Quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

Crônica da Urda - SERRA CATARINENSE/FOGUEIRA

 

 

SERRA CATARINENSE/FOGUEIRA
===========================
(Para Eduardo Venera dos Santos Filho)
(...) você anunciou que iríamos fugir. Deslizamos rapidamente para o quarto. Você procurou um agasalho para mim e perguntou se eu tinha a chave para voltar, e um instante depois pulávamos a janela e fugíamos correndo até seu carro.
Lembra como a vida era linda? Lembra o quanto nós nos amávamos? Lembra de como ficamos rodando sem destino por algum tempo, até que você me perguntou se eu tinha algum plano, alguma ideia do que faríamos a seguir? Pensei um pouco e disse-lhe que poderíamos fazer uma fogueira. A ideia parecia um pouco estranha, mas era lindo pensar num grande monte de fogo subindo por dentro da noite fria e escura, e você perguntou-me aonde é que faríamos a fogueira. Disse-lhe que poderíamos procurar algum lugar, e no instante seguinte você pisava forte no acelerador e seguia para fora da cidade.
Rodamos devagar pela rodovia, observando atentamente ambas as margens, tentando idealizar uma fogueira em algum dos lugares que víamos. Havia um local em que a estrada rasgara a encosta de uma coxilha suave, uma coxilha onde havia um capão de mato: pinheiros altos sombreando raquíticas árvores que mais se assemelhavam a arbustos. Resolvemos tentar aquela: sob pinheiros, sempre há galhos caídos, e se lá não houvesse madeira, tínhamos tempo para procurar outro lugar.
 Você lembra? Do pequeno barranco, da cerca de arame que delimitava a rodovia, da árvore que fora quebrada ou derrubada recentemente, entrevista na claridade da lua que se filtrava entre os pinheiros? E de como procuramos erva seca, agulhas de pinheiro e pequenos galhos para começarmos o nosso fogo? E de como tudo estava tão molhado de orvalho que gastamos uma caixa de fósforos inteira sem conseguirmos sequer uma chama? E de como você se feriu nas farpas do arame da cerca, quando foi até o carro buscar outra caixa de fósforos? E você lembra como a noite era mágica e linda, como a noite era cheia de ternura e poesia, e de como a vida era bela?
Afinal, conseguimos a primeira chama, frágil, vacilante, e cuidamos dela como se fosse um amorperfeito assustado, com medo de desabrochar. Talvez tivéssemos tanto amor que transmitíssemos coragem ao amor perfeito amedrontado – a chama se ergueu, orgulhosa, desdobrou-se em outras, exigiu alimento, e corremos a lhe oferecer cada vez galhos mais grossos , quebramos pedaços da árvore derrubada, até que a fogueira se tornou plena e lhe demos a árvore inteira de presente.
O fogo, afinal, crepitou e subiu pela noite como uma coluna sagrada, e a fascinação que sentíamos por ele provavelmente era igual à fascinação dos primeiros homens das cavernas diante do primeiro fogo que existiu. Ele já não precisava de nós, mas nós precisávamos dele, e nos sentamos, um em cada lado da fogueira, a olhar para as chamas enormes, exigentes, bailarinas, coloridas, devorando um pedaço da noite como uma criança faminta devora um pedaço de torta, soltando milhões de fagulhas efêmeras pelo ar, fazendo SOMBRA  para a lua que se tornou pálida e distante. Tínhamos uma fogueira inteira para nós; tínhamos pedras para nos sentarmos; tínhamos o céu como nosso teto – o que mais a vida poderia nos oferecer? Eu olhava para você sentado lá do outro lado, absorto na contemplação do fogo, com as chamas criando sombras dançantes sobre a perfeição das linhas do seu rosto, com as chamas esculpindo em suas faces uma estátua que parecia pétrea e encantada, e comparava-o a Winnetou sentado ao lado de alguma fogueira de lenda, no meio do descampado desolado de uma campina de Karl May.
 
 
                                                                                                                    1973.
 
                                                                                            Urda Alice Klueger
                                                                                             Escritora, historiadora e doutora em Geografia.    

 

publicado por o editor às 01:29
link | comentar | favorito

.tags

. todas as tags

.arquivos

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

.subscrever feeds