Segunda-feira, 20 de Abril de 2015

INÉDITOS - A POESIA DE MYRTHA RAC'Z - 22

 

 


POEMA IX

Venho de muitos caminhos
comprimida
por razões maiúsculas
Venho de muitos caminhos
de muitas praias
de muitas praias
de muito amor ancorado
numa dor estranha
como se houvesse um eu
sempre fora de mim.
Sou a última testemunha que não vi
o desastre , andar-me por rota vaga
sem encontrar meu topo.

No meu templo
os círios armam as ogivas sírias
e meu sacerdote tirou licença
para plantar saudade.
No meu templo
plantadas nas paredes minhas

Mas preciso, urgentemente,
de jaculatórias novas
para dizer o que não sei.
As cores decoram meu templo
descaradamente
esmaecendo sem pressa
assim como a palavra
es-ma-e-cen-do...
bem devagar
vagando aqui por dentro.

Venho de muitas gerações burguesas
que olham o relógio
como se houvesse hora
para matar ou morrer
Venho de muitos vires
De um sentir por dentro
{há tanto tempo}
Que já se tornou vício


Myrtha

{fim dos manuscritos}

 

 
publicado por o editor às 22:41
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Sábado, 18 de Abril de 2015

INÉDITOS - A POESIA DE MYRTHA RAC'Z - 21

 

 

 


POEMA VIII


Você que nasceu
com a marca do grilhão-avô
com olhar insubmisso
dos novos negros que virão
A você meninino-noite
que brinca com fuzis no Congo
esperando os trapos sujos
das instituições internacionais
A você menino-noite
dedico meu poema
Que o grito dos tam-tans
sejam ouvidos
pelas Onus do universo
Que cicatrizes ancestrais
mudem o curso do rio de sangue
que ficou atrás
Meu menino-noite
que todo o leito
que lhe foi negado
sirva de estrume 
para os que virão
poder cantar
à noite seus spirituals
Poder bailar altivo
Viver sem muros
sem a paralisia da cor
Menino-noite de todos os universos
seu canto será cantado
seu sonho será sonhado
se u grito será ouvido
seu sangue devolvido
pelos negros que virão
Menino-noite da Africa esquecida
toca seu tambor também
bate seu bater batido
A igualdade nunca virá sem luta
Apressa a pressa
os tempos são mudados
é hora de investir
A tradição apodrece nos convênios
nas assembléias
nas casas de prostituição
Sorri !
Pois sua luta é a nossa
Sua liberdade é o nosso preço
para que as gerações vindouras
de meninos negros
seja apenas mais uma geração
de meninos fortes
que cantam e dançam
sob o mesmo sol.




Myrtha

 

 
publicado por o editor às 17:01
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Sexta-feira, 17 de Abril de 2015

INÉDITOS - A POESIA DE MYRTHA RAC'Z - 20

 

 

 


POEMA VII (2)

Badala sino do outeiro
badala badala em ão
enquanto crianças pobres
de fome badalarão
balada sino do outeiro

Grita longe o jornaleiro
de fome grita primeiro
Jacinta, negra, suor
badala sino do outeiro
chamando toda a cidade
pra esquecer e rezar
pra esquecer da pobreza
da fome e do mau agouro
badala plangentemente
badala povo cristão
que vai esquecer na reza
seus filhos sem criação
badala sino do outeiro

Sino bom
sino alemão
trazendo triste saudade
do tempo da escrevidão
badala sino do outeiro
badala badala em ão
a fome é passageira
a saudade é que não
badala
sino
saudade
o que morre
mais uma tarde
na vila da expiação



Myrtha

 

 
publicado por o editor às 13:44
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Quinta-feira, 16 de Abril de 2015

INÉDITOS - A POESIA DE MYRTHA RAC'Z - 19

 

 



POEMA VII

Hoje
vejo o mesmo mar
batendo nas mesmas pedras,
escalada do meu ser adulto.
Sinto ainda a ânsia, o mêdo, o dar-se...
você, amando minhas pernas quentes,
os joelhos nervosos e os pés
gretados pelo sol.
Eu, amando sua beleza/homem,
as descobertas que fizemos
a coragem...o desafio!
Agora,
olho e sinto que te amo...
"Com a ternura que se ama
um passarinho morto!"



Myrtha
em Olinda / 1979

 

 
publicado por o editor às 14:23
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Quarta-feira, 15 de Abril de 2015

INÉDITOS - A POESIA DE MYRTHA RAC'Z - 18

 

 





POEMA VI


Hoje
Deu-me mal-jeito à alma
e
torcicolo ao espirito
hoje
só fui isto.
Ontem
perdi um poema
na esquina da avenida São João
nem por isso choveu.
Fez sol, houve lua
Em nada teve importância
meu poema ficou
na esquina da Avenida São João
do lado direito
de quem sobe só.



Myrtha  em São Paulo

 

 
publicado por o editor às 13:13
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Domingo, 12 de Abril de 2015

INÉDITOS - A POESIA DE MYRTHA RAC'Z - 17

 

 

 

SUAS MÃOS


Na ponta de seus dedos
os grandes segredos
há caminhos, sendas e fendas
No entanto
parecem pontas iguais
de mil dedos iguais
Ansiando perceber, de pé, inerte.
Me fez ouvir vozes de domingo
no longe do longe
Um sibilar sem vento
no perto do perto
Um lagrimar insentido
Na ponta, a ânsia
Na curva, o espanto
No tôpo, a morte.
A inércia sentada
À sombra sem reflexo
Na ponta de seus dedos
os grandes segredos
que só desvendo
ao ver vivendo
A ânsia
O espanto
a morte.



Myrtha em 1977

 

 
publicado por o editor às 13:16
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Sexta-feira, 10 de Abril de 2015

INÉDITOS - A POESIA DE MYRTHA RAC'Z - 16

 

 



CENA COMUM

Três à mesa
a mulher entrelaça os dedos
com o superhomem
enquanto a outra
(eternamente presente)
roça, com ele, as coxas quentes

Sobre a mesa
duas garrafas
cinco copos
e um belíssimo cruzeiro de cristal

a toalha olha triste.



Myrtha

em 1977 ?

 

 
publicado por o editor às 12:28
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Quinta-feira, 9 de Abril de 2015

INÉDITOS - A POESIA DE MYRTHA RAC'Z - 15

 

 

 


TRÁFEGO


Verde
Amarelo
Vermelho
Amarelo
Verde
Amarelo
Vermelho
Amarelo
Stop !

Se a trajetória de um homem
no espaço e no tempo
pudesse encontrar a imobilidade
em suas fronteiras
-  fazia-me motorista.


Myrtha

em 1977 ?


 

 
publicado por o editor às 14:57
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Quarta-feira, 8 de Abril de 2015

INÉDITOS - A POESIA DE MYRTHA RAC'Z - 14  

 




CANÇÃO (QUASE) MEDIEVAL


Senhor
a aurora aureia
e vem
tristeza imensa de
Vossa ida/partida
que não viste

Senhor - dor
na dormência de minhas mãos
imploro-vos

Senhor
Vós que viveste
no século anterior ao meu
que não pude tanger estrelas
e pirilampos nos campos da Normandia
Dizei, Senhor
pode haver sofrimento mais terno,
mais eterno, mais interno
que não vos terdes
em meus braços baços ?


Myrtha em 1976

 

 
publicado por o editor às 17:20
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Terça-feira, 7 de Abril de 2015

INÉDITOS - A POESIA DE MYRTHA RAC'Z - 13

 

 



ROSA SEM VENTO

A mim deram uma bussola sem norte
e saí tremendamente à procura de um sul....
Sem rota, tentei encontrar verdades novas
qoe fossem maiores que as já desconhecidas
e em minha busca
encontrei arqipélagos de dor
e ilhas de amores impossíveis
continentes inteiros de saudades mortas...
Sofri várias correntes contrárias
e tempestades de solidão.
Ao nordeste encontrei a miséria humana
infantilmente miserável na minha infância
Ao sudeste tentei em vão procurar-me
e perdendo a agulha magnética
que nunca possuí, encontrei mares de tédio
e rios de formalidades...
Ao leste e ao oeste
encontrei pastagens de imcompreenções
e criações de amarguras bovinas.

Quase me encontro ao sudeste
quando vi passaros de esperanças
e arvores de ideal, floridas
Ao noroeste sentei-me
em toco de metafísica
e só então descobri que a mim deram
uma bussola sem norte
e me perdi sorrindo...


Myrtha em 1976

 

 
publicado por o editor às 17:20
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