementando nossas indicações sobre os romances históricos precisamos não esquecer de escritores dedicados como Nagib Mahfuz, que nasceu no Cairo em 1911. Formado em Filosofia, trabalhou como funcionário público até se aposentar, aos 60 anos. Laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1988, foi jurado de morte por extremistas islâmicos, no ano seguinte. Em 1994 sofreu um atentado no Cairo, onde vive. Suas obras Noites de mil e uma noites; Entre dois palácios, A Batalha de Tebas e O jardim do passado foram publicadas no Brasil. A intenção de Mahfuz era cobrir toda a história egípcia, desde os tempos faraônicos até a invasão inglesa, no século XIX. Entretanto, no decorrer da terceira novela - Kifah Tibah, de 1944 - Mahfuz voltou o foco de seu interesse para o presente e se dedicou a escrever romances com temas sociais, ao mesmo tempo em que redigia vários roteiros para a indústria cinematográfica de seu país.



Como nem sempre tudo é tão obviamente histórico. Crônica de indomáveis delírios (Rocco) do historiador e romancista Joel Rufino nos conta que “durante a Revolução Pernambucana de 1817, a facção “francesa” acalentou um sonho: trazer Napoleão – a Águia -, então prisioneiro dos ingleses, para comandar seu exército. Esse movimento era um típico caso de ‘idéias fora de lugar’”. Pois bem, Napoleão veio e radicaliza as contradições. “Para ele só a Abolição e a incorporação dos quilombos tornariam invencível a empreitada democrática...” E por fim, como um dos personagens do livro diria – “Sabe Roldão, em que consiste a Suprema Alegria? Estar vivo para ler Diderot”.

Por
Eduardo Cruz
publicado por o editor às 20:15
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Quarta-feira, 11 de Junho de 2008

ESPECIAL JORGE LUIS BORGES


Estamos abrindo um novo link especial no Suplemento
confira em

publicado por o editor às 22:12
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Quarta-feira, 28 de Maio de 2008

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LUZ, CRIANÇAS, AÇÃO!

O cinema e a infância

Nesta edição do Suplemento Cultural nosso ensaio vai falar de cinema, ou melhor, das crianças no cinema. Frente a tanta violência contra nossas crianças e adolescentes que martelaram nossas mentes nesse último mês vale lembrar que nem sempre a ficção é mais cruel que a realidade.

 

Mas deixemos as páginas criminais e toda a indescritível doentia que a envolve. Sim, sabemos que criança e adolescente no cinema é verdadeiramente uma tortura, gritam, não param quietas na poltrona, melecam tudo com refrigerante, etc. Mas não é da criança público que iremos falar e sim a que está na telona. E não vamos falar também dos filmes infantis, que estão em busca dos lucros quase pornográficos com produções, elenco e roteiros quase que risíveis. Vamos falar da criança e muitas vezes da infância com personagens principais.
 

 

Vamos a uma idéia - "Francisco, lavrador do interior de Goiás, tem um sonho aparentemente impossível: transformar dois de seus nove filhos numa famosa dupla sertaneja. Morando numa casinha de adobe, em meio ao nada e horas distantes do vilarejo mais próximo, ele não mede esforços neste caminho. Teria chance desse rascunho se transformar em um” blockbuster’?

 

 

Continuando - "deposita sua esperança no primogênito Mirosmar ao dar-lhe um acordeão quando o menino tinha apenas 11 anos. Mirosmar e o irmão Emival que ganhara um violão começam a se apresentar com sucesso nas festas da vila até que, no início da década de 70, às voltas com a perda da propriedade, toda a família se muda para Goiânia e vive um momento de enorme dificuldade”.Um tanto melodramático e se você nem gosta de música sertaneja (como o Nelsinho Mota) esse roteiro é uma tortura.

 

 

Quer um pouco de molho para a choradeira? Pois lá vai - “Para ajudar nas despesas, os meninos tocam na rodoviária (lembra a Central do Brasil?), onde conhecem Miranda, empresário de duplas caipiras, o primeiro empresário da dupla, com quem desaparecem por mais de três meses. Os meninos fazem sucesso e chegam a cantar para 6 mil pessoas no interior do Brasil quando um acidente interrompe dramaticamente a carreira da dupla”.

 

 

Depois desse trecho do filme, e uma caixinha de "Kleenex" você pode desistir, foi fisgado pelo "2 filhos de Francisco" e depois de quase desistir, Mirosmar volta a cantar, vira Zezé di Camargo e grava sem sucesso um disco solo em São Paulo. O resto você já sabe suas músicas são gravadas e fazem sucesso na boca de outras duplas, como Leandro & Leonardo, mas Zezé não se conforma em ser apenas compositor e pensa em desistir e é neste momento que encontra no irmão Welson (Luciano), 11 anos mais novo, o parceiro perfeito para concretizar a profecia de seu pai. Em 1990 Zezé Di Camargo e Luciano gravam e lançam um disco com a música "É o Amor”, composto por Zezé. Com a ajuda do pai, os filhos de Francisco conquistam as rádios e vendem um milhão de discos. O que o filme tem de mais? Além da cantoria as sempre ótimas atuações de Angelo Antonio, Dira Paes e os meninos até a pouco desconhecidos Mirosmar (Zezé Di Camargo) e Welson (Luciano).

 

 

Outro sucesso também tinha como fio condutor à história de vida de um menino. Lembram que Dora é uma camelô de sessenta e poucos anos que luta para sobreviver no Brasil do "real". O mau humor sempre presente e só dobrado com o encontro com Josué que passa a representar para Dora a possibilidade de redenção através da descoberta do afeto e o "rompimento da sua existência viciada e minúscula".

 

 

Aos nove anos, Josué é um menino introvertido e precoce. A ausência do pai deu a ele a obrigação de amadurecer antes da hora e de desenvolver um instinto de proteção em relação à mãe, porém um acidente com a mãe devolve-o por um instante à sua própria idade e perplexo perde a capacidade de reagir. "O instinto de sobrevivência e o desejo de conhecer o pai permitem que ele saia do seu estado de catatonia". Fernanda Montenegro faz Dora que escreve cartas para analfabetos na Central do Brasil. Uma das clientes de Dora é Ana, que vem escrever uma carta com seu filho, Josué interpretado por Vinícius de Oliveira, que sonha encontrar o pai que nunca conheceu. Na saída da estação, Ana é atropelada e Josué fica abandonado. Mesmo a contragosto, Dora acaba acolhendo o menino e envolvendo-se com ele. Termina por levar Josué para o interior do nordeste, à procura do pai. Esse roteiro de Central do Brasil tem a dose certa de melodramaticidade que o brasileiro tanto gosta em seus filmes. Por certo que Central do Brasil é um filme mais cru que "2 Filhos de Francisco" porém mais uma vez a infância pobre e desassistida é o motor da história.

 

 

E se aprofundarmos essa visão crítica, verificamos que outro sucesso recente também tem como arrancada à vida de uma criança. Cidade de Deus, o filme, não existiria sem a personagem Zé Pequeno, digo Dadinho.

 

 

POR OUTRO LADO

 

 

No passado tivemos alguns filmes que mostraram a infância um tanto quanto mais bucólica. "O menino de Engenho", "Meu pé de Laranja Lima" entre outros mostravam um Brasil rude, mas não tão dolorido. Existe espaço para as crianças e natureza no cinema brasileiro. Cássia Borsero que é jornalista e editora do site do Midiativa escreve que cabe "uma reflexão sempre oportuna sobre o que o cinema brasileiro está oferecendo às novas gerações. Não se trata de repisar o conhecido domínio das personalidades da TV - Renato Aragão e Xuxa - como as maiores bilheterias do gênero, sob a batuta da Rede Globo. Existem, é claro, exceção louvável à regra. No entanto, trata-se de buscar uma razão plausível para a inexistência de boas histórias (logo no Brasil, berço de alguns dos melhores escritores infantis do mundo) e para o investimento contínuo na ausência de riscos, ou seja, em produções de retorno garantido e baixa qualidade artística”.

 

 
 

Talvez Tainá seja o melhor exemplo de que é possível fazer um cinema que respeite a inteligência da criança, "sem a dobradinha celebridades infantis-atores globais, e com referências culturais de verdade". Tainá - Uma Aventura na Amazônia nasceu do encanto do produtor Paulo Rovai com as crianças ribeirinhas do Rio Negro, ao gravar o curta "Amazônia Viva - Uma Aventura Mágica", há 15 anos. Ao ver os pequenos brincando livremente com bichos como macaco, papagaio e porco-espinho, Rovai logo pensou em fazer um filme infantil sobre o assunto. Tainá 1 foi lançado em 2000, com direção de Tânia Lamarca e Sérgio Bloch. Atraiu mais de 850 mil espectadores, foi exibido em dez países e ganhou oito prêmios internacionais. A indiazinha foi às telas com a atuação de Eunice Baía. Já Tainá 2 - A Aventura continua segue a mesma linha na luta contra caçadores. Mas, desta vez, a já adolescente Tainá tem como discípula uma indiazinha de 6 anos, Catiti, que a segue pela mata tentando imitá-la como protetora da natureza.

 

 

Na verdade filmes bem realizados com orçamentos menores que besteiras homéricas como o que a Cidade Perdida de Igdrasil. Maria da Graça Meneghel tenta fazer um filme que conta que ha milhares de anos, os vickings teriam viajado pelo Atlântico e subido o rio Amazonas, construindo uma cidade subterrânea para defender um tesouro muito valioso. "E lá vivem eles, felizes e loiríssimos, falando sueco (?!), esperando a volta de uma deusa, que é ninguém menos que a própria Xuxa (?)". Poupemos nossas retinas cansadas com tanta sandice.

 

 

HOJE ELES NÃO SERIAM FEITOS

 

 
 

A infância e pré-adolescência nem sempre são retratadas com doçura e inocência. Muitas cenas e filmes muito provavelmente hoje não seriam rodados. Cenas como a de Xuxa e o menino que mora no bordel em "Amor, estranho amor" estão hoje fora de cogitação. E veja que ela estava contextualizada no roteiro que trazia as lembranças do jovem em sua infância. Talvez sequer "Lição de Amor" soberbamente interpretado por Lílian Lemmertz continuasse nas prateleiras como romance modernista.

 

 

Escândalo por escândalo, o que seria de Lolita o filme de 1962 dirigido por Stanley Kubrick que adapta para as telas o romance de mesmo nome de Vladimir Nabokov. O filme que conta à história da paixão do professor pela pré-adolescente Lolita é tenso e sutil e tinha James Mason como Prof. Humbert Humbert que também é o narrador, Shelley Winters como Charlotte Haze, a mãe e Sue Lyon como a fatal Dolores 'Lolita' Haze.

 

 
 

Prostituição infantil, sedução, sem querer banalizar o uso das parafilias é o tema, por exemplo, de Pretty Baby (Menina Bonita) estrelado por Keith Carradine, Susan Sarandon e Brooke Shields. O diretor Louis Malle enfrentou o tabu social e colocou Brooke Shields então estrelinha de 12 anos na controversa analise da prostituição infantil na virada do século vinte, no legendário distrito red-light, Storyville de New Orleans. Violet (Shields) é filha de uma prostituta (Susan Sarandon) até que um dia o fotógrafo Ernest Bellocq (Keith Carradine) vai ao bordel para fotografar as prostitutas e fica fascinado por Violet, que será iniciada na carreira da mãe.

 

 

Já "Taxi Driver" estrelado por Robert De Niro, Cybill Shepherd e Jodie Foster, com direção de Martin Scorsese, é de 1976. Mostra o momento da década de setenta, onde a degradação urbana de Nova York era pontuada por comportamentos nada politicamente corretos. O personagem principal é Travis Bickle (Robert De Niro) ex-combatente do Vietnã e agora motorista de táxi. Apaixonado por uma prostituta mirim, em um misto de amor paterno e protetor e uma dose de insanidade torna-se um "vingador".

 

 

Jodie Foster foi ao lado de Brooke Shields a atriz pré-adolescente mais sexualizada e com extenso currículo no cinema norte americano. Por certo que aquele tempo até o fotografo David Hamilton, especializado em fotografar ninfetas também fazia seus filmes (como Bilitis que chegou a ser lançado em vídeo no Brasil), mas o enfoque era outro. Alan Parker, por exemplo, estreou com "Bugsy Malone" (de 1976), que lhe rendeu um BAFTA para o melhor argumento e uma nomeação para a Palma de

 

Ouro em Cannes. O filme fracassou no Brasil, mas era um hilário musical onde o elenco era todo formado por crianças interpretando papéis de adultos. Uma comédia de gangsteres onde as metralhadoras atiravam chantilly. Jodie Foster mais uma vez era uma cantora/prostituta com um número provocante da canção "My name is Talula". Em 1982 mais uma vez, Parker decide investigar a infância e adapta o álbum dos Pink Floyd "The Wall".

 

 
 

Jodie Foster na verdade Alicia Christian Foster, nasceu em 19 de Novembro de 1962, Los Angeles, e é uma das únicas atrizes infantis em toda a história do cinema a não só a continuar a carreira na idade adulta como também a transformar-se numa profissional do primeiro time, tendo atuado em mais de quarenta filmes. Começou em comerciais (ela era a garotinha do famoso comercial dos bronzeadores Coppertone), passou por séries de televisão e por filmes dos estúdios Disney. Ao sair da Disney teve sua polêmica performance em Taxi Driver (1976), como uma mini prostituta. Mas esta foi somente uma das várias vezes em que estaria por perto dos prêmios da Academia. Foi nominada para o Oscar por sua performance em Bugsy Malone (1976) representando Miss Tallulah, e por The Little Girl Who Lives Down The Lane (1976) na pele de uma jovem assassina, ainda quando pré-adolescente.

 

 

 

UM POUCO DE INOCÊNCIA

 

 

Quando falamos em Jodie na ativa, temos que lembrar que Brooke Shields interrompeu sua carreira assim como a artista mirim de maior sucesso de todos os tempos Shirley Jane Temple. Começou sua carreira em Hollywood aos três anos de idade. Ela cantava e dançava em seus filmes e foi um produto de marketing imbatível, com sua marca licenciada em bonecas, fonógrafos, discos, chapéus, roupas, acessórios, etc. Dava

 

grandes lucros aos estúdios e nos anos 1936-37-38, era nome dos "blokbuster" ao lado de Clark Gable, Bing Crosby, Robert Taylor, Gary Cooper e Joan Crawford. Em 1939, suas popularidade começou a declinar. Talvez seus melhores filmes sejam "Since You Went Away," e "Bachelor and the Bobby Soxer". Interrompida a carreira optou pela diplomacia e foi embaixadora em Gana e Czechoslovakia.

 

 

Dessa época de inocência podemos relembrar talentos precoces como Elizabeth Taylor (que contracenava com a cachorra (na verdade um macho) Lassie e Judie Garland que ficou famosa com a sua Doroty em "O mágico de Oz". Dos garotos prodígios o sobrevivente foi Joe Yule Jr mais conhecido como Mickey Rooney, nascido em 23 de setembro de 1920 no Brooklyn, New York. Seus pais eram a garota do coro Nell Carter e o cômico Joe Yule Sr., que atuavam em vaudevilles. Sua estréia, mesmo que acidental, foi aos 17 meses de idade quando interrompeu atuação do pai o que provocou uma explosão de gargalhadas na platéia. Seu futuro estava selado.

 

 
 

Em 1924, a mãe de Mickey decidiu que ele era perfeito para a série Hal Roach's "Our Gang", porém seu primeiro filme foi "Not To Be Trusted" de 1926 onde intrepretava um anão. Foi o número um do "box office actor in the United States" em 1939-41.
 

 

 

LATINOS

 

 

Ainda na inocência. Por um certo período as crianças hispânicas e latinas brilharam em nossas telas. Era o fim dos anos cinqüenta e início dos anos sessenta e ninguém esquece da figura de Pablito Calvo, Joselito e de Marisol (essa mais crescidinha).

 

 

Joselito, na verdade chama-se José Jiménez Fernández, nasceu em 11 de fevereiro de 1943, em Beas del Segura, Jaén, atuava no rádio e às vezes em público. Foi Antonio Guzmán Merino, consciente do potencial do garoto, que o põe em contato com o produtor Antonio del Amo que se converteria em seu pigmaleão cinematográfico.

 

 
 

Sob sua direção Joselito estréia em El pequeño ruiseñor (1956), filme de baixo orçamento, rodado em preto e branco e que no Brasil levou o título de O Pequeno Rouxinol. Foi um estrondoso sucesso nos países de lingua espânica e até em países pouco receptivos ao cinema espanhol como França, Itália e países árabes.

 

 

O sucesso do filme frutificou com Saeta del ruiseñor (1957), El ruiseñor de las cumbres (1958), Escucha mi canción (1958), e El pequeño coronel (1959) todas dirigidas por Antonio del Amo para Cesáreo González / Suevia Films. Demostrada a penetração de seu personajem, Joselito inicia sua aventura americana rodando no México - Aventuras de Joselito en América / Aventuras de Joselito y Pulgarcito (René Cardona e A. del Amo, 1960).

 

 

Filmará de novo na Espanha Los dos golfillos (A. del Amo, 1960), El caballo blanco (Rafael Baledón, 1961) y Bello recuerdo (A. del Amo, 1961). Depois vieram as produções européias - El secreto de Tommy / Le secret de Joselito (A. del Amo, 1963) e Loca juventud / Questa pazza, pazza, pazza gioventú (Manuel Mur Oti, 1963), que inicia a sua despedida do personagem infantil que vinha encarnando.

 

 

Josefa Flores González, mais conhecida pelo nome de Marisol, nasceu em Málaga a 4 de novembro de 1948. Era apaixonada por cantar e por dança flamenca. Integrou o Coros y Danzas de sua cidade natal. Uma de suas atuações foi televisionada direto da Feria del Campo que se celebrou na capital espanhola em 1959. A jovem bailarina chamou a atenção de Manuel Goyanes, que ofereceu sua primeira oportunidade cinematográfica.

 

 

Será Un rayo de luz, dirigida por Luis Lucia, que iniciará seu estrelato infantil e com quem rodará sua trilogía inicial, que inclue Ha llegado un ángel e Tómbola. A natureza acaba por impor sua lei nos anos setenta, e os papéis de garota dão lugar para bela mulher em que a jovem atriz se transformou.

 

 

A legendária carreira de Marcelino, pan y vino (1955),que filmou aos 8 anos,o converteu em um mito para a Espanha da pós guerra. Fez outros filmes com Ladislao Vajda e mais cinco com outros diretores. Seu nome, Pablito Calvo. Pablo Calvo Hidalgo nasceu em Madrid a 16 de março de 1949. A sua carreira cinematográfica é curta - em 1954, Marcelino Pan y Vino; 1956, Mi tío Jacinto; 1957, Un ángel pasó sobre Brooklyn, os três de Ladislao Vadja; 1958, Totó y Marcelino, de Antonio Musu, na Italia; 1960, Juanito, de Fernando Palacios; 1961, Alerta en el cielo, de Luis César Amadori; 1962, Dos años de vacaciones, de Emilio Gómez Muriel; 1962, Barcos de papel, de Román Viñoly Barreto, na Argentina. As melhores, inclusive para ele foram, Mi tío Jacinto; e o mítico, Marcelino Pan y Vino. Pablo Calvo faleceu em Fevereiro de 2000 aos 51 anos de idade no hospital de Alicante, em conseqüência de um derrame cerebral.

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

E mais recentemente, nos anos setenta foi a vez de Carlos Saura nos brindar com “Cria Cuervos”. Geraldine Chaplin era Ana, a mãe, e tinha no elenco a estrela mirim Ana Torrent. A trilha é a inesquecível "Porque te vás" com a também precoce Jeanette.

 

 

 

ESSES SÃO DE MORTE!

 

 

Não estamos falando dos moleques endiabrados como “O menino Maluquinho” ou de Mcaulay Culkin em “Home Alone” (Esqueceram de mim) ou de Dennis, o Pimentinha (Dennis the Menace) e sim algo muito mais macabro.

 

 

Vejamos, sem as crianças o que seria, por exemplo “O Exorcista” com a terrificante interpretação de Linda Blair. Ou vamos mais longe, quem arriscaria um roteiro como esse - “diplomata preocupado em não chocar a esposa em virtude da morte do seu filho ao nascer lhe oculta o fato e adota um recém-nascido de origem desconhecida, sem saber que a criança era o AntiCristo em pessoa. “ Pois arriscaram e o resultado foi três filmes( ou melhor, quatro).

 

 

A Profecia (The Omen) é o primeiro de uma série de três filmes baseados no personagem Damien e foi dirigido por Richard Donner (Os Goonies) e com Gregory Peck no elenco. Damien foi interpretado pelo garoto Harvey Stephens. Os demais são A Profecia 2 (1978) e A Profecia 3 - O Conflito Final (1981). Houve ainda um quarto filme da série, feito diretamente para a TV americana e chamado A Profecia 4 - O Despertar

 

 

Se não creio em bruxas, mas... veja só: Ocorreu uma série de acidentes durante as filmagens de A Profecia quando seu título original ainda era "The Antichrist to the Birthmark". O hotel onde o diretor Richard Donner estava hospedado sofreu um atentado com bombas do IRA; o avião do roteirista David Seltzer sofreu um acidente; o ator Gregory Peck cancelou na última hora um vôo para Israel cujo avião sofreu um acidente e todos os que estavam dentro dele faleceram; e ainda os principais atores do filme sofreram um acidente automobilístico quando se dirigiam para rodar uma das cenas do filme.

 

 

Stephen King, mestre do suspense e terror também se utiliza de criancinhas um tanto aterradoras como nos filmes “As Crianças do milharal” ou “Cemitério Maldito” porém seu talento aparece em melhor em “Conta Comigo” (Stand by me) uma história sobre companheirismo na infância.

 

 

VENDO COM OUTROS OLHOS

 

 

Muitos diretores cometeram filmes autobiográficos, retratando as suas infâncias ou relembrando histórias desse período. Federico Fellini negou várias vezes que Amarcord (Itália / França, 1973) fosse um filme autobiográfico, mas concordou que há passagens semelhantes a fatos por ele vividos em sua infância. É por meio da memória do garoto Titta (Bruno Zanin), que Fellini faz um panorama da vida familiar, religião, educação e política dos anos 30, quando o fascismo era o regime vigente. Já a França dos anos de guerra ressurge com um cineasta francês, Louis Malle que filma um episódio de sua própria infância, da amizade bruscamente interrompida pela guerra. Durante a ocupação nazista na França em 1944, Julien Quentin (Gaspard Manesse) é um garoto esnobe que no colégio interno, é rival de Jean Bonnett (Raphael Fejto), um menino reservado e com o tempo a rivalidade entre os dois se transforma em admiração e amizade.

 

 

O cineasta sueco Ingmar Bergman filmou, “Fanny e Alexander”, (Suécia, 1982). São cenas de sua infância e o filme apresenta um alegre Natal na família Ekdahl, onde o pai de Alexander (Bertil Guve) e Fanny (Pernilla Allwin) falece. A mãe casa-se com um pastor rígido religioso e as crianças começam a conviver com o padrasto de hábitos severos. Roberto Rosselini nos deu Alemanha Ano Zero (Germania, Anno Zero, Italia, 1947) , onde Edmund (Edmund Moeschke), um garoto de uma família muito pobre, trabalha para sustentar o pai doente, sua pequena irmã e o irmão e que passa a considerar a possibilidade de matar seu próprio pai, para cortar gastos.

 

 

Outro clássico é O Balão Branco (Badkonade Sefid, Irã, 1995) Dirigido por Jafar Panahi é um filme de construção plástica onde as imagens traduzem sentimentos. O roteiro de Abbas Kiarostami acompanha a desesperada busca de uma menina que perdeu o dinheiro destinado à compra de um peixinho dourado, símbolo tradicional de sorte e fortuna no ano-novo iraniano.

 

 

Outro filme de rara sensibilidade é O Jardim secreto (The Secret Garden, EUA, 1993). Uma refilmagem de Agniezka Holland para o clássico de 1939 que é baseado no romance de Frances Hodgson Burnett. É a história de Mary Lennox (Kate Maberly), que desprezada pelos pais e pelo tio que a acolhe num imenso castelo quando ela fica órfã. A solidão da garota a leva a cultivar secretamente um jardim, com a ajuda do filho de um empregado e do primo que está limitado por andar em cadeira de rodas.

 

 

Realmente as crianças no cinema são um assunto sério. A visão adulta transforma lembranças em imagens fortes e buscam resgatar sentimentos. Quando não caem na pieguice são obras primas. Pode-se fazer cinema para e com crianças, mas não se pode fazer baboseiras para toda uma infância quase que perdida. Em tempo “Dadinho é @#%$, meu nome é Zé Pequeno”. Lembrem-se!

 

Eduardo Cruz

Jornalista e Roteirista
publicado por o editor às 15:38
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Segunda-feira, 17 de Março de 2008

ZINEDINE ZIDANE

 

 




UM LANÇAMENTO DA

 

 

 

 

ESSA RESENHA FAZ PARTE DO PROGRAMA Nº1 da ZPTV

 

sinto-me:
publicado por o editor às 12:50
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