Como já me livrei de notas introdutórias , péssima expressão para qualquer tom de ensaio me sinto livre para incorrer em injustiças e tomar catiripapos de amigos mais chegados e cometer o despretencioso texto, dando testemunha que esse Brasil tem muito de conhecer esses outros brasis. Ia me ater a um mapa, dividir regiões, colocar em ordem alfabética, mas percebi que ia incorrer em erro, escorregar no didatismo e no melhor dizer de João Antonio, ia me tornar um "um doutor sambudo e quiquiriqui, um litorâneo raquítico e pretencioso" que vive a "torcer o nariz".
Resolvi começar São Paulo, filho da terra que sou. Afinal quem é a cara de São Paulo...Meus amigos de beberundar nas padarias do Bixiga (apelido de um bairro central e boêmio) logo sacaram de um nome de rua, Adoniran Barbosa mas depois... depois tem o depois e outros poréns que logo veremos em outros intertítulos. LEIA MAIS...
JESUS CRISTO, MARIA E MADALENA.
Introdução
Em todo momento polêmico surgem histórias exemplares. Talvez nos venham a sobrar indignações por tratar de tal tema, mas o certo é que sem querer discutir o Jesus histórico, ou ainda tentar validar esta ou aquela teoria sobre mistérios que são na verdade dogmas de fé, e por assim o serem não cabem como objeto de discussão, perpetramos esse texto com a intenção de mostrar que existe mais de uma maneira de se contar uma história. Mesmo sendo esta considerada a maior história de todos os tempos. Uma história que é a da tradição judaica e da construção da civilização cristã, civilização essa que já nos deu, por exemplo, as Cruzadas e a Santa Inquisição.
Uma civilização que a princípio se edifica sob a influência da igreja católica, igreja essa que também já surge polêmica. Não fosse assim nas longas peregrinações São Paulo Apóstolo não teria encontrado (25 anos depois) em uma de suas viagens alguns seguidores de João Batista, um moralista severo e inflexível sobre quem Jesus certa vez declarou – “Em verdade vos digo: Entre os nascidos de mulher ninguém apareceu maior que João Batista”.
Leia mais este ensaio em
boemia, algumas inclusive já contadas nesse Suplemento.Uma história que se reveste do manto da especulação, maledicência ou até faz jus à mítica dos poetas românticos, é que Castro Alves em sua incursão pelo Braz, onde em um salto sobre uma vala desequilibra-se e dá um tiro no pé é incorreta e foi criada pelos amigos, para amainar um possível escândalo. Diz-se que, desgostoso com as relações com Eugênia Câmara, redirige suas energias para uma paulista de família burguesa. A mulher, por armadilha do destino, é casada com um comerciante português dono de uma chácara extensa que beirava até a famosa chácara do Tatuapé.O dito português flagra Castro Alves em sua propriedade. O poeta foge, mas, à beira de um riacho, acaba por levar um tirombaço no pé.O ferimento infecciona, pois a região possuía muitas charnecas pelas quais Alves precisa arrastar-se em busca de socorro. A tal chácara da Bresser existiu, assim como o riacho que desde o início do século está canalizado.A charneca está sobre metros de aterro, asfalto e concreto. Até os trilhos do Metrô correm sobre ela...
de Azevedo foi outro que deixou sua marca nas arcadas. Poeta, contista e ensaísta, nasceu em São Paulo a 12 de setembro de 1831, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 25 de abril de 1852. Em 1848 matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo, onde foi estudante aplicado e de cuja intensa vida literária participou ativamente, tendo fundado a Revista Mensal da Sociedade Ensaio Filosófico Paulistano. Entre seus contemporâneos, encontravam-se José Bonifácio (o Moço), Aureliano Lessa e Bernardo Guimarães estes dois últimos suas maiores amizades em São Paulo, com os quais constituiu uma república de estudantes na Chácara dos Ingleses, era ali que nasceria grande parte de sua obra poética. O meio literário estava encharcado de byronianismo, e teria fornecido a Álvares de Azevedo componentes de melancolia, sobretudo a previsão da morte, que parece tê-lo acompanhado a vida toda.

"'fumante ou
não-fumante?', o funcionário
perguntou.
'bebedor', eu
respondi."
No Tocantins
O chefe dos parintintins
Eu vi uns patins pra você
Eu vi um Brasil na tevê
Capaz de cair um toró
Estou me sentindo tão só
Oh, tenha dó de mim
Pintou uma chance legal
Um lance lá na capital
Nem tem que ter ginasial
Meu amor
Roberto Menescal - Chico Buarque/1979
in Bye bye, Brasil
Para o filme Bye, bye Brasil, de Carlos Diegues
Como já me livrei de notas introdutórias , péssima expressão para qualquer tom de ensaio me sinto livre para incorrer em injustiças e tomar catiripapos de amigos mais chegados e cometer o despretencioso texto, dando testemunha que esse Brasil tem muito de conhecer esses outros brasis. Ia me ater a um mapa, dividir regiões, colocar em ordem alfabética, mas percebi que que ia incorrer em erro, escorregar no didatismo e no melhor dizer de João Antonio, ia me tornar um "um doutor sambudo e quiquiriqui, um litorâneo raquítico e pretencioso" que vive a "torcer o nariz".
Resolvi começar São Paulo, filho da terra que sou. Afinal quem é a cara de São Paulo...Meus amigos de beberundar nas padarias do Bixiga (apelido de um bairro central e boêmio) logo sacaram de um nome de rua, Adoniran Barbosa mas depois... depois tem o depois e outros poréns que logo veremos em outros intertítulos.
ADONIRAN BARBOSA, I TUTI QUANTI
Falar que Adoniran Barbosa é a cara de São Paulo não seria nenhum absurdo,, uma vez que João Rubinato em suas letras com sotaque e vocabulário da lígua do povo (a errada e gostosa língua do povo como gostava Manuel Bandeira), seria muito óbvio. Era um português conhecido por cá, como “macarrônico” falado nas ruas do Brás e Bixiga (os dois bairros hoje com muito mais sotaque nordestino). Ele assim como Paulo Vanzolini foram brindados com deliciosas histórias no ensaio de Conceição Ratis, “Os Boêmios na Música Popular” publicado por este Suplemento Cultural na edição de agosto de 2003. Mas é sempre bom relembrar a importância dos dois. Como bem relembra Tárik de Souza em seu livro “Tem mais Samba” (editora 34) “Sua originalidade (de Adoniran) projetou nacionalmente um samba paulista peculiar, repleto de ‘nós fumo e vortemo’. ‘Quem não sabe far errado não deve falar’, ironizava ele em depoimento”.
Na verdade Adoniran Barbosa nos idos de 50 chegou a ser chamado de o “Noel Rosa de São Paulo”, epíteto que felizmente não pegou.’ Zuza Homem de Mello em depoimento ao livro de Ayrton Mugnaini Jr – “Adoniran – Dá licença de contar” (Editora 34) explica que “se a vida de Adoniran sempre esteve ligada ao rádio, é como compositor que a sua vida em São Paulo ficará marcada para sempre. Adoniran foi o compositor de São Paulo por excelência. Ele transformou numa obra compreendida nacional e internacionalmente a linguagem e a vida paulistanas. ‘Samba do Arnesto’, ‘Trem das Onze’ e ‘Saudosa Maloca’ forma a trilogia suficiente para exemplificar sua obra. Uma obra engraçadíssima e tristíssima. De um boêmio/trabalhador, caipira/italiano, seco/vibrante, um gozador que sofreu. Um homem triste e alegre. Um monumental tipo popular.”
O autor e crítico musical de “Tem Mais Samba” também relembra ainda que a sonoridade paulista tinha a voz de Isaura Garcia, outra nascida e criada em bairro operário, o bairro do Brás.Suas músicas pouco recomendáveis para moças comportadas (Matriz e Filial, Só Louco, E o mundo não se acabou, por exemplo) eram siua marca registrada, além de seu imbatível bom humor.
Bom humor também não faltava para Paulo Vanzolini, que muito embora tenha ficado conhecido com “Ronda” e “Volta Por Cima”, era um cronista urbano imbatível. “ Vanzolini tomava um lotação para ir ao trabalho, e ao observar os batedores de carteira na fila, criou o elíptico ‘Praça Clóvis’ – ‘Na Praça Clávis minha carteira foi batida/ tinha vinte e cinco cruzeiros e o seu retrato/ vinte e cinco eu francamente achei barato/para me livrarem do meu atraso de vida...’”
MAS AINDA TEM OS CAIPIRAS
Muitos acham que a cara de São Paulo é a música caipira, a toada de viola tão cara a Mario de Andrade que as recolhia com enlevo quando era professor no Conservatório Musical. Quando falamos dessa música caipira, evitamos usar o termo sertanejo, hoje rótulo de músicas totalmente dissociadas desses estilo. Musicas estas hoje pausteurizadas e tocadas para duos e não duplas provocarem trinos e gargarejos que embalam letras repetitivas e melosas. A velho música sertaneja, a caipira que nos referimos é formada por cururus, modas, pagodes e cantos de trabalho, que desfilavam desde acontecimentos políticos, a reminicências. Não faltavam as sátiras, críticas e ainda história campônias com gados, cavalos de valor e certa valentia. Logicamente existiam também as histórias de amor e morte, mas dolosas, tristes para fazer as violas chorarem.
Essa música hoje rara mas que influenciou grandes compositores da MPB (Ivan Lins, Milton Nascimento, Chico Buarque tem uma sonoridade inconfundível – são catiras, benditos, toadas, batuques, calangos e modas de viola. Hoje ainda faz oi som de São Paulo através de uma incansável defensora, apresentadora de um decano programa semanal na TV Cultura (TV educativa de São Paulo), Inezita Barroso, ou se preferirem Inês Madalena Aranha de Lima, esta grande cantora, que nasceu em São Paulo em 04 de Março de 1925.
Falando em São Paulo a gente não podia deixar de lembrar do poeta de olhos verdes, o sessentão mais cobiçado do carioca calçadão beira-mar e que já foi um dia o poeta irriquieto da Rua Buri, pertinho do estádio do Pacaembú, onde adorava assistir futebol.
A história é simples , no dia 19 de junho nasce, na Maternidade São Sebastião, no Largo do Machado, Rio de Janeiro, Francisco Buarque de Hollanda, o quarto dos sete filhos
do historiador e sociólogo Sérgio Buarque
de Hollanda e da pianista amadora Maria Amélia Cesário Alvim.
Depois de morar no Rio de Janeiro e uns tempos na Itália, Francisco, o Chico se muda com a família para São Paulo (1956/1957) . Oficialmente (está na web) “sua irmã Ana de Hollanda, a "Baía", conta que aos doze, treze anos de idade, já de volta a São Paulo, Chico compôs ‘umas operetas’ que eram cantadas em conjunto com as irmãs mais novas, Ana, Cristina e Pii. A família muda-se para um casarão na rua Buri, a poucos quarteirões do estádio do Pacaembu. Embora fosse um apaixonado torcedor do Fluminense, a camisa que seu ídolo vestia era a do Santos. Seu nome: Paulo César de Araújo, o Pagão, nome que Chico adota até hoje, em homenagem ao craque, quando veste a camisa número 9 de seu time de futebol, o Politheama. Alguns amigos brincam, afirmando que Chico só se tornou músico porque não conseguiu
brilhar no futebol.” Sorte nossa.
Chico Buarque é como diremos...um produtor de clássicos instantâneos e ao trocar o curso de Arquitetura transformou-se um construtor com as melhores composições populares brasileiras,. É o que se pode chamar de o Compositor do Brasil. Se por um lado era comparado com Noel, por outro rompeu todas as barreiras, compôs em todos os ritmos e até em outras línguas. Gênio estendeu sua obra para o teatro e para a literatura. Completa neste mês 60 anos como um porta maior de obras sempre muito aguardadas. Unanimidade? Talvez, mas com certeza a melhor cara do Brasil.
E depois vem a história da Bahia. Ai se eu escutasse o que mamãe dizia...a gente faz o que o coração dita e decreta -
Dorival Caymmi nasceu em Salvador, Bahia, em 30 de Abril de 1914. É tudo o que precisamos saber. Depois é só ouvir as canções e se transportar. Este é o único inconteste, ao lado de Caribe e Jorge Amado.
Por certo que a Bahia são várias bahias de ritmos densos e tambores vibrantes. Bahia é Gil,
Caetano, Bethânia, Gal, e ainda uma montueira de trios elétricos, artistinhas chacoalhantes, axés e ...”muita bomba!” Mastem coisa boa muito embora
alguns críticos perguntam se no baticum Bahia pode virar Jamaica. Goli Guerreiro em seu livro “Trama dos Tambores – Amúsica afro-pop de Salvador “ (editora 34) esclarece essas nossas dúvidas em uma pesquisa que não deixou couro sobre couro e passou de beco em beco. Por isso mesmo Caymmi reina absoluta, e melhor, nos deu Nana, Dori e Danilo. Quer mais?
Dorival está sendo festejado pelos seus 90 anos...nem parece. Está ali a face calma, a voz potente. Compositor que nos deu Acalanto;Coqueiro de Itapoá; Dora; Samba da Minha Terra; São Salvador; Saudade da Bahia; Saudades de Itapoã; Só Louco; Você Já Foi à Bahia?; Você Não Sabe Amar; tantas que nem dá para escolher.
Mais uma vez o acaso parece ser o padrinho das artes no Brasil. Em Salvador trabalhou em muitos empregos antes de tentar a sorte como cantor de rádio, e como compositor ganhou um concurso de músicas de carnaval em 1936. Dois anos mais tarde foi para o Rio de Janeiro com o objetivo de realizar o curso preparatório de Direito e talvez arranjar um emprego como jornalista, profissão que já havia exercido em Salvador. Porém , e sempre tem um porém, incentivado pelos amigos, muda de idéia e resolve enveredar para a música. E lá ficou.
Teve sua música "O Que É Que a Baiana Tem" incluída no filme "Banana da Terra", estrelado por Carmen Miranda e nasceu o sucesso. Logo após sua música "O Mar" foi colocada em um espetáculo promovido pela então primeira-dama Darcy Vargas. Seu prestígio foi se ampliando, passando a fazer parte do cast da Rádio Nacional, local onde conheceu a cantora Stella Maris, com quem se casou em 1940 e permanece casado até hoje.
Sobre Caymmi Jorge Amado escreveu – “ Sua obra de compositor é das mais importantes do Brasil, sua canção lírica e dramática transpôs as fronteiras e as limitações de nosso subdesenvolvimento para se fazer uma afirmação universal de nossa cultura, de nossa originalidade. Sua influência sobre toda a música moderna brasileira é mais do que evidente, e não só nos termos da chamada música popular: em sua incomensurável riqueza vêm todos beber e aprender. Um baiano cheio de ternura, de amor ao povo e à vida, cordial e simples, glorioso e
modesto, feito de picardia e dengue, um brasileiro de sucesso mundial, Dorival Caymmi”.
Ainda no livro de sua neta Stella Caymmi “ Dorival Caymmi – O mar e o tempo” (editora 34) uma maçuda mas deliciosa biografia ficamos sabendo que conversar com Caymmi é uma arte. “E quando isso acontece exige sua total atenção. É datalhista. Cinematrográfico. Pinta o cenário antes de desencadear a ação no imaginário do seu interlocutor.” È algo como as suas músicas, uma pintura, clara brilhante. Triste ou alegre com detalhes de fundo e cores vibrantes em cada compasso.
Dorival é o responsável em grande parte pela imagem que a Bahia tem hoje em dia, e com seu estilo inimitável de cantar e com composições de construção melódica impar influenciou várias gerações de músicos brasileiros.
E tinha aquela coisa do Rio de Janeiro, a capital federal que era também a capital cultural do Brasil, onde todos iam se chegando e acariocavam-se...os mineiros principalmente!
NOEL ROSA
Dizem que a cara do Rio de Janeiro é o Carnaval, ou melhor o samba, ou talves a marchinha, por certo isso antes da bossa-nova que é também é samba...ou não é? O samba de raiz chegou aos tempos da eletrônica. É sucesso na favelo e no Favela Chic. Se o samba tem origem afro, chega da Bahia, é no Rio de Janeiro que se institucionaliza. E depois se populariza na obra em branco de Noel Rosa. O poeta da Vila (o bairro Vila Isabel para os puristas é a cara do Rio de Janeiro. Não só pelos seus componentes críticos e urbanos , mas como crônicas de uma cidade mais cordial.
Noel de Medeiros Rosa, cantor, compositor, bandolinista e violonista. Nasceu(11/12/1910) e morreu (04/05/1937) no Rio de Janeiro, RJ. Tivesse vivido mais deixaria com certeza uma obra extensa e tão rica como os sambas que o eternizaram. Noel em 1929, compôs as suas primeiras músicas, dentre elas a emb
olada Minha viola e a toada Festa no céu. Em 1930, conheceu seu primeiro grande sucesso Com que roupa. Em 1931 entrou para a faculdade de Medicina, sem, no entanto, abandonar o violão e a boemia. O samba falou mais alto pois largou o curso meses depois.
Sobre ele Tárik de Souza escreveu “Gênio (e profeta) da raça , sambista também cultor da ‘Rumba da Meia Noite’ ao rock da época, o fox-trot (‘Julieta’), Noel que viveu num Rio de Janeiro ainda bucólico, onde o despertador podiaser o guarda civil (que o salário atrasado), previu até o fim da malandragem cordial. E prenunciou a guerra civil não declarada: ‘No século do passado/ o revolver teve ingresso/ para acabar com a valentia’ (‘O Século do progresso’ 1934)”.
Cantou um Rio urbano depois devastado por espigões e selvagerias tantas que nem o maestro Antonio Carlos Jobim pode suportar.
Parceiros e apaixonados pela cidade do Rio de Janeiro o maestro e o poetinha são a cara de um Rio mais recente. Um Rio que deixa de ser capital federal e passa a ser orgulho do Brasil , nossa maior divisa turística, beleza esta ainda sobrevivente a tantos desmandos e a essa guerra anunciada. A biografia dos dois se confunde e passa a construir uma nova memória musical da cidade.

Nasce, em meio a forte temporal, na madrugada de 19 de outubro de 1913 , no antigo nº 114 da rua Lopes Quintas, na Gávea,Rio de Janeiro. Em 1928 compõe, com os irmãos Tapajoz,
"Loura ou morena" e "Canção da noite", músicas de muito sucesso. O poeta produz muitas obras e em 1954 sai a sua primeira edição de sua Antologia Poética. É 1956, e a partir desse ano começam os "caminhos cruzados". Convida Antônio Carlos Jobim para fazer a música do espetáculo, iniciando com ele a parceria que, logo depois, com a inclusão do cantor e violonista João Gilberto, daria início ao movimento de renovação da música popular brasileira que se convencionou chamar de bossa nova.
Anos mais tarde, em 1962, na mesma época que começa a compor com Baden Powell . Em agosto, faz seu primeiro show, de grande sucesso, com Antônio Carlos Jobim e João Gilberto, na boate AuBom Gourmet, que daria início aos chamados pocket-shows, e onde foram lançados pela primeira vez grandes sucessos internacionais como "Garota de Ipanema" e o "Samba da bênção"Faz ainda um Show com Carlos Lyra,na mesma boate, o Pobre menina rica onde é lançada a cantora Nara Leão.No mesmo ano compõe com Ari Barroso as últimas canções do grande compositor popular, entre as quais "Rancho das namoradas".
Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim nasceu às onze e quinze da noite de uma terça-feira, 25 de janeiro, de 1927,. Dizem que chovia muito nesse de seu nascimento na casados pais rua Conde de Bonfim, no bairro carioca da Tijuca. No Villariño onde se formara a dupla Tom & Vinícius, em 1958, outro encontro histórico acontece, envolvendo a dupla e Elizeth Cardoso. Daquela vez o padrinho foi Irineu Garcia, idealizador do selo Festa. Tom Jobim erasem duvida, o melhor de todos os novos compositores brasileiros.
É dessa época a sua “Sinfonia do Rio de Janeiro” uma composição sua com Billy Blanco. A composição buscava desenvolver a idéia musical da montanha, o sol e o mar. O disco foi lançado em 20 de janeiro de 1960. Braguinha (João de Barro), então na gravadora Continental escreveria “Rio de Janeiro...a montanha, o sol, o mar....principalmente o mar, este mar boêmio que canta para embalar as praias claras. E este sol que passeia no azul e ardentemente beija a mais bela mulher do pais! E a montanha do Cristo Redentor de braços abertos para a cidade e para quem vem de longe...Este disco maravilhoso...vai encontrar um Rio um pouco mais agitado,um pouco menos boêmio, mas que, felizmente, conserva ainda, a montanha, o sol, o mar...”
Como a primeira sinfonia, dedicada ao Rio de Janeiro, também foi encomendada outra — no caso, pelo pianista Bené Nunes, a pedido do presidente Juscelino Kubitschek, que sonhava com um poema sinfônico em homenagem a Brasília, a nova capital do país, inaugurada em 21 de abril de 1961. Acompanhado de Vinícius, que se incumbiria de escrever o recitativo da sinfonia, Tom viajou até o Planalto Central. Consta que da viagem voltou com os cinco movimentos de “Brasília, Sinfonia da Alvorada” na cabeça. Talvez os dois hoje não compusessem outra com tal empenho.
Vinicius é operado a 17 de abril de 1980, para a instalação de um dreno cerebral. E veio a falecer na manhã de 9 de julho, de edema pulmonar, em sua casa, na Gávea, em companhia de Toquinho e de sua última mulher. Desaparecido ficaram os originais de Roteiro lírico e sentimental da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Em 15 de setembro de 1994, três dias após Tom Jobimgravar sua parte de um dueto com Frank Sinatra, viajou até Nova York para submeter-se a uma angioplastia. Num dos vários exames a que Tom se submeteu, detectaram um tumor maligno em sua bexiga—e uma cirurgia foi marcada para o dia 6 de dezembro, no Mount Sinai Medical Center. No dia 8teve uma parada cardíaca, às 8h. A segunda, duas horas depois, lhe seria fatal. Seu corpo desembarcou no Rio no dia 9 de dezembro.
A paixão dos dois pelo Rio de Janeiro, são um exemplo do amor pela beleza em proveito da arte, no caso a música e poesia. Não dá para dissociar a imagem dos dois de São Sebastião do Rio de Janeiro.
E TODAS AS OUTRAS CARAS
Mineiro é gregário? Pelo sim pelo não temos o Clube da esquina! E nada mais representativo que Milton Nascimento e seus amigos para Minas Gerais. “Noite chegou outra vez, de novo na esquina os homens estão ... “ (Lô / Márcio Borges / M. Nascimento)". Em um inspirado texto o mineiro Tete Monti em seu siteda web escreveria – “ o carioca criado em Três Pontas Milton Nascimento, o Bituca, foi ganhar a vida.
E foi nesse arraial chamado Belo Horizonte que Bituca conheceu a família Borges. No "quarto dos homens" da casa dos Borges, surgiu um estilo musical universal. (...) Bituca e Márcio Borges iam conhecendo gigantes da música como Wagner Tiso. Enquanto os garotos Lô Borges e Beto Guedes devoravam discos dos Beatles, Milton encontrava Fernando Brant e "Travessia" mostrava ao Brasil com que voz Deus cantaria, se cantasse.
Para entender que cara de Minas é essa, que não é só uma mas são muitas , a formação de “agrupamento” musical se deu com a soma do carioca Milton ao mineiro de Montes Claros, Beto Guedes que mais se destacou comercialmente, juntamente com Milton e Flávio Venturini. Já Toninho Horta é um dos maiores e melhores guitarristas do mundo e tocou em muitos discos de Milton Nascimento. Tavinho Moura mineiro de Juiz de Fora é, como Toninho Horta, um mestre da harmonia. Com uma forte influência religiosa é autor de "Paixão e Fé", incluída do álbum Clube da Esquina 2. Com Milton Nascimento, Tavinho fez o álbum Missa dos Quilombos e Sentinela. E mais os músicos do Clube da Esquina tem Wagner Tiso, maestro e arranjador. Tiso fez parte da banda Som Imaginário ao lado de Luiz Guedes, Fredera, Tavito, Zé Rodrix e Robertinho. O Som Imaginário lançou a música "Feira Moderna", dos até então desconhecidos Lô Borges e Beto Guedes no Festival Internacional da Canção. Deu para entender ?
Mas temos muitas outras caras e sons. Nos pampas além de Teixeirinha com os seus churrascos vinham umas Almôndegas...formados por Kleiton e Kledir Ramil, que nos anos oitenta, junto com Raul Elwanger deram a nota para as coisas do sul. Parelamente as tradições foram mantidas por grupos folclóricos e seus galpões. Artistas populares como Gaúcho da Fronteiro mantiveram acesa a chama que nos idos sessenta era garantida pelo Conjunto Farroupilha do qual Rolando Boldrin fazia parte.
Do Pantanal as boas novas e o resgate da verdadeira identidade cultural vieram através de Almir Sater que dividiu sua chalana com o ex-jovem guarda Sergio Reis.
Do Ceará, o óbvio Pessoal do Ceará com Rodger, Rogério e Teti, e ainda Ednardo, Belchior, Raimundo Fagner. Da Paraíba, Elba Ramalho, Zé Ramalho e a afinadíssima Amelinha. Do Piauí Jorge Mello. Do Pará, a agora aportada em Portugal Fafá de Belém e o grande compositor Paulo André Barata. E do Maranhão a sambista de swingue carioca e pitadas de carimbó Alcione e os novos talentos como Zeca Baleiro. Da grande Amazônia a força do canto índio de Marlui Miranda.
E por certo estamos deixando de falar muitos estados e das muitas facetas culturais e sons espalhados dentro deste incrível caldeirão cultural. A música rompe fronteiras, dizem que acalmam as feras, dizem que podem unir povos.
Pois bem, fiquemos então com o poeta piauiense...
"(...) Minha terra tem palmeiras de babaçu onde canta o buriti/e a melhor água do mundo/e um poço/e um menino/como posso agora cantar minha terra/estando tão longe-perto dela/como posso eu e essa miséria louca/descobrir destruir as ruínas de lar"
Todos cantam sua terra, também vou cantar a minha, Torquato Neto
Eduardo Cruz
mos que o romance histórico é a prosa narrativa ficcional cuja ação decorre no passado, essa literatura cuja ação decorre no passado histórico, ao nosso ver, sempre foi abundante. Porém cabe a muitos teóricos a sacralização de Walter Scott como o iniciador da tradição moderna que situa esse tipo de romance, que pode ser de amor, em um passado que tem como base fatos reconhecidos. Nossos patrícios portugueses acreditam que “o uso que este autor fez dos pormenores históricos e as subseqüentes imitações que escritores europeus desenvolveram da sua técnica, levaram a que o gênero prosperasse.”
ra, refletem esse impasse. De um modo geral, “seguindo os procedimentos de toda literatura de fundação da nacionalidade, inclusive a européia, a narrativa romântica latino-americana, procurando elipsar os traumas da conquista ibérica e criar imagens que nos aproximassem do modelo de civilização européia, teve de trabalhar mais com o esquecimento do que com a memória para transcender a diversidade que nos constitui, visando nos emprestar uma face homogênea”.
, em 1o de janeiro de 1893, e faleceu em São Paulo, SP, a 4 de maio de 1937. Órfão de pai aos quatro anos, sua mãe cuidou sozinha de nove filhos pequenos. Sendo assim, colocou-o como interno no colégio do seu Chico Pereira e começou a trabalhar para viver e sustentar os filhos. Transferindo-se com a família para São Paulo, o adolescente Paulo entrou para o Ginásio Nossa Senhora do Carmo, dos irmãos maristas, onde estudou durante seis anos. E foi lá que começou o interesse pela literatura e pela filosofia. Fez o curso de Direito em São Paulo. Ainda freqüentava o segundo ano quando decidiu fazer-se jornalista. Em 1918 inicia a sua principal fase de sua produção literária, que o levaria a ser o escritor mais lido do país destacando-se, especialmente, pelo gênero do romance histórico, com A Marquesa de Santos (1925) e O Príncipe de Nassau (1926). “Sabia como romancear os fatos do passado, tornando-os vivos e agradáveis à leitura. Os sucessivos livros que escreveu sobre o ciclo das bandeiras, a começar com O ouro de Cuiabá (1933) até O sonho das esmeraldas (1935), tinham o sentido social de levantar o orgulho do povo bandeirante na fase pós-Revolução constitucionalista (1932) em São Paulo, trazendo o passado em socorro do presente.” De suas obras destacamos As maluquices do Imperador, contos-históricos (1927); Nos bastidores da história, contos (1928); O ouro de Cuiabá, história (1933); Os irmãos Leme, romance (1933); El-dorado, história (1934); O romance da prata, história (1935). Assim como ele, Raul Pompéia nos legou o delicioso Jóias da Coroa.
s sucessos de vendagem como o de A casa das sete mulheres de autoria de Letícia Wierzchowski. A jovem escritora portoalegrense, começou a escrever aos 25 quando abandonou a Faculdade de Arquitetura. Se o romance de Mitchell tinha como pano de fundo uma guerra onde no livro se destacam as personagens femininas, no livro de Letícia o cenário foi a Guerra dos Farrapos, a mais longa guerra civil do continente. A história é recontada pela ótica da solidão e da força feminina.
smouth, 1812) o trabalho de repórter lhe dava condição de circular em meio à aristocracia londrina. É a partir desse contato que Dickens passou a publicar, crônicas humorísticas sob o pseudônimo de Boz. Depois, em forma de folhetim, publicou os capítulos de seu romance "As Aventuras do Sr. Pickwick". Como Zola, Dickens denuncia freqüentemente o poder político e os ricos vaidosos e especuladores. Nele o pensamento idealista e o romance sentimental unem-se para comover a sensibilidade do leitor e despertar a sua consciência moral. Torna-se um mestre das narrativas protagonizadas por crianças como em David Copperfield, Tempos Difíceis ou Oliver Twist e garante sua condição de cronista de toda uma época. Mas em "História de Duas Cidades" (1859) e "Grandes Esperanças" (1861) que identificamos a sua melhor compreensão da história. Nos últimos anos de sua vida iniciou o livro "O Mistério de Erwin Drood", cujo desfecho permaneceria desconhecido: Dickens morreu em 9 de julho de 1870, antes de concluí-lo.O cinema e a infância
Nesta edição do Suplemento Cultural nosso ensaio vai falar de cinema, ou melhor, das crianças no cinema. Frente a tanta violência contra nossas crianças e adolescentes que martelaram nossas mentes nesse último mês vale lembrar que nem sempre a ficção é mais cruel que a realidade.
Vamos a uma idéia - "Francisco, lavrador do interior de Goiás, tem um sonho aparentemente impossível: transformar dois de seus nove filhos numa famosa dupla sertaneja. Morando numa casinha de adobe, em meio ao nada e horas distantes do vilarejo mais próximo, ele não mede esforços neste caminho. Teria chance desse rascunho se transformar em um” blockbuster’?
Continuando - "deposita sua esperança no primogênito Mirosmar ao dar-lhe um acordeão quando o menino tinha apenas 11 anos. Mirosmar e o irmão Emival que ganhara um violão começam a se apresentar com sucesso nas festas da vila até que, no início da década de 70, às voltas com a perda da propriedade, toda a família se muda para Goiânia e vive um momento de enorme dificuldade”.Um tanto melodramático e se você nem gosta de música sertaneja (como o Nelsinho Mota) esse roteiro é uma tortura.
Quer um pouco de molho para a choradeira? Pois lá vai - “Para ajudar nas despesas, os meninos tocam na rodoviária (lembra a Central do Brasil?), onde conhecem Miranda, empresário de duplas caipiras, o primeiro empresário da dupla, com quem desaparecem por mais de três meses. Os meninos fazem sucesso e chegam a cantar para 6 mil pessoas no interior do Brasil quando um acidente interrompe dramaticamente a carreira da dupla”.
Depois desse trecho do filme, e uma caixinha de "Kleenex" você pode desistir, foi fisgado pelo "2 filhos de Francisco" e depois de quase desistir, Mirosmar volta a cantar, vira Zezé di Camargo e grava sem sucesso um disco solo em São Paulo. O resto você já sabe suas músicas são gravadas e fazem sucesso na boca de outras duplas, como Leandro & Leonardo, mas Zezé não se conforma em ser apenas compositor e pensa em desistir e é neste momento que encontra no irmão Welson (Luciano), 11 anos mais novo, o parceiro perfeito para concretizar a profecia de seu pai. Em 1990 Zezé Di Camargo e Luciano gravam e lançam um disco com a música "É o Amor”, composto por Zezé. Com a ajuda do pai, os filhos de Francisco conquistam as rádios e vendem um milhão de discos. O que o filme tem de mais? Além da cantoria as sempre ótimas atuações de Angelo Antonio, Dira Paes e os meninos até a pouco desconhecidos Mirosmar (Zezé Di Camargo) e Welson (Luciano).
Outro sucesso também tinha como fio condutor à história de vida de um menino. Lembram que Dora é uma camelô de sessenta e poucos anos que luta para sobreviver no Brasil do "real". O mau humor sempre presente e só dobrado com o encontro com Josué que passa a representar para Dora a possibilidade de redenção através da descoberta do afeto e o "rompimento da sua existência viciada e minúscula".
Aos nove anos, Josué é um menino introvertido e precoce. A ausência do pai deu a ele a obrigação de amadurecer antes da hora e de desenvolver um instinto de proteção em relação à mãe, porém um acidente com a mãe devolve-o por um instante à sua própria idade e perplexo perde a capacidade de reagir. "O instinto de sobrevivência e o desejo de conhecer o pai permitem que ele saia do seu estado de catatonia". Fernanda Montenegro faz Dora que escreve cartas para analfabetos na Central do Brasil. Uma das clientes de Dora é Ana, que vem escrever uma carta com seu filho, Josué interpretado por Vinícius de Oliveira, que sonha encontrar o pai que nunca conheceu. Na saída da estação, Ana é atropelada e Josué fica abandonado. Mesmo a contragosto, Dora acaba acolhendo o menino e envolvendo-se com ele. Termina por levar Josué para o interior do nordeste, à procura do pai. Esse roteiro de Central do Brasil tem a dose certa de melodramaticidade que o brasileiro tanto gosta em seus filmes. Por certo que Central do Brasil é um filme mais cru que "2 Filhos de Francisco" porém mais uma vez a infância pobre e desassistida é o motor da história.
E se aprofundarmos essa visão crítica, verificamos que outro sucesso recente também tem como arrancada à vida de uma criança. Cidade de Deus, o filme, não existiria sem a personagem Zé Pequeno, digo Dadinho.
No passado tivemos alguns filmes que mostraram a infância um tanto quanto mais bucólica. "O menino de Engenho", "Meu pé de Laranja Lima" entre outros mostravam um Brasil rude, mas não tão dolorido. Existe espaço para as crianças e natureza no cinema brasileiro. Cássia Borsero que é jornalista e editora do site do Midiativa escreve que cabe "uma reflexão sempre oportuna sobre o que o cinema brasileiro está oferecendo às novas gerações. Não se trata de repisar o conhecido domínio das personalidades da TV - Renato Aragão e Xuxa - como as maiores bilheterias do gênero, sob a batuta da Rede Globo. Existem, é claro, exceção louvável à regra. No entanto, trata-se de buscar uma razão plausível para a inexistência de boas histórias (logo no Brasil, berço de alguns dos melhores escritores infantis do mundo) e para o investimento contínuo na ausência de riscos, ou seja, em produções de retorno garantido e baixa qualidade artística”.
Talvez Tainá seja o melhor exemplo de que é possível fazer um cinema que respeite a inteligência da criança, "sem a dobradinha celebridades infantis-atores globais, e com referências culturais de verdade". Tainá - Uma Aventura na Amazônia nasceu do encanto do produtor Paulo Rovai com as crianças ribeirinhas do Rio Negro, ao gravar o curta "Amazônia Viva - Uma Aventura Mágica", há 15 anos.
Ao ver os pequenos brincando livremente com bichos como macaco, papagaio e porco-espinho, Rovai logo pensou em fazer um filme infantil sobre o assunto. Tainá 1 foi lançado em 2000, com direção de Tânia Lamarca e Sérgio Bloch. Atraiu mais de 850 mil espectadores, foi exibido em dez países e ganhou oito prêmios internacionais. A indiazinha foi às telas com a atuação de Eunice Baía. Já Tainá 2 - A Aventura continua segue a mesma linha na luta contra caçadores. Mas, desta vez, a já adolescente Tainá tem como discípula uma indiazinha de 6 anos, Catiti, que a segue pela mata tentando imitá-la como protetora da natureza.
Na verdade filmes bem realizados com orçamentos menores que besteiras homéricas como o que a Cidade Perdida de Igdrasil. Maria da Graça Meneghel tenta fazer um filme que conta que ha milhares de anos, os vickings teriam viajado pelo Atlântico e subido o rio Amazonas, construindo uma cidade subterrânea para defender um tesouro muito valioso. "E lá vivem eles, felizes e loiríssimos, falando sueco (?!), esperando a volta de uma deusa, que é ninguém menos que a própria Xuxa (?)". Poupemos nossas retinas cansadas com tanta sandice.
A infância e pré-adolescência nem sempre são retratadas com doçura e inocência. Muitas cenas e filmes muito provavelmente hoje não seriam rodados. Cenas como a de Xuxa e o menino que mora no bordel em "Amor, estranho amor" estão hoje fora de cogitação. E veja que ela estava contextualizada no roteiro que trazia as lembranças do jovem em sua infância. Talvez sequer "Lição de Amor" soberbamente interpretado por Lílian Lemmertz continuasse nas prateleiras como romance modernista.
Escândalo por escândalo, o que seria de Lolita o filme de 1962 dirigido por Stanley Kubrick que adapta para as telas o romance de mesmo nome de Vladimir Nabokov. O filme que conta à história da paixão do professor pela pré-adolescente Lolita é tenso e sutil e tinha James Mason como Prof. Humbert Humbert que também é o narrador, Shelley Winters como Charlotte Haze, a mãe e Sue Lyon como a fatal Dolores 'Lolita' Haze.
Prostituição infantil, sedução, sem querer banalizar o uso das parafilias é o tema, por exemplo, de Pretty Baby (Menina Bonita) estrelado por Keith Carradine, Susan Sarandon e Brooke Shields. O diretor Louis Malle enfrentou o tabu social e colocou Brooke Shields
então estrelinha de 12 anos na controversa analise da prostituição infantil na virada do século vinte, no legendário distrito red-light, Storyville de New Orleans. Violet (Shields) é filha de uma prostituta (Susan Sarandon) até que um dia o fotógrafo Ernest Bellocq (Keith Carradine) vai ao bordel para fotografar as prostitutas e fica fascinado por Violet, que será iniciada na carreira da mãe.
Já "Taxi Driver" estrelado por Robert De Niro, Cybill Shepherd e Jodie Foster, com direção de Martin Scorsese, é de 1976. Mostra o momento da década de setenta, onde a degradação urbana de Nova York era pontuada por comportamentos nada politicamente corretos. O personagem principal é Travis Bickle (Robert De Niro) ex-combatente do Vietnã e agora motorista de táxi. Apaixonado por uma prostituta mirim, em um misto de amor paterno e protetor e uma dose de insanidade torna-se um "vingador".
Jodie Foster foi ao lado de Brooke Shields a atriz pré-adolescente mais sexualizada e com extenso currículo no cinema norte americano. Por certo que aquele tempo até o fotografo David Hamilton, especializado em fotografar ninfetas também fazia seus filmes (como Bilitis que chegou a ser lançado em vídeo no Brasil), mas o enfoque era outro.
Alan Parker, por exemplo, estreou com "Bugsy Malone" (de 1976), que lhe rendeu um BAFTA para o melhor argumento e uma nomeação para a Palma de
Ouro em Cannes. O filme fracassou no Brasil, mas era um hilário musical onde o elenco era todo formado por crianças interpretando papéis de adultos. Uma comédia de gangsteres onde as metralhadoras atiravam chantilly. Jodie Foster mais uma vez era uma cantora/prostituta com um número provocante da canção "My name is Talula". Em 1982 mais uma vez, Parker decide investigar a infância e adapta o álbum dos Pink Floyd "The Wall".
Jodie Foster na verdade Alicia Christian Foster, nasceu em 19 de Novembro de 1962, Los Angeles, e é uma das únicas atrizes infantis em toda a história do cinema a não só a continuar a carreira na idade adulta como também a transformar-se numa profissional do primeiro time, tendo atuado em mais de quarenta filmes. Começou em comerciais (ela era a garotinha do famoso comercial dos bronzeadores Coppertone), passou por séries de televisão e por filmes dos estúdios Disney. Ao sair da Disney teve sua polêmica performance em Taxi Driver (1976), como uma mini prostituta. Mas esta foi somente uma das várias vezes em que estaria por perto dos prêmios da Academia. Foi nominada para o Oscar por sua performance em Bugsy Malone (1976) representando Miss Tallulah, e por The Little Girl Who Lives Down The Lane (1976) na pele de uma jovem assassina, ainda quando pré-adolescente.
UM POUCO DE INOCÊNCIA
Quando falamos em Jodie na ativa, temos que lembrar que Brooke Shields interrompeu sua carreira assim como a artista mirim de maior sucesso de todos os tempos Shirley Jane Temple. Começou sua carreira em Hollywood aos três anos de idade. Ela cantava e dançava em seus filmes e foi um produto de marketing imbatível, com sua marca licenciada em bonecas, fonógrafos, discos, chapéus, roupas, acessórios, etc. Dava
grandes lucros aos estúdios e nos anos 1936-37-38, era nome dos "blokbuster" ao lado de Clark Gable, Bing Crosby, Robert Taylor, Gary Cooper e Joan Crawford. Em 1939, suas popularidade começou a declinar. Talvez seus melhores filmes sejam "Since You Went Away," e "Bachelor and the Bobby Soxer". Interrompida a carreira optou pela diplomacia e foi embaixadora em Gana e Czechoslovakia.
Dessa época de inocência podemos relembrar talentos precoces como Elizabeth Taylor (que contracenava com a cachorra (na verdade um macho) Lassie e Judie Garland que ficou famosa com a sua Doroty em "O mágico de Oz". Dos garotos prodígios o sobrevivente foi Joe Yule Jr mais conhecido como Mickey Rooney, nascido em 23 de setembro de 1920 no Brooklyn, New York. Seus pais eram a garota do coro Nell Carter e o cômico Joe Yule Sr., que atuavam em vaudevilles. Sua estréia, mesmo que acidental, foi aos 17 meses de idade quando interrompeu atuação do pai o que provocou uma explosão de gargalhadas na platéia. Seu futuro estava selado.
Em 1924, a mãe de Mickey decidiu que ele era perfeito para a série Hal Roach's "Our Gang", porém seu primeiro filme foi "Not To Be Trusted" de 1926 onde intrepretava um anão. Foi o número um do "box office actor in the United States" em 1939-41.
LATINOS
Ainda na inocência. Por um certo período as crianças hispânicas e latinas brilharam em nossas telas. Era o fim dos anos cinqüenta e início dos anos sessenta e ninguém esquece da figura de Pablito Calvo, Joselito e de Marisol (essa mais crescidinha).
Joselito, na verdade chama-se José Jiménez Fernández, nasceu em 11 de fevereiro de 1943, em Beas del Segura, Jaén, atuava no rádio e às vezes em público. Foi Antonio Guzmán Merino, consciente do potencial do garoto, que o põe em contato com o produtor Antonio del Amo que se converteria em seu pigmaleão cinematográfico.
Sob sua direção Joselito estréia em El pequeño ruiseñor (1956), filme de baixo orçamento, rodado em preto e branco e que no Brasil levou o título de O Pequeno Rouxinol. Foi um estrondoso sucesso nos países de lingua espânica e até em países pouco receptivos ao cinema espanhol como França, Itália e países árabes.
O sucesso do filme frutificou com Saeta del ruiseñor (1957), El ruiseñor de las cumbres (1958), Escucha mi canción (1958), e El pequeño coronel (1959) todas dirigidas por Antonio del Amo para Cesáreo González / Suevia Films. Demostrada a penetração de seu personajem, Joselito inicia sua aventura americana rodando no México - Aventuras de Joselito en América / Aventuras de Joselito y Pulgarcito (René Cardona e A. del Amo, 1960).
Filmará de novo na Espanha Los dos golfillos (A. del Amo, 1960), El caballo blanco (Rafael Baledón, 1961) y Bello recuerdo (A. del Amo, 1961). Depois vieram as produções européias - El secreto de Tommy / Le secret de Joselito (A. del Amo, 1963) e Loca juventud / Questa pazza, pazza, pazza gioventú (Manuel Mur Oti, 1963), que inicia a sua despedida do personagem infantil que vinha encarnando.
Josefa Flores González, mais conhecida pelo nome de Marisol, nasceu em Málaga a 4 de novembro de 1948. Era apaixonada por cantar e por dança flamenca. Integrou o Coros y Danzas de sua cidade natal. Uma de suas atuações foi televisionada direto da Feria del Campo que se celebrou na capital espanhola em 1959. A jovem bailarina chamou a atenção de Manuel Goyanes, que ofereceu sua primeira oportunidade cinematográfica.
Será Un rayo de luz, dirigida por Luis Lucia, que iniciará seu estrelato infantil e com quem rodará sua trilogía inicial, que inclue Ha llegado un ángel e Tómbola. A natureza acaba por impor sua lei nos anos setenta, e os papéis de garota dão lugar para bela mulher em que a jovem atriz se transformou.
A legendária carreira de Marcelino, pan y vino (1955),que filmou aos 8 anos,o converteu em um mito para a Espanha da pós guerra. Fez outros filmes com Ladislao Vajda e mais cinco com outros diretores. Seu nome, Pablito Calvo. Pablo Calvo Hidalgo nasceu em Madrid a 16 de março de 1949. A sua carreira cinematográfica é curta - em 1954, Marcelino Pan y Vino; 1956, Mi tío Jacinto; 1957, Un ángel pasó sobre Brooklyn, os três de Ladislao Vadja; 1958, Totó y Marcelino, de Antonio Musu, na Italia; 1960, Juanito, de Fernando Palacios; 1961, Alerta en el cielo, de Luis César Amadori; 1962, Dos años de vacaciones, de Emilio Gómez Muriel; 1962, Barcos de papel, de Román Viñoly Barreto, na Argentina. As melhores, inclusive para ele foram, Mi tío Jacinto; e o mítico, Marcelino Pan y Vino. Pablo Calvo faleceu em Fevereiro de 2000 aos 51 anos de idade no hospital de Alicante, em conseqüência de um derrame cerebral.
E mais recentemente, nos anos setenta foi a vez de Carlos Saura nos brindar com “Cria Cuervos”. Geraldine Chaplin era Ana, a mãe, e tinha no elenco a estrela mirim Ana Torrent. A trilha é a inesquecível "Porque te vás" com a também precoce Jeanette.
ESSES SÃO DE MORTE!
Não estamos falando dos moleques endiabrados como “O menino Maluquinho” ou de Mcaulay Culkin em “Home Alone” (Esqueceram de mim) ou de Dennis, o Pimentinha (Dennis the Menace) e sim algo muito mais macabro.
Vejamos, sem as crianças o que seria, por exemplo “O Exorcista” com a terrificante interpretação de Linda Blair. Ou vamos mais longe, quem arriscaria um roteiro como esse - “diplomata preocupado em não chocar a esposa em virtude da morte do seu filho ao nascer lhe oculta o fato e adota um recém-nascido de origem desconhecida, sem saber que a criança era o AntiCristo em pessoa. “ Pois arriscaram e o resultado foi três filmes( ou melhor, quatro).
A Profecia (The Omen) é o primeiro de uma série de três filmes baseados no personagem Damien e foi dirigido por Richard Donner (Os Goonies) e com Gregory Peck no elenco. Damien foi interpretado pelo garoto Harvey Stephens. Os demais são A Profecia 2 (1978) e A Profecia 3 - O Conflito Final (1981). Houve ainda um quarto filme da série, feito diretamente para a TV americana e chamado A Profecia 4 - O Despertar
Se não creio em bruxas, mas... veja só: Ocorreu uma série de acidentes durante as filmagens de A Profecia quando seu título original ainda era "The Antichrist to the Birthmark". O hotel onde o diretor Richard Donner estava hospedado sofreu um atentado com bombas do IRA; o avião do roteirista David Seltzer sofreu um acidente; o ator Gregory Peck cancelou na última hora um vôo para Israel cujo avião sofreu um acidente e todos os que estavam dentro dele faleceram; e ainda os principais atores do filme sofreram um acidente automobilístico quando se dirigiam para rodar uma das cenas do filme.
Stephen King, mestre do suspense e terror também se utiliza de criancinhas um tanto aterradoras como nos filmes “As Crianças do milharal” ou “Cemitério Maldito” porém seu talento aparece em melhor em “Conta Comigo” (Stand by me) uma história sobre companheirismo na infância.
Muitos diretores cometeram filmes autobiográficos, retratando as suas infâncias ou relembrando histórias desse período. Federico Fellini negou várias vezes que Amarcord (Itália / França, 1973) fosse um filme autobiográfico, mas concordou que há passagens semelhantes a fatos por ele vividos em sua infância. É por meio da memória do garoto Titta (Bruno Zanin), que Fellini faz um panorama da vida familiar, religião, educação e política dos anos 30, quando o fascismo era o regime vigente. Já a França dos anos de guerra ressurge com um cineasta francês, Louis Malle que filma um episódio de sua própria infância, da amizade bruscamente interrompida pela guerra. Durante a ocupação nazista na França em 1944, Julien Quentin (Gaspard Manesse) é um garoto esnobe que no colégio interno, é rival de Jean Bonnett (Raphael Fejto), um menino reservado e com o tempo a rivalidade entre os dois se transforma em admiração e amizade.
O cineasta sueco Ingmar Bergman filmou, “Fanny e Alexander”, (Suécia, 1982). São cenas de sua infância e o filme apresenta um alegre Natal na família Ekdahl, onde o pai de Alexander (Bertil Guve) e Fanny (Pernilla Allwin) falece. A mãe casa-se com um pastor rígido religioso e as crianças começam a conviver com o padrasto de hábitos severos. Roberto Rosselini nos deu Alemanha Ano Zero (Germania, Anno Zero, Italia, 1947) , onde Edmund (Edmund Moeschke), um garoto de uma família muito pobre, trabalha para sustentar o pai doente, sua pequena irmã e o irmão e que passa a considerar a possibilidade de matar seu próprio pai, para cortar gastos.
Outro clássico é O Balão Branco (Badkonade Sefid, Irã, 1995) Dirigido por Jafar Panahi é um filme de construção plástica onde as imagens traduzem sentimentos. O roteiro de Abbas Kiarostami acompanha a desesperada busca de uma menina que perdeu o dinheiro destinado à compra de um peixinho dourado, símbolo tradicional de sorte e fortuna no ano-novo iraniano.
Outro filme de rara sensibilidade é O Jardim secreto (The Secret Garden, EUA, 1993). Uma refilmagem de Agniezka Holland para o clássico de 1939 que é baseado no romance de Frances Hodgson Burnett. É a história de Mary Lennox (Kate Maberly), que desprezada pelos pais e pelo tio que a acolhe num imenso castelo quando ela fica órfã. A solidão da garota a leva a cultivar secretamente um jardim, com a ajuda do filho de um empregado e do primo que está limitado por andar em cadeira de rodas.
Realmente as crianças no cinema são um assunto sério. A visão adulta transforma lembranças em imagens fortes e buscam resgatar sentimentos. Quando não caem na pieguice são obras primas. Pode-se fazer cinema para e com crianças, mas não se pode fazer baboseiras para toda uma infância quase que perdida. Em tempo “Dadinho é @#%$, meu nome é Zé Pequeno”. Lembrem-se!
Eduardo Cruz

