Domingo, 12 de Outubro de 2008

O SONHO ACABOU ?

AO MENOS NAS LIVRARIAS NÃO!

 

Dizem que existe uma certa ciclocidade no mercado editorial. Explico, alguns autores ou algum “estilo” de literatura parecem retornar do pó (dos secos) para as nobres prateleiras das livrarias mais, digamos “badaladas”. Se não fosse assim, muitas vezes perderíamos a oportunidade de ler ou reler muitas obras que só com muita garimpagem podem ser encontradas. Essas obras em geral são aquelas, as muito citadas e nunca lidas. Exemplo clássico disso é o “catatau” Ulisses, de Joyce ou mesmo o Catatau de Paulo Leminsky.

 

O momento agora é (seria?) de contra-cultura. Separados nas prateleiras dos sebos e com preços muitas vezes de obras raras, esses livros que foram publicados dos meados dos anos 70 a meados dos anos 80, acabaram por se transformar em jóias bibliófilas. Quem não quer uma rara edição (já mais recente) de Factótum, de Charles Bukowski ou ainda de Pergunte ao pó, de John Fante?

 

Pois aí está a questão. A contra-cultura está rediviva, o underground está redescoberto. Ao menos nos principais sebos de São Paulo já existem prateleiras especiais para a “beat-generation”, mesmo que nela tenham de conviver com Kerouak, Neal Cassady, Borroughs, livros de Fante, Thomas de Quincey, Salinger ou Bukowski. Mas tudo está valendo, e tem espaço para a “prata da casa”, com Wally Salomão, Paulo Leminski, Glauco Matoso e raridade das raridades, Os Últimos Dias de Paupéria ( o original), de Torquato Neto.

 

Compreenda-se. Na verdade nessa prateleira estaria a contra-cultura, termo outrora muito em voga, que serviria para designar a princípio uma corrente literária e cultural nascida nos anos 50 nos Estados Unidos, primeiro como movimento beatnick e que ganhou fôlego com as devidas adaptações até os meados de 70, sepultado pelo movimento (sic) hippie. Tudo era aglutinado como uma posição de confronto com a sociedade conformista da segunda guerra mundial e depois da resistência à guerra do Vietnan. Por aqui tínhamos a ditadura militar o que já pode explicar muita coisa. Se tivemos a guerrilha, também tivemos o “desbunde” e como tal foi para as bancas e livrarias. O sonho ainda não havia acabado!

 

O mote principal deste artigo foi o "reencontro" de Pergunte ao Pó, de John Fante. O livro do escritor norte-americano, que desde o final dos anos 70 não era reeditado no Brasil. Foi traduzido nos idos dos anos 80 pelo poeta curitibano Paulo Leminski - ganhou fama e status de obra cult. Basta dizer que o livro influenciou diversas gerações como a dos poetas beatnicks Allen Ginsberg e William Burroughs, porque o livro é bem “velhinho”. O romance de John Fante é um retrato dos primeiros anos pós-recessão nos Estados Unidos e foi escrito em 1939. A saga de Bandini serviu como fonte de inspiração para a prosa onírica de Jack Keruack, que tinha em Fante uma espécie de guru.




John Fante nasceu no Colorado em 1909 e começou a escrever em 1929. Publicou inúmeros contos em The Atlantic Monthly, The American Mercury, The Saturday Evening Post, Collier's, Esquire e Harper's Bazaar. Seu primeiro romance, Espere a primavera, Bandini, saiu em 1938. No ano seguinte, lançou Pergunte ao pó. Neste meio tempo, ocupou-se em escrever roteiros de cinema. Alguns de seus créditos incluem Full of Life (Um Casal em Apuros), Jeanne Eagels (Lágrimas de Triunfo), My Man and I (Sem Pudor), The Reluctant Saint (O Santo Relutante), Something for a Lonely Man, My Six Loves (Meus Seis Amores) e Walk on the Wild Side ( Pelos Bairros do Vício). John Fante foi acometido de diabetes em 1955 e as complicações da doença provocaram a sua cegueira em 1978; mas continuou a escrever ditando à sua mulher, Joyce, e o resultado foi Sonhos de Bunker Hill. Ele morreu aos 74 anos, em 8 de maio de 1983.

 

Porém, e sempre tem um porém, a Editora José Olympio já relançou o clássico de John Fante, Pergunte ao Pó, com uma nova tradução, desta vez de Roberto Muggiati. E o livro que conta a história do alterego do autor, o escritor Arturo Bandini que é filho de imigrantes, um jovem pretenso a escritor que se sente excluído da sociedade passou a ser disputado em duas versões, com mais defensores da primeira que da segunda perpetrando a aura de raridade da outra edição do livro.

 

Um dos fatores além dessa identificação de autores uns os com outros, que permitiram o leitor agregar estes títulos e autores em um só cadinho foram as “coleções” como as da editora Brasilense. Hoje está distante daquela ousada editora que criou o “Circo das Letras”. É desta coleção que saem os disputados títulos de Wally, Bukowski, Keruak (On the road), Salinger, Fante e até Pasolini. A outra editora pródiga nesta seara era a L&PM, que foi a pioneira em publicar Charles Bukowski. Hoje, aposta todas as suas fichas em edições populares, pockets books encontrados em displays em uma salada cultural impar e uma divulgação pífia (ô relaxo!). Mas mesmo assim, os autores e leitores, não tendo culpa, vale indicar

O livro dos Sonhos – Jack Keruac; O primeiro terço, de Neal Cassady; Hollywood, Notas de um velho safado e A mulher mais linda da cidade, de Charles Bukowski. Pode ser que outros títulos tenham sido reeditados. O certo é que a mesma editora também já foi pródiga em publicar os quadrinhos adultos, outra faceta dessa contra-cultura.

 

É curioso como uma história puxa a outra, Charles Bukowski, agora vizinho de prateleira de Fante, escreveria em 1979 – "Eu era um jovem, passando fome, bebendo e tentando ser escritor. Nada do que eu lia tinha a ver comigo. Eu tirava livro após livro das estantes. Por que ninguém dizia algo? Por que ninguém gritava? Então, um dia, puxei um livro e o abri, e lá estava. As linhas rolavam facilmente através da página, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. (...) E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor estavam entrelaçados com uma soberba simplicidade. O livro era Pergunte ao Pó e o autor, John Fante. Ele se tornaria uma influência no meu modo de escrever para a vida toda. Trinta e nove anos depois, reli Pergunte ao Pó. Ele ainda está de pé, como as outras obras de Fante, mas esta é a minha favorita porque foi minha primeira descoberta da mágica."

 

Infelizmente poucos ousam republicar a obra de Bukowski, e pior, ignoram a sua poesia. A exceção coube a Bertrand Brasil que pelas mãos de um pernambucano, Jorge Wanderley, nos trouxe cuidadosas traduções dessa vigorosa poesia (o livro é Os 25 melhores poemas de Charles Bukowski). Jorge não pôde ver o livro impresso, mas a edição da Bertrand Brasil é uma homenagem justa a seu empenho. Na introdução, Márcia Cavendish Wanderley nos conta “... Bukowski defendeu intensa e ostensivamente sua marginalidade na vida e na obra. Aquele ‘demonismo’ que teve em Baudelaire sua mais momentosa voz foi bandeira desfraldada pelo poeta bêbado. Em Jorge ele também existiu, mas escondia-se sorrateiro sob suas sobrancelhas mefistofélicas, carinhosamente cultivadas e acariciadas (...) e por isso traduziu tão bem Bukowski, a quem respeitava, sobretudo pelo seu desprezo em relação a toda e qualquer representação institucional da vida, por tudo que não fosse carne da alma”.

 

O último livro de Bukowski (O Capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio) foi ilustrado por Robert Crumb, outro editado no Brasil. Crumb nasceu na Filadélfia, em 30 de agosto de 1943. Começou sua carreira profissional no início dos anos 60, na revista Help, dirigida por Harvey Kurtzman, o criador e editor do período mais anárquico e celebrado da revista Mad. Crumb abandonou Nova York e foi para San Francisco onde tornou-se o líder (ainda que a contragosto) do movimento das revistas underground norte-americanas. Seus ataques contra o moralismo e hipocrisias da sociedade norte-americana foram razões de muitos escândalos, polêmicas e problemas com a Justiça dos EUA. O ícone da contracultura desenhava desde criança, quando criou um personagem, Fred, o gato, que se tornou um de seus personagens mais conhecidos, Fritz, the Cat. Foi o primeiro desenhista da Zap Comix. Mudou-se para Paris e criou com sua segunda mulher, Aline Kominsky, a revista Weirdo. Crumb é mais conhecido no Brasil pela capa do disco de Janis Joplin – Cheap Thrills e pelo Fritz, The Cat que virou longa de animação.























 

A Conrad Editora ao menos publicou três obras de Crumb, o clássico Fritz The Cat , Mr.Natural e uma edição da Zap Comix. Todos imperdíveis! Mas nesse universo das publicações de cults também surgem algumas no mínimo, curiosas, como Memórias de um anarquista japonês de Osugi Sakae, um pacifista em uma sociedade militarizada, feminista em uma sociedade machista. Osugi Sakae (1885-1923) ofendeu todas as autoridades, desrespeitou as leis, riu das tradições, lutou pela revolução e construiu sua vida na medida certa para causar escândalo no Japão do início do século XX. Ou ainda O Tao do Jeet Kune Do, de Bruce Lee (isso mesmo, o dos filmes) e mostra um lado dele que poucas pessoas conhecem: o de filósofo. O mais famoso nome das artes marciais de todos os tempos, após estudar filosofia ocidental nos EUA, buscou referências nas tradições orientais como o Budismo e desenvolveu sua própria filosofia de autoconhecimento, o Jeet Kune Do. Acreditem, este best-seller internacional vendeu mais de um milhão de exemplares no mundo, já foi publicado em nove idiomas e vendido em 28 países, só faltava o Brasil.

 

O mercado indica que sempre existe espaço para um certo revival. Muitos escritores que parecem esquecidos podem voltar com pique de sucesso. Saudosismo? Por certo que não. Eles ainda têm muito a dizer, seja através dos seus livros ou mesmo pessoalmente. Robert Crumb por exemplo concedeu uma entrevista publicada no Jornal Folha de São Paulo e questionado sobre algum conselho para o presidente Bush, respondeu como seu personagem guru Mr. Natural – “’Sr. Bush, vá se sentar numa caverna numa montanha e passe uns dez anos sozinho, pensando no que você fez’. E ele devia ser deixado sozinho numa caverna, e todo dia alguém deixaria comida para ele na entrada, para que ele pudesse pensar melhor nas coisas”.

 

Glauco Mattoso que tem publicado agora muitos de seus livros (http://suplementocultural.blogspot.com/2008/10/glauco-mattoso.html). Vide em entrevista a Luiz Fernando Emediato e Flavia Fontes disse que as gerações literárias “mudam de rótulo a cada década. Nos anos 70 fui rotulado de marginal, nos 80 de punk e nos 90 pós-moderno(...) E questionado se existiu mesmo um sonho, e se existiu se havia acabado respondeu – “O sonho não acaba. Quem morre assassinado é o Lennon, enquanto o George morre de câncer e o Paul, rico e nobre, já esqueceu que foi Beatle. Eu tenho insônia e pesadelo todas as noites, por causa do trauma da cegueira, mas continuo sonhando que enxergo e nesses raros sonhos bons continuo vendo tudo em cores. Enquanto tivermos a memória daquilo que valorizamos, continuaremos sonhando”. Faço minhas as palavras dele, e vamos continuar garimpando as prateleiras dos sebos da memória enquanto as reedições não chegam!

Eduardo Cruz

Jornalista

publicado por o editor às 15:57
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